‘A República das Milícias’ impressiona com relatos de crime e violência no Rio
FOLHAPRESS – Em dado momento, o entrevistado diz ao jornalista que o Rio de Janeiro é a capital e a referência da inteligência criminosa no Brasil, ao que este completa: “Das inovações culturais em geral, né?”.
Essa é uma das passagens que melhor exemplifica a abordagem de “A República das Milícias”, o podcast do jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, interessado na elucidação do sistema criminal e em suas raízes, que brotam de uma cultura a um só tempo passional e violenta.
O podcast é uma adaptação do livro homônimo do autor, publicado pela Todavia em 2020, e tem o objetivo de explicar o que faz da maioria dos moradores do Rio vítimas de uma guerra particular.
Na ocasião citada, o entrevistado Reginaldo Lima explica que desempenha a função de mediador numa espécie de “Guerra dos Tronos”, ou “Game of Thrones” carioca, em que o território do Rio é constantemente disputado entre facções do tráfico e da milícia associadas ao jogo do bicho.
Porém, se “Guerra dos Tronos” é uma boa metáfora para definir o conflito criminal da cidade, é bom estar ciente de que, das violências descritas pelos entrevistados, nada é linguagem figurada. Os relatos de tortura, execução ou punição impressionam.
Ao longo de oito episódios, Bruno Paes Manso faz um retrato que nega respostas simples. Quando parece estar completo o glossário do crime carioca –que nos ensina termos como arrego, polícia mineira e embuchar–, logo surge uma nova cena brutal que confunde ainda mais o que parecia estabelecido.
Em vez de uma aula sobre a bandidagem do Rio, “A República das Milícias” é uma investigação a respeito do poder da violência e do dinheiro no Brasil, sem deixar de articular alguns dos problemas sociais mais agudos do país como machismo, racismo, autoritarismo, corrupção e desigualdade econômica.
Diante da tarefa complexa, o autor faz um longo percurso, que começa na segunda metade do século 20. São detalhados os primórdios da milícia a partir de paramilitares que, com o respaldo da imprensa, “faziam justiça com as próprias mãos”, no que ficaram conhecidos como grupos de extermínio, a exemplo do Esquadrão da Morte e da Invernada de Olaria, que tinham o apoio da ditadura militar.
Com o crescimento do tráfico de drogas nos morros após os anos 1970, aumenta o anseio por antagonistas “do bem”, isto é, aqueles que protegeriam as comunidades da influência dos traficantes, que viriam a formar facções como o Comando Vermelho.
Assim se constituíram as milícias de Rio das Pedras e da Liga da Justiça, no bairro de Campo Grande e Santa Cruz. Os grupos, dos quais participavam policiais civis e militares, não demoraram a virar mais uma facção que lucra com serviços que o Estado não fornece às periferias.
A principal diferença da milícia em relação ao tráfico passou a ser seu apoio por parte considerável da opinião pública, a qual seria fácil tachar de ignorante. Mas Paes Manso faz um verdadeiro mergulho na história de seus personagens, cujas vidas, marcadas pela banalidade da violência, se tornam compreensíveis.
Vale destacar o personagem Lobo, que aparece na maioria dos episódios como um fio condutor da narrativa. Ex-miliciano, o personagem tem um carisma desconcertante, seja ao relembrar a infância saudosa num município da Baixada Fluminense, seja ao falar dos tempos em que coletava a taxa de segurança dos moradores da comunidade onde atuava, em Jacarepaguá.
Mais do que informações, Lobo oferece a dimensão de como é nascer e crescer num mundo alheio à ordem oficial do Estado, no qual honra e valentia equivalem a força bruta.
Mesmo quando sofreram um golpe nos anos 2000 –com a instalação da CPI das Milícias–, os grupos milicianos logo se reestruturaram.
Como um câncer em metástase, eles evoluíram para um formato mais impessoal, representado por policiais corruptos saídos do Bope. É o caso de Adriano da Nóbrega, um dos matadores mais temidos do Rio, que recebeu condecorações da família Bolsonaro, e de Ronnie Lessa, miliciano acusado de ser o autor do assassinato de Marielle Franco, que ainda não foi esclarecido.
A morte da vereadora em 2018, suas razões e implicações sobre a criminalidade no Rio são objeto de análise do autor e alçam o programa, paradoxalmente, ao seu momento mais arejado –talvez por concluir que as lutas de Marielle Franco não foram caladas após sua morte. Ao contrário, sua voz continua a ecoar na pergunta: “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.
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A REPÚBLICA DAS MILÍCIAS
Criação: Bruno Paes Manso
Produção: Globoplay e Rádio Novelo
Disponível: nas plataformas de streaming
Avaliação: ótimo
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