Gritos de Diniz geram incômodo e discussão sobre limites dos técnicos
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Gritos de Diniz geram incômodo e discussão sobre limites dos técnicos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Líder do Campeonato Brasileiro, o São Paulo teve uma atuação desastrosa e perdeu por 4 a 2 para o Red Bull Bragantino na quarta-feira (6). O desempenho terrível do primeiro colocado, porém, não foi o assunto mais discutido da partida.

O que gerou maior comoção no duelo foram os gritos de Fernando Diniz dirigidos a Tchê Tchê. Em uma discussão com o volante durante a etapa inicial, o técnico emendou uma sequência de xingamentos que foi captada pelos microfones da TV Globo no estádio Nabi Abi Chedid.

“Não posso falar com você?”, perguntou o jogador, perto da linha lateral do gramado. “Não pode mesmo! Tem que jogar, caralho! Seu ingrato do caralho! Seu perninha do caralho! Mascaradinho! Vai se foder!”, respondeu o treinador, aos berros, enquanto o atleta balançava a cabeça negativamente.

O tratamento ríspido de Diniz à beira do campo não é novidade, mas ficou para muitos a impressão de que a explosão tenha sido anormal até para os padrões do comandante tricolor. O debate dominou os programas esportivos de quinta (7), e houve censura quase unânime ao que foi visto como um excesso.

O técnico, ainda na quarta-feira, logo após a derrota, tratou o episódio como “coisa de jogo”. “A gente tem um jeito de cobrar que todo o mundo conhece, principalmente ele [Tchê Tchê]. Vamos resolver internamente”, afirmou.

O meio-campista se manifestou por meio das redes sociais, mas não abordou a discussão com o chefe. Ele apenas lamentou o resultado negativo e pediu desculpa aos torcedores por sua expulsão, no segundo tempo, por uma agressão ao meia argentino Cuello, do Bragantino.

“Às vezes, acontece de o treinador dar uma xingada e tal, mas acho que ele exagerou. O treinador fica puto, dá aqueles gritos de ‘filho da mãe’, essas coisas todas, numa boa. Se fosse só falando alguma coisinha como ‘pega, marca, caralho’, tudo bem, mas realmente ele acabou se excedendo”, opina Biro-Biro.

O ex-jogador de 61 anos, que teve passagem marcante pelo Corinthians entre 1978 e 1988, foi dirigido por profissionais que adotavam o estilo linha-dura. Ele citou Jair Pereira e Jair Picerni como aqueles mais rudes no trato com os atletas, porém disse não se recordar de algo parecido com o que ocorreu entre Diniz e Tchê Tchê.

“Eu estranhei a palavra ‘ingrato’. Ingrato por quê? Pela oportunidade que está dando, por ter trabalhado com ele no Audax? Deve ter alguma coisa de que a gente não está sabendo, algum atrito no vestiário, para ele ter pensado: ‘Eu te ajudo, você não me ajuda’. Alguma coisinha teve para se chegar a esse ponto”, diz Biro-Biro.

A ingratidão, de fato, não está entre os defeitos geralmente apontados em bate-bocas no gramado. “Mascarado” e “perna”, expressões usadas para designar jogadores arrogantes e presunçosos, aparecem com mais frequência. Ainda assim, a agressividade de Fernando Diniz, que é formado em psicologia, causou impacto.

“Ele humilhou o rapaz. E não humilhou um jogador. Humilhou um pai, um filho. Pô, tenta se colocar no lugar da esposa dele, no lugar da mãe dele, no lugar dos filhos dele. Isso não é coisa do futebol, não. É legal humilhar alguém? Quando ele trata um ser humano, um parceiro, desse jeito, para mim, isso é desprezível”, afirma Neto.

O ex-jogador de 54 anos atuou ao lado de Diniz no Corinthians, em 1997. Segundo ele, era difícil imaginar que o velho companheiro se tornaria um profissional conhecido pela potência das cordas vocais. “Ele era quietinho, não abria a boca”, diz.

“Eu não tenho ódio de ninguém, mas fiquei tão triste. O Tchê Tchê fica olhando, assim, contrariado… Nem sou fã dele, mas tenho que defender. O que me deixa mais bravo é que faz para um e não faz para o outro. Se vai ter esse comportamento, tenha com todo o mundo”, conclui o ex-camisa 10.

Essa foi uma crítica recorrente. Vários ex-jogadores observaram que o experiente e consagrado Daniel Alves, 37, mesmo tendo cometido erros graves em Bragança, não recebeu o mesmo tratamento reservado a Tchê Tchê, 28. Diniz, 46, tem se mostrado mais à vontade para repreender atletas como Gabriel Sara, 21, e Igor Gomes, 21.

Caio Ribeiro, 45, que se formou nas categorias de base do São Paulo e conhece bem o clube, foi na mesma direção.

“Claro que passou do ponto. Do que eu conheço do Diniz, ele já deve ter pedido desculpas. Essa discussão acontece, às vezes no calor da partida, muitas vezes no vestiário. Mas passou do limite. Não pode a relação entre jogador e treinador chegar à maneira como foi feita a discussão”, comentou Caio na Globo.

A reprovação à atitude do treinador foi potencializada pela partida ruim do São Paulo. Quando a equipe estava em sequência de vitórias, discussões fortes com o atacante Luciano, 27, foram tratadas na cobertura esportiva com mais leveza. Eles já tiveram relação de trabalho anteriormente e também costumam brincar entre si.

Aqueles que já foram subordinados do técnico geralmente mostram compreensão. O volante Velicka, 34, estava no Audax de Fernando Diniz que foi à final do Campeonato Paulista de 2016 e conhece bem o estilo. Naquele time estava também Tchê Tchê.

“Ele cobra muito, às vezes até demais, mas a relação que tinha com a gente fora do campo era muito boa. Era como uma família, então ele ficava à vontade para cobrar. A gente aceitava porque sabia que era para o nosso bem. E não era uma relação de um cara que chegou ontem e já começa a xingar. Levou um tempo para ter certa intimidade”, conta Velicka.

“Ele grita assim até nos treinos. Quando coloca o pé no campo de jogo, a cobrança é extrema. Assim que acaba isso, é superbacana, conversa muito. Sempre que ele via uma coisa errada no nosso jogo, deixava a gente à vontade e segurava a bronca. Cobrava bastante, mas também protegia a gente da diretoria, da imprensa, da torcida”, acrescenta.

De acordo com o volante, que em 2020 vestiu as camisas de Água Santa e Ferroviária, o comportamento “pode parecer estranho”, porém “é praticamente normal para quem tem uma relação longa com o Diniz”. O próprio Tchê Tchê, apontou Velicka, “sempre foi tranquilo em relação a isso”.

Eduardo Cillo, psicólogo do esporte que atua no COB (Comitê Olímpico do Brasil), observa que a relação de Diniz com o elenco não se resume aos berros à beira do campo.

“Quando ele chega a um clube, busca uma aproximação para formar um vínculo forte. Então, vira uma espécie de liderança aglutinadora. Em cima desse vínculo, ele pode tanto cobrar como dar reconhecimento. São as duas características de bons líderes: saber reconhecer e saber cobrar. Eu acredito que ele tenha feito isso no São Paulo”, diz Cillo.

“Ele é jovem, encerrou a carreira dele como jogador, relativamente, não há muito tempo. Então, acaba usando uma linguagem do vestiário, aquela linguagem que nem sempre transborda para a TV e o público. Quando acontece, até choca um pouco, mas é a linguagem em um grupo de atletas. A questão é saber se ele perdeu a mão ou não. Isso é difícil de saber”, acrescenta.

De acordo com o psicólogo, que já passou por Botafogo e Palmeiras, será importante analisar a reação de Tchê Tchê na sequência da temporada. Para ele, “se o atleta ficou magoado, se o episódio deixou alguma marca, pode ser que seja necessária uma ação extra, do próprio Diniz, das lideranças do elenco e da psicologia do clube, para acalmar os ânimos”.

Existe também uma preocupação jurídica. Há quem vê assédio moral no tratamento dispensado pelo treinador a seus subordinados, o que poderia deixar o São Paulo sujeito a processos trabalhistas.

Para Gabriela Gonçalves, especialista em psicologia do esporte, “é preciso olhar o contexto, o código da comunidade, antes de julgar”. Ainda que o futebol não possa ser considerado um ambiente permissivo, sem limites nas relações pessoais, na visão dela o espaço e as interações não são os mesmos de uma empresa comum.

“A gente só pode trabalhar com assédio moral quando tem um contexto. Eu não posso dizer que é ou não assédio moral sem tratar do contexto”, afirma Gonçalves. “Os esportes, principalmente o futebol, estão relacionados à emoção. Não dá para colocar em contextos iguais uma relação do esporte e uma situação de escritório, por exemplo. O futebol aqui no Brasil tem um jeito de se comunicar.”

Jogadores e ex-jogadores são unânimes em apontar que discussões mais ríspidas são recorrentes no calor das partidas. Ocorre que elas ficaram bem mais expostas no silêncio dos estádios vazios, sem público na pandemia do coronavírus.

Há sempre um microfone posicionado ao lado do banco de reservas, ali fixado justamente para captar a interação dos treinadores com os atletas e árbitros. Sem o ruído das arquibancadas, tornou-se comum a veiculação com nitidez de diálogos inteiros. Mais um motivo, segundo os críticos, para que as cobranças mais pesadas sejam restritas ao ambiente do vestiário.

Os microfones estarão novamente apontados para Diniz na próxima partida do São Paulo, no domingo (10), no Morumbi, no clássico contra o Santos. Tchê Tchê, suspenso, não ouvirá gritos. Mas, diante da repercussão dos berros mais recentes, o treinador será certamente observado com atenção.

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