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Produção industrial volta a cair em agosto, com retração em combustíveis e alimentos

A produção industrial brasileira dá sinais de perda de ritmo, conforme mostrou o IBGE nesta quarta-feira. O setor voltou a cair 0,6% em agosto e acabou por eliminar a alta do mês anterior, quando avançou nessa mesma magnitude. O desempenho negativo foi puxado pelos segmentos de combustíveis, alimentos e atividades extrativas.

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No ano, a indústria acumula queda de 1,3% e, em 12 meses, de 2,7%. O gerente da pesquisa, André Macedo, explica que a indústria chegou a exibir melhora no ritmo ao longo de 2022 já que em cinco dos oito meses do ano ficou no campo positivo. Mas o desempenho é insuficiente para recompor perdas recentes.

— A produção está 0,5% abaixo do patamar que o setor estava no final de 2021. Há uma desaceleração do setor industrial. As medidas de incremento de renda que o governo anunciou deram algum fôlego, mas outros efeitos negativos importantes permanecem — conclui Macedo, ao elencar a inflação ainda em patamar elevado, o aumento dos juros, alta inadimplência e patamar ainda alto de desemprego.

Com o resultado, o setor se encontra 1,5% abaixo do patamar pré-pandemia observado em fevereiro de 2020. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta quarta-feira pelo IBGE.

Andando de lado

Economistas avaliam que a indústria deve andar de lado até o fim do ano. Há em curso uma normalização das cadeias de suprimentos globais, o que reduz os gargalos enfrentados pelo setor industrial.

Ao mesmo tempo, medidas como o aumento no valor do Auxílio Brasil, a redução dos impostos sobre bens essenciais como combustíveis, além de outros estímulos fiscais anunciados, podem dar algum fôlego no curto prazo para segmentos como a indústria de alimentos e bebidas. Mas estes movimentos deverão ser parcialmente compensados pelo aperto das condições financeiras.

— A indústria, assim como o restante da economia, passa a sentir mais fortemente os efeitos da elevação da taxa de juros, além de continuar sendo afetada pela desaceleração da economia global e queda de preços de commodities — explica Claudia Moreno, economista do C6 Bank

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Carlos Lopes, economista do BV, espera continuidade do processo de desaceleração do setor industrial, embora com volatilidades nas variações mensais.

— Viemos de um primeiro semestre, à exceção de janeiro, com crescimento moderado e vamos caminhar para uma estagnação. Devemos ter um crescimento da indústria próximo a zero em 2022.

Oito de 26 atividades em queda

Oito das 26 atividades investigadas pelo IBGE registraram queda em agosto, em relação ao mês anterior. A maior influência negativa veio do setor de petróleo e biocombustíveis cuja produção caiu 4,2%.

Segundo Eduardo Vilarim, economista do banco Original, houve um aumento na produção de combustíveis em julho em razão da expectativa de aumento da demanda em meio à incidência da redução do ICMS, o que sugere que as empresas anteciparam parte da fabricação.

— Olhando à frente, o corte na produção de petróleo confirmado pela OPEP+ traz um ambiente de maiores cotações da commodity energética no cenário internacional. O aumento da defasagem dos combustíveis traz novos reajustes nos preços dos combustíveis à mesa, o que reduziria a sua demanda caso confirmado.

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Mirella Hirakawa, economista-sênior da AZ Quest, avalia que a redução dos impostos sobre combustíveis pode trazer reflexos positivos nos dados seguintes, mas não dá pra dizer que há efeito claro de aumento da demanda via preço até o momento.

— Isso pode aparecer na produção do mês de setembro, mas a expectativa é de uma atividade como um todo mais fraca nos próximos meses.

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Outras contribuições negativas vieram das indústrias de produtos alimentícios (-2,6%), que interrompeu três meses seguidos de alta, e indústrias extrativas (-3,6%), que eliminou parte do avanço de 4,6% acumulado em junho e julho – consequência de uma retração na fabricação de minérios de ferro por conta da desaceleração econômica global e menor demanda pela matéria-prima.

— Esses três segmentos – derivados de petróleo, alimentos e extrativo – são os que mais pressionam a indústria como um todo. Juntos, eles respondem por cerca de 36% do setor industrial — explica Macedo.

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Dentro da indústria de produtos alimentícios, houve recuo na produção de itens como açúcar e carnes – o que de acordo com Vilarim, do banco Original, está ligado, entre outros fatores, com a menor demanda doméstica. Ele lembra que a última queda na produção de alimentos ocorreu em abril, inclusive provocada pela baixa produção de açúcar, que tem um peso relevante para o setor industrial.

— A produção também contrai em meio a um mercado interno que apresenta menores consumos de proteína bovina em meio à inflação elevada desses alimentos. A produção só não é menor porque os níveis de exportação atingiram recorde em agosto, já que os frigoríficos brasileiros se preparam para atender a demanda chinesa em feriados que se iniciam de outubro até o ano novo chinês (fevereiro).

Já entre as 18 atividades com expansão na produção, os destaques foram os segmentos de veículos automotores (10,8%), máquinas e equipamentos (12,4%) e outros produtos químicos (9,4%). Segundo o gerente da pesquisa, essas atividades tiveram quedas no mês passado e estão fazendo agora uma compensação desses recuos.

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Estes resultados levaram o setor de bens de consumo duráveis a interromper dois meses seguidos de queda e avançar 6,1% em agosto. Também no campo positivo aparece o segmento de bens de capital, com alta de 5,2%. Na outra ponta, bens de consumo semi e não duráveis e bens intermediários recuaram, ambos, 1,4%.

Perspectivas

Economistas avaliam que o setor industrial deve andar de lado este ano diante da alta da taxa de juros, que diminui a capacidade de investimentos das empresas, e da desorganização das cadeias globais que afeta a produção.

O Índice de Confiança da Indústria (ICI) do FGV IBRE cai 0,8 ponto em setembro, para 99,5 pontos. Segundo Stéfano Pacini, economista do FGV IBRE, nota-se um pessimismo quanto ao aumento da produção por conta da desaceleração da atividade econômica e dificuldades que ainda persistem no abastecimento de alguns insumos.

“O cenário melhora um pouco no horizonte de seis meses, mas é preciso ter cautela considerando que a política monetária mais restritiva deve conter os investimentos nos próximos meses”, comenta Pacini.