Com palavrões proibidos, time ligado à Igreja Universal avança na Copinha
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Com palavrões proibidos, time ligado à Igreja Universal avança na Copinha

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Segundos antes de o árbitro Alester Ciaulli da Costa apitar o início da partida, os 11 jogadores de camisa branca se ajoelham e erguem as mãos para o alto, em oração. De pé, os adversários só observam.

Noventa minutos depois, o “Pai Nosso” é gritado em uníssono no vestiário. O mesmo para o canto de guerra que termina a afirmar que, “se Jesus é meu amigo, contra mim ninguém será.”

Os jogos do Canaã Esporte Clube não são como os outros. Os palavrões são raros na arquibancada. Dentro de campo, ao menos de um lado, não existem. Os garotos da equipe de Irecê, interior da Bahia, são proibidos de dizê-los. Desrespeitar a regra pode levar à expulsão, afirmam integrantes da comissão técnica.

Nenhum atleta pode pintar o cabelo, ter cortes considerados diferentes, usar brinco ou usar boné. Alguns carregam uma Bíblia ao sair do vestiário.

“O clube me ajuda não apenas a ser melhor no futebol mas a melhorar como pessoa. Reforça a minha fé em Deus”, diz o centroavante Vinicius.

Durante o primeiro tempo do confronto com o Real Brasília, na quinta-feira (13), no estádio da rua Comendador Sousa, pela Copa São Paulo, ele acertou a trave duas vezes. Na segunda, pareceu inconformado. Em vez de xingar, murmurou para si mesmo “por Jesus!”.

Time ligado à Igreja Universal, o Canaã venceu por 2 a 1 e se classificou entre os 32 melhores da Copinha. Vinicius, um centroavante que dá imenso trabalho para a zaga adversária, anotou um dos gols.

Neste sábado (15), às 11 horas, o rival será o Juventus, na Rua Javari, por vaga nas oitavas de final. Eles já se enfrentaram na fase de grupos, e os paulistanos levaram a melhor por 3 a 1.

Quanto o Canaã está próximo à Universal é motivo de discussão. A versão oficial é que não há qualquer participação ou convênio entre a igreja e o clube. Do público presente no estádio do Nacional (o número não foi divulgado), a maioria esmagadora era de torcedores do clube baiano. Três deles disseram à reportagem fazerem parte de movimento de jovens da igreja. Foram convidados por pastores a ir à partida.

“Esta vitória é para vocês”, apontou para a arquibancada o técnico Edu Miranda, após o apito final. Ele está há cerca de um mês no Canaã e teve passagens por Corinthians, Portuguesa, Guarani e Flamengo de Guarulhos.

“Eu conhecia o time de nome porque jogadores deles foram levados para Guarulhos quando eu estava lá. A equipe é um braço da Universal, e a estrutura é fantástica. É acima da média”, diz o treinador.

Dirigente do Canaã, que pediu para não se identificar, contesta e afirma não haver nenhuma ligação formal. O presidente é Sergio Correa, e o diretor de futebol é Mauricio Amaral. Ambos são bispos da igreja.

A agremiação faz parte de um projeto social que oferece educação e assistência social para cerca de 600 crianças em Irecê.

Na Bíblia, Canaã é a terra prometida encontrada pelo povo de Israel após atravessar o deserto por 40 anos. Os cantos da torcida na Copinha citam o tempo todo ser o time o “mais forte do sertão.”

De acordo com jogadores e integrantes da comissão técnica, todos são convidados a frequentar os cultos evangélicos, mas não estão obrigados a isso. Há a exigência de ser cristão. No centro de treinamento, construído na BA-052, a Estrada do Feijão, os meninos têm escola, cinco refeições sob a supervisão de nutricionistas, cinco campos de treinamento à disposição e departamento de fisioterapia.

Os aparelhos de TV são desligados às 22h30, horário em que todos devem se recolher para os quartos.

“É um futebol antigo. Todos são muito disciplinados. E, se deixarem, a gente vai até o final da Copa”, completa Miranda.

É o que espera Romilda Costa. Ela saiu da Bahia para passar o mês de janeiro na casa da irmã Jurania em São Paulo. Não foi apenas por causa das férias. O objetivo principal é seguir o Canaã na Copinha. As duas são tias do zagueiro Paulo Vinicius, 20. Assim como os garotos em campo, elas fecham os olhos e rezam antes do início da partida.

“Estar aqui é melhor do que ver a seleção brasileira”, compara Romilda, que também alimenta o grupo de WhatsApp da família com notícias sobre o desempenho do sobrinho, um defensor calmo com a bola nos pés que ganhou quase todas as disputas contra o Real Brasília.

Na formação de jogadores, o Canaã, criado em 2018, atua como qualquer outro clube. Trabalha com empresários e busca revelações, de preferência da região, que possam ser lapidadas e depois vendidas por lucro. Mas há também o trabalho social. A maior esperança na Copinha deste ano é o atacante Felipe Gabriel, 15. Ele não atuou na quinta porque estava suspenso.

Dois garotos revelados pela equipe, João Victor e Clayton, ambos de 18 anos, foram emprestados ao Flamengo. Clayton foi comprado em definitivo. O Canaã também tem João, 16, no Atlético Mineiro. São histórias que enchem de esperança quem está na Copinha de 2022.

“A gente vê que dá para crescer. Enxerga como almejar os sonhos com o futebol”, constata Paulo Vinicius.

Dirigentes ouvidos pela reportagem dissseram que o dinheiro obtido com a venda de atletas é reinvestido no projeto que mantém também as categorias de base.

Passar de fase ajuda ainda mais a levar visibilidade para os jogadores e para o time. Todos percebem isso porque a festa com a classificação se assemelha à de um título. Eles cantam que o “azarão chegou” e se juntam até para fazer danças coreografadas. Mas, logo que elas acabam, eles se ajoelham, apontam para o céu e rezam.

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