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Quem foi Aurora Cursino, artista lobotomizada que pintou a submissão feminina

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Na noite carioca de 1919, a High Life era o lugar para se estar. A casa noturna no limite entre o Catete e a Glória reunia artistas, intelectuais e as elites do Rio de Janeiro, que frequentavam seus amplos salões em busca de bebedeira, diversão e serviços de prostitutas. Foi ali que Aurora Cursino dos Santos, uma “mulher da vida” então com 24 anos, se aproximou de um jornalista que havia conhecido num outro bar.

Depois de uma noitada, o homem levou Cursino para a casa dela –um quartinho na Lapa, região de prostituição e seu primeiro endereço conhecido depois de ela ter saído de sua São José dos Campos natal, deixando um casamento frustrado no interior paulista. Como ela não quis sexo, ele puxou seus cabelos, arrancou sua blusa e mordeu seus lábios. No dia seguinte, ela o denunciou. O exame de corpo de delito confirmou a agressão, mas, sem que ela tivesse testemunhas ou soubesse o nome do agressor, o caso foi arquivado.

A experiência parece ter marcado essa moça de família que virou trabalhadora do sexo no Rio e em São Paulo. Duas décadas mais tarde, prestes a completar 50 anos e internada no hospital psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, Cursino passaria a pintar em cores vivas temas que determinaram sua vida –cenas de sexo sugerindo estupros, prostituição, noites boêmias, crimes, além de uma profusão de pênis, vaginas e ânus.

A trajetória e o trabalho artístico de Cursino –expostos em mostras coletivas de arte e loucura dentro e fora do Brasil– ganham agora um capítulo individual com a publicação da biografia “Aurora: Memórias e Delírios de Uma Mulher da Vida”, de autoria da historiadora Silvana Jeha e do psicanalista Joel Birman, a ser lançada na próxima quarta-feira, o dia da luta antimanicomial.

A dupla reconstrói a vida dessa anti-heroína com base em documentos de diversos arquivos, notícias de jornal e nos próprios escritos da artista, intercalando o texto com pinturas dela e sugerindo conexões dos quadros com fatos da vida de Cursino.

“Puta, louca e finalmente artista, ela condensa em sua obra algo que diz respeito a todas as mulheres”, escrevem os autores na introdução do livro. “Sobretudo, o que ela pinta é o patriarcado. Os quadros dela são basicamente um ataque do patriarcado à mulher. Se alguém desenhou para mim o que é o patriarcado, foi a Aurora”, afirma Jeha, em entrevista. A autora acrescenta que muitos temas tratados nos quadros da artista viriam a aparecer décadas mais tarde na arte feminista, engajada.

Cursino aprendeu a pintar na Escola Livre de Artes Plásticas do Juquery, onde a pintora Maria Leontina deu aulas durante alguns anos. Suas telas a óleo misturavam personagens das ruas do Rio de Janeiro, autoridades do governo e representações de si mesma e dos filhos que teria tido com escritos que davam dicas sobre as situações retratadas. Suas frases não eram muito claras e ela tratava a palavra como imagem, afirma Raphael Fonseca, um dos organizadores da exposição “Raio que o Parta”, em cartaz agora em São Paulo, no Sesc 24 de Maio.

A mostra traz algumas telas de Cursino, nesta que é uma das primeiras vezes em que a artista é exibida fora de uma exposição sobre arte e loucura, e também de outros pacientes do Juquery, como Ioitiro Akaba e Caraiba, pondo esses nomes ao lado de outros estabelecidos, como Tarsila do Amaral e Joaquim do Rego Monteiro. Outros quatro quadros dela podem ser vistos numa exposição sobre Arthur Bispo do Rosário a ser inaugurada no Itaú Cultural, em São Paulo, nesta semana.

A artista pintava em sobras de papel-cartão, refugo do material que os internos usavam na atividade de cortar e dobrar caixinhas de uma famosa marca de chicletes. Algumas de suas telas foram rasgadas ou danificadas pelo tempo, como evidencia uma seleção de obras publicadas na biografia. Cerca de 200 de suas telas estão abrigadas num museu criado no hospital de Juquery, onde ela passou os 15 últimos anos de vida.

Na metade do século passado, o hospício abrigava mais de 7.000 internos, sendo a maioria mulheres. O prontuário da artista mostra que ela foi internada por ter “personalidade psicopática amoral”, devido ao seu histórico de prostituição, um diagnóstico impreciso, sem base científica e que tinha um caráter sexual muito forte, como afirma Eliza Teixeira de Toledo, autora de uma tese de mestrado sobre gênero e lobotomia no Juquery.

“Aquele comportamento não podia ser criminalizado, ela não podia ir para a cadeia, então ia parar no hospital. Várias mulheres com uma sexualidade considerada desviante foram internadas com esse diagnóstico, em que a pessoa é completamente sã, não delira. Era um diagnóstico muito ligado à questão comportamental. Eram mulheres que tinham vida noturna, vida de vagabunda, entre aspas, e algumas delas acabaram passando pela psicocirurgia”, conta a pesquisadora.

Psicocirurgia é uma denominação estéril para lobotomia, procedimento médico empregado à época, usado mais em mulheres do que em homens e que visava deixar as pacientes mais calmas e obedientes, segundo informações contidas nos prontuários acessados pela pesquisadora. Cursino foi lobotomizada quatro anos antes de morrer, mas não se sabe se a cirurgia afetou a sua pintura, embora seja provável, de acordo com os autores de sua biografia.

A artista foi reconhecida três vezes em vida. A primeira, por Patrícia Galvão, a Pagu, que escreveu no Jornal de Notícias em 1950 um artigo comentando obras de pacientes do Juquery. “O que se vê nestes trabalhos são produção artística”, disse a modernista. A segunda foi quando teve telas expostas num congresso de psiquiatria em Paris, em 1950. E a terceira não foi pela sua pintura.

O compositor Zequinha de Abreu, autor de “Tico-Tico no Fubá”, dedicou a ela, a quem chamava de aluna, a valsa “A Noite Desce”. É possível que ele tenha ensinado piano a Cursino e que eles tenham tido momentos tórridos num hotel em São Paulo, episódio pintado pela artista mais tarde, num quadro onde aparecem os dois na cama e também um aparelho que ora lembra um rádio, ora uma máquina de choque elétrico usada nos internos do Juquery.

Embora nunca tenha sido assunto de uma exposição individual, a obra de Cursino foi mostrada em espaços importantes, em coletivas no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Centro Cultural Branco do Brasil do Rio de Janeiro e na Bienal de Berlim de 2020, por exemplo.

Nas palavras de Silvana Jeha, Cursino “era uma prostituta fazendo a própria história, ela dizia muita coisa que era raro uma mulher dizer em 1950”. Talvez não só naquela época. “A prostituição ainda hoje não é moralmente aceita em meios progressistas.”

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AURORA: MEMÓRIAS E DELÍRIOS DE UMA MULHER DA VIDA

Preço R$ 71,92 (168 págs.)

Autor Silvana Jeha e Joel Birman

Editora Veneta

RAIO QUE O PARTA

Quando Até 7 de agosto; de ter. a sáb., das 10h às 20h; dom. das 10h às 18h

Onde Sesc 24 de Maio – r. 24 de Maio, 109, São Paulo

Preço Grátis

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