Estádios mais distantes reforçam tese da ‘Copa do Mundo de bolso’
AL KHOR E AL WAKRAH, CATAR (FOLHAPRESS) – Imram Khan, segurança do estádio de Al Bayt, reconhece o turista e não consegue disfarçar o sorriso irônico.
“Foi difícil chegar aqui, não?”, pergunta.
É a expressão parecida a de Jasmin, funcionária da estação de metrô de Al Wakrah, ao ouvir a pergunta de como chegar ao estádio de Al Janoub.
“É bem longe!”
As duas frases são provas de que o conceito de longe e perto pode ser relativo. As arenas são as mais distantes da Copa do Mundo no Qatar. Estão separadas por 56 quilômetros. São 12 a mais do que o necessário para ir da Neo Química Arena ao Morumbi, em São Paulo.
Para os qataris, é uma viagem considerável. Em parte pelo tempo necessário, mas também pela mudança gradual de paisagem para quem faz o percurso entre os estádios. É preciso atravessar Doha, capital do país, e o cenário se altera de maneira drástica. São duas construções erguidas no meio do deserto, cercadas por areia. Ambas, após o Mundial, terão a capacidade reduzida.
Palco da abertura do Mundial, entre Qatar e Equador, no próximo domingo (20), o estádio da Al Bayt vai retirar parte das cadeiras para diminuir o número de espectadores. Para o torneio da Fifa, será possível receber 60 mil pessoas. O de Al Janoub (40 mil) terá o mesmo fim, mas os assentos removidos, segundo a organização, serão doados para outros projetos esportivos ao redor do planeta.
O conceito de “longe” cai por terra quando o Qatar é comparado com Rússia e Brasil, as duas últimas sedes.
Para completar os seus três jogos na fase de grupos em 2018, o Egito viajou 11.770 quilômetros. Os torcedores que quiseram sair da capital Moscou para acompanhar a partida entre França e Argentina, em Kazan, pelas oitavas de final, submeteram-se a trajeto de trem que levou 17 horas.
No torneio brasileiro, quatro anos antes, a Inglaterra saiu de seu campo de treinamento, no Rio de Janeiro, e voou 2.800 quilômetros para Manaus, onde estreou contra a Itália.
“Bem-vindos à selva”, foi o comentário do narrador Clive Tyldesley, da emissora britânica ITV, ao abrir a transmissão.
No caso das arenas Al Bayt e Al Jamoub, no Qatar, seria adequado dizer “bem-vindos ao deserto”.
O Comitê da Entrega e Legado, responsável pela organização do torneio, afirma que compensou a cidade de Al Khor, onde está o estádio da abertura da Copa, com a construção de parques, formando um cinturão verde que vai garantir um legado permanente para a região. Com 200 mil habitantes, o município é um dos maiores do país.
Esta onda verde não é visível para quem chega vindo de Doha, o que vai acontecer com a maioria dos torcedores. A arena é vizinha da estrada que leva a Al Khor e é de difícil acesso a pé. A construção é imponente, repleta de escadarias que dão acesso às arquibancadas.
“Não se engane por essa região do estádio. Aqui só foi construído para a Copa mesmo. Mas para você ver a beleza da cidade, tem de entrar nela de verdade, não ficar aqui”, assegura Imar Khan, tentando explicar que Al Khor não se resume ao palco do futebol.
A estrutura da arena lembra a de uma tenda, forma de homenagear o povo nômade bayt al shaar.
O tempo necessário para ir de Al Bayt para Al Janoub (e vice-versa) reforça o conceito de “Copa de bolso”, usado pelo Qatar para comprovar que este Mundial será como nenhum outro. Sem metrô ou trem disponível nas regiões, são necessárias cerca de duas horas e meia para ir de um lugar a outro de transporte público.
Isso também mostra, como a Fifa fez questão de divulgar, que será possível para o turista acompanhar mais de um jogo por dia. Nos outros torneios, a não ser que duas partidas acontecessem na mesma cidade e na mesma data, era quase impossível.
Al Bayt está pronto para receber a partida de abertura. A estreia do Al Janoub será na próxima terça-feira (22), no confronto entre França e Austrália. Uma semana antes, ajustes ainda eram feitos na estrutura fora do estádio.
Ao lado da entrada principal, foi colocada faixa para demarcar o local em que bandeiras serão fiscalizadas. Placa próxima avisa o que não pode entrar. Entre os itens proibidos, estão qualquer adereço com mensagens políticas ou consideradas discriminatórias. Bandeiras e cartazes podem medir, no máximo 2 x 1,5 metros.
Diante da polêmica causada pela questão dos direitos humanos no Qatar, isso pode ser considerado controverso. Mas a proibição pela Fifa de frases existe desde 2006. A conferência do tamanho de bandeiras já havia sido colocada em prática na Rússia, em 2018, e causou revolta. Especialmente entre os torcedores sul-americanos.
“Poucos turistas vieram aqui ver como está o estádio até agora. Não os condeno. É longe demais”, reconhece Amim (ele não quis dar o sobrenome), funcionário do Al Janoub, localizado na cidade de Al Wakarah (88 mil habitantes). Assim como em Al Khor, o município se desenvolveria, de acordo com a organização, com obras de desenvolvimento e sustentabilidade.
Assim como em Al Khor, elas não são visíveis para os torcedores que forem aos jogos. A imagem de vastos espaços de areia é o que chama a atenção.
“Isso [obras de desenvolvimentro] a gente vê depois. Quero que o Mundial comece logo”, completa Amim.
Para quem ficou curioso, a menor distância entre dois estádios na Copa do Mundo do Qatar é entre o Khalifa International e o Qatar Foundation: 2.200 metros.
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