Humorista chega em segundo e embaralha sucessão na Bulgária
BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) – Sr. Cu-cu, marionete de pelúcia que estrelou um popular programa humorístico de mesmo nome na Bulgária, foi companheiro de palco da maior surpresa das eleições parlamentares neste domingo (4), o cantor e apresentador Slavi Trifonov, 54.
O estreante partido Este Povo Existe (ITN), fundado pelo artista que se tornou conhecido nos anos 1990 pela atuação em “Cu-cu”, atropelou a corrida eleitoral e chegou em segundo lugar.
Na noite desta segunda, com 92% das urnas apuradas, ele tinha cerca de 18% dos votos, cerca de cinco pontos acima do que previam sondagens antes do pleito.
Na frente ainda está o partido do primeiro-ministro búlgaro, Boico Borisov, 61 –sua agremiação de centro-direita Gerb (Cidadãos para o Desenvolvimento Europeu da Bulgária) tinha quase 26% dos votos.
Mas o partido do premiê encolheu desde a eleição de 2017, e Borisov deve ter outros obstáculos para formar um governo, entre eles a perda do aliado ultranacionalista VMRO (Movimento Nacional Búlgaro), que não tinha obtido os 4% mínimos para ter acesso ao Parlamento.
“Acordamos em outra Bulgária – uma na qual governar sem Borisov é possível”, escreveu Ruzha Raicheva, uma das integrantes do ITN. Tirar o premiê do posto que ocupa desde 2004 é de fato uma possibilidade: se Borisov não formar uma coalizão majoritária, a tarefa passará ao segundo lugar nas eleições.
Não é claro, porém, quais seriam as forças que Trifonov procuraria aliar a seu partido, cuja campanha foi baseada em um discurso antissistema e anticorrupção.
Antes do pleito, ele havia declarado apenas a quem não se juntaria: além do Gerb e do VMRO, o também governista MRF e o socialista BSP, herdeiro do partido comunista da era soviética.
As siglas Bulgária Democrática e Levante-se! Fora, Máfia!, duas outras agremiações que cresceram a partir dos protestos pela renúncia de Borisov no ano passado, conquistaram cerca de 10% e 5% dos votos, respectivamente, e são parceiros prováveis.
Trifonov nasceu em Pleven, uma cidade de 120 mil habitantes no norte da Bulgária, e disse em entrevistas ter tido uma infância solitária, ao lado da irmã mais velha, Petia, “sua melhor amiga”. Numa família rígida e exigente, passava o maior tempo lendo, e tirava notas altas.
A veia artística surgiu em um acampamento para jovens, quando aceitou contar piadas na “noite de talentos” e fez sucesso imediato. Formou-se em viola e se tornou conhecido pelas participações em programas satíricos da TV, como “Cu-cu” e seu sucessor “O Canal”.
Considerado um dos primeiros produtores independentes da Bulgária, Trifonov ampliou sua fama ao apresentar o programa “Show da Fama”, no qual tocava com sua banda, também de nome Cu-cu.
Ele entra agora para um grupo de personalidades da mídia que conquistaram apoio popular ao se lançarem na política em países pós-soviéticos. São outros exemplos o ex-comediante e atual presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, o apresentador católico polonês Szymon Holownia e o blogueiro e youtuber belarusso Serguei Tikhanovski.
Fora do leste europeu, o comediante italiano Beppe Grillo também percorreu ao mesma trajetória ao fundar o Movimento 5 Estrelas, partido antissistema que conquistou espaço em seu país e chegou ao governo.
Embora essa seja a primeira candidatura de Trifonov, não é sua estréia na política no sentido mais amplo. Ele presidiu em 2015 um comitê pró-referendo sobre o sistema político na Bulgária e liderou um protesto contra o governo quando Borisov foi empossado pela terceira vez, em 2017.
Neste ano, além da plataforma anticorrupção, o cantor adotou programa que defendia eleições diretas para procurador-geral, ombudsman nacional (equivalente a corregedor-geral) e cargos de direção regionais do Ministério do Interior.
“Normalmente, após as eleições, todos os partidos se declaram vencedores. Hoje, os vencedores são você! Você exigiu o poder e a mudança é inevitável”, escreveu nesta segunda em rede social, em post no qual também anunciou auto-isolamento, após apresentar sintomas de Covid-19.
Para o cientista político búlgaro Antoni Galabov, os resultados das eleições são um retrato adequado da atual sociedade búlgara: mais que dividida, fragmentada. Lançaram-se ao pleito 31 partidos, dos quais 6 tinham rompido a barreira dos 4% de votos com 90% das urnas apuradas.
“Os políticos continuaram a falar uns com os outros e não com os eleitores”, afirmou Galabov, professor da Universidade Nova da Bulgária, à mídia local.
Com exceção do MRF, que já se aliou no passado ao Gerb, nenhum dos outros participantes do Legislativo será uma conquista fácil para Borisov.
Analistas estimam que as negociações se arrastem por semanas, o que pode prejudicar a aprovação pela Assembleia do fundo bilionário da UE para a recuperação pós-pandemia.
País mais pobre do bloco europeu, a Bulgária foi também um dos mais duramente atingidos pela Covid-19 e o que menos vacinou sua população até esta segunda.
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