Vale do Anhangabaú é reaberto com banheiro sujo e quiosques fechados
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Vale do Anhangabaú é reaberto com banheiro sujo e quiosques fechados

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O contador Antônio Carlos de Oliveira, 47 anos, reclamou ao sair do único banheiro público aberto na manhã desta segunda-feira (6), no primeiro dia sem grades no vale do Anhangabaú, na região central de São Paulo. “Está bem zoado aqui”, afirmou.

O banheiro ao qual Oliveira se referia estava com papel espalhado pelo chão e pia imunda. Também não havia papel higiênico, sabonete e assento no vaso sanitário. Antes de entrar, ele perguntou para uma mulher do serviço de limpeza da prefeitura, que varria do lado de fora, se poderia acessar o local, porque na porta não havia indicação se era o local masculino ou feminino.

Banheiros e fraldários sujos ou fechados são alguns dos problemas do primeiro dia do vale do Anhangabaú sem grades, após reforma que custou cerca de R$ 105 milhões para a prefeitura e que levou cerca de um ano e meio para ser entregue, após uma sequência de atrasos.

Nesta segunda também foi o primeiro dia de concessão do espaço público pelo consórcio Viva o Vale, quem em julho assinou contrato no valor de R$ 49 milhões e assumiu o local pelo período de dez anos.

Quem passou pelo local e não sabia que até poucas horas antes o vale do Anhangabaú estava cercado com grades achou que era um dia comum e sentiu que havia abandono e falta de zeladoria, como ocorre na região central da capital paulista.

“Para falar a verdade, nem sabia que houve uma reinauguração, porque não tem nada de diferente”, afirmou o estudante Marcos Silva, 22, que iria com o primo, Fabrício Silva, 19, a galerias da região central para garimpar discos usados.

“Para quem gosta de andar de skate, ficou bom, tem bastante espaço e alguns obstáculos”, completou Fabrício.

Ao todo, segundo o projeto, a revitalização do vale do Anhangabaú conta com 12 quiosques. Todos estavam fechados na manhã desta segunda e eram varridos por equipes de limpeza da prefeitura.

Dos três banheiros públicos encontrados pela reportagem, que ficam junto aos quiosques, um estava sujo, outro estava com as portas fechadas e sem maçanetas e o terceiro ainda tinha grades em frente.

Ao longo do grande cimentado do vale do Anhangabaú havia lixo espalhado e lixeiras sem a tampa traseira e sem sacos. Bancos estavam sem pinturas e havia pichação em postes e degraus de escadas.

Apesar dos problemas de sujeira, equipamentos públicos quebrados e pichação já no primeiro dia após a entrega, a gestão Ricardo Nunes (MDB) disse que “houve zeladoria das áreas públicas do vale, com reparos pontuais e limpeza do local”.

“Os equipamentos, como quiosques e banheiros, estavam sem uso e serão gradativamente liberados pela concessionária, de acordo com a programação de atividades e a necessidade de atendimento ao público”, afirmou trecho da nota da Secretaria de Governo.

Com pedido de resposta até as 12h sobre os problemas encontrados, o Consórcio Viva o Vale, que segundo a administração municipal, é formado pelas empresas W. Torre, Urbancom Consultoria e Participações, B. Internacional Real Estate, Nacional Shopping Planejamentos e Reestrturação de Shopping Center, não retornou à reportagem.

Representantes do consórcio participaram de reunião com o prefeito Ricardo Nunes na manhã desta segunda.

A reportagem também viu carros comuns nos calçadões, inclusive buzinando para pedestres. Segundo a prefeitura, só veículos autorizados e oficiais podem circular no vale do Anhangabaú e que se for flagrado pela GCM (Guarda Civil Municipal), que faz a segurança na região, o motorista poderá ser multado.

As obras de revitalização do vale do Anhangabaú começaram em junho de 2019, com finalização prevista, inicialmente, para junho de 2020. Após sete adiamentos, inclusive por causa da pandemia do novo coronavírus, o espaço foi aberto momentaneamente em 25 de julho, um domingo, quando a cidade atingiu a marca de 80% da população vacinada com a primeira dose contra a Covid-19. Depois seguiu fechado com grades, mesmo aos fins de semana.

A explicação para a liberação somente agora, quando 100% da população adulta já está vacinada na capital, é que nesta segunda-feira a concessionária Viva o Vale assumiria o local.

A concessionária terá de garantir, entre outros, manutenção, preservação, gestão e promoção de atividades socioculturais. Caberá ainda a implantação de sistema de monitoramento e vigilância (com câmeras) e Wi-Fi gratuito.

O projeto de reforma do vale do Anhangabaú foi contratado ainda na gestão Fernando Haddad (PT), em 2016. Inicialmente orçada em R$ 79,9 milhões, a obra custou R$ 105,6 milhões, ou seja, 32,1% a mais.

Com a reforma, a área no centro terá 850 jatos d’água, floricultura, 1.500 assentos, sanitários e bebedouros, segundo o projeto, além de pista de skate e quiosques.

A obra recebeu críticas pelo alto valor empregado e pelo novo projeto. Entre as mudanças reprovadas por especialistas estão a retirada de árvores do centro do espaço e a possibilidade de realizar eventos privados pela empresa que assumiu a gestão, além do apagamento do projeto anterior. A prefeitura afirmou durante as obras que o espaço tem 537 árvores.

Recentemente, o Tribunal de Contas do Município de São Paulo constatou irregularidades em um contrato de mais de R$ 1,2 milhão entre a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras e a SPTuris para manutenção do local após a revitalização.

Segundo o relatório preliminar feito pelos auditores do TCM, o contrato assinado de prestação de serviços de suporte logístico na instalação de gradis, limpeza, estruturação de operação dos quiosques e área da pista de skate já traz irregularidade logo na base por ser uma contratação direta por dispensa de licitação sem explicação do motivo pelo qual a licitação o não foi realizada.

Na época da divulgação do relatório, a secretaria disse que que o contrato em questão não representou qualquer prejuízo aos cofres públicos e disse que os serviços foram contratados porque “não estavam previstos no contrato de execução das obras de requalificação do espaço”.

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