Bolsonaro indica novo CEO para Petrobras após atrito sobre combustíveis
Economia

Bolsonaro indica novo CEO para Petrobras após atrito sobre combustíveis

Bolsonaro indica novo CEO para Petrobras após atrito sobre combustíveis

O presidente Jair Bolsonaro anunciou nesta sexta-feira que o governo decidiu indicar o general Joaquim Silva e Luna para assumir os cargos de conselheiro e presidente da Petrobras após o encerramento do mandato do atual CEO da companhia, Roberto Castello Branco.

O anúncio que indica uma mudança no comando da estatal marca o ápice de uma crise entre Castello Branco e Bolsonaro, após o executivo da Petrobras ter batido de frente com o presidente em temas relacionados a preços de combustíveis e caminhoneiros. A empresa efetuou nesta sexta-feira uma alta de 15% no diesel, contrariando interesses da cúpula do governo.

Uma saída de Castello Branco tem potencial de afetar projetos importantes para a companhia, como os desinvestimentos em refinarias, que perderiam a atratividade no caso de a Petrobras não seguir uma política de paridade de preços de combustíveis com as cotações internacionais –após finalizar seu programa, a empresa planeja ficar com cerca de metade da capacidade de refino do Brasil.

O anúncio sobre o CEO foi feito primeiro em publicação no Facebook pelo próprio Bolsonaro, que compartilhou nota assinada pelo Ministério de Minas e Energia, segundo a qual Silva e Luna assumiria “após o encerramento do ciclo, superior a dois anos, do atual presidente” da petroleira estatal.

A Petrobras disse em nota que recebeu ofício do ministério, solicitando convocação de assembleia geral extraordinária para a substituição de Castello Branco por Silva e Luna como conselheiro. O comunicado também pede que o indicado seja avaliado pelo conselho para o cargo de presidente-executivo.

No comunicado, a Petrobras também disse que o presidente Castello Branco e demais diretores têm mandato vigente até o dia 20 de março de 2021. A diretoria, contudo, avalia uma renúncia coletiva, na esteira da saída do CEO, segundo fontes disseram à Reuters, na condição de anonimato.

Não foi possível falar com o general, atual diretor-geral brasileiro da hidrelétrica binacional de Itaipu.

Castello Branco assumiu o comando da petroleira em janeiro de 2019, logo após a posse de Bolsonaro. Ele vinha defendendo a independência da companhia para reajustar preços dos combustíveis, mas acabou desagradando o presidente após um comentário sobre caminhoneiros, que têm ameaçado greves devido aos valores do diesel.

Acompanhando uma alta das cotações internacionais do petróleo, a Petrobras já reajustou o preço do diesel em mais de 27% no acumulado do ano, enquanto a gasolina nas refinarias da empresa subiu 35%.

O CEO da Petrobras disse no final de janeiro que a questão dos caminhoneiros não era um problema da companhia, que precisava seguir sua política de manter a paridade de preços.

Na noite de quinta-feira, após anúncio de reajuste da companhia nos valores dos combustíveis, Bolsonaro reclamou e disse que o comentário de Castello Branco sobre os caminhoneiros teria “consequências”, prometendo mudanças na estatal, sem detalhar.

As ações da Petrobras tiveram forte queda nesta sexta-feira em meio às discordâncias entre Bolsonaro e Castello Branco, que não chegou a se manifestar em público sobre o assunto. Não foi possível contato com o executivo.

A mudança no comando da Petrobras precisa ser aprovada pelo conselho de administração da companhia, após o nome de Silva e Luna passar pelos comitês de governança da petroleira.

Embora o conselho possa, em tese, rejeitar a indicação, em última instância é o presidente da República quem decide, já que tem poder de indicar novos conselheiros.

Uma reunião ordinária do colegiado estava previamente marcada para próxima terça-feira, antes de a crise se instalar na estatal.

REAÇÃO

Os papéis preferenciais da Petrobras caíram 6,63% em meio à repercussão dos comentários de Bolsonaro sobre Castello Branco na véspera, e há uma expectativa de reação negativa na segunda-feira após a indicação por Bolsonaro de um novo CEO.

“É uma situação muito delicada, e ter acontecido de forma tão desordenada. Porque ficou claro que há uma disputa em torno da política de preços da Petrobras, e isso é uma situação que fragiliza muito a empresa. Passa uma insegurança pros investidores”, disse à Reuters o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Edmar de Almeida.

Para o especialista, certamente essa “insegurança” dificulta a negociação das refinarias –a Petrobras planeja vender oito ativos, com o objetivo de focar investimentos no pré-sal e reduzir a dívida.

“Quem compra vai querer garantir liberdade de preço, senão é um negócio insustentável”, afirmou Almeida.

O novo indicado para chefiar a petroleira, por sua vez, tem recebido elogios frequentes de Bolsonaro em suas tradicionais transmissões semanais e manifestações públicas pelo trabalho realizado em Itaipu.

Ainda no ano passado, por exemplo, o presidente disse que a gestão de Silva e Luna tem se comprometido com o uso de recursos públicos e permitido a realocação de dinheiro para obras estruturantes no Paraná.

Silva e Luna é general de Exército da reserva e foi ministro da Defesa do governo Michel Temer. Ele foi o primeiro militar a ocupar o Ministério da Defesa desde a sua criação em 1999.

A indicação também representa a chegada de mais um militar à área de energia do governo, comandada pelo almirante da Marinha Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia. O presidente do conselho da Petrobras, Leal Ferreira, também é almirante.

O deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), ex-presidente da Câmara, foi irônico ao comentar no Twitter uma notícia sobre a indicação de Silva e Luna. “Sinal da força da agenda liberal e das privatizações no governo Bolsonaro”, escreveu.

O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, negou em entrevista ao jornal O Globo que tenha havido interferência na Petrobras com a troca de comando da estatal. Ele disse que Castello Branco está “terminando” o ciclo dele na empresa e revelou que a troca já estava sendo avaliada.

(Com reportagem adicional de Ricardo Brito em Brasília e Sabrina Valle no Rio de Janeiro)

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