De menino da periferia a coordenador de centro de estudos do Insper
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O lançamento oficial do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, nesta sexta (18), dá estrutura e endereço ao objetivo profissional do economista Michael França, 34. Filho de um soldador e uma doméstica, criado na periferia de Uberaba (MG), França morava numa favela ao lado da USP durante o mestrado e o doutorado na universidade.
Destaque nos estudos desde a graduação, ele diz que encontrou os rumos de sua carreira ao usar números para entender os problemas sociais do país, objetivo do núcleo que ele agora coordena.
Criado no ano passado, com o professor do Insper e colunista da Folha de S.Paulo Sergio Firpo e o pesquisador Alysson Portela, o núcleo recebeu dois financiamentos de pesquisa da Open Society Foundation, instituição que apoia diferentes causas ao redor do mundo. O primeiro financiou uma pesquisa de nove meses na área de desigualdade racial na política brasileira.
Com o segundo foi possível contratar seis pesquisadores negros, que, nos próximos dois anos, vão estudar a desigualdade racial na educação, na renda e na violência, diz França, que é também colunista da Folha de S.Paulo.
No ano passado, o núcleo desenvolveu o Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial) e o Ieer (Índice ESG de Equidade Racial). Neste ano, lançou estudos relacionados à desigualdade racial e de gênero na política.
FILHO DE SOLDADOR E DOMÉSTICA, ECONOMISTA FOI ALVO DE RACISMO NA INF NCIA
Nascido na periferia de Uberaba (MG), ao lado de duas grandes favelas, a renda da família França era baixa na infância. O pai era soldador e a mãe começou a trabalhar como empregada doméstica após ele e o irmão entrarem na adolescência.
Para o economista, a falta de oportunidades dos pais e suas escolhas influenciam a formação do indivíduo. “Lembro de subir em um pé de manga no quintal de casa e ficar pensando se um dia eu viajaria para algum lugar, se teria melhores condições de vida, pois no local onde morava não haviam muitas expectativas.”
França, hoje com pós-doutorado, diz que não gostava de ir à escola quando criança, pois os professores não conseguiam dar aula com a bagunça dos alunos. Além disso, era alvo de piadas racistas.
“Na década de 90, até 2000, em vários lugares, muitos não queriam ser chamados de negros, era até meio ofensivo. Eu mesmo já me declarei como indígena, sendo que sou preto. Essa pauta avançou muito graças ao movimento negro e à política de cotas, que forçou a sociedade brasileira a debater o tema”, diz.
O economista afirma que toda essa situação tinha como consequência não só uma violência psicológica, mas também física. Ele conta que muitas crianças da escola se machucavam ao esfregar a pele para tentar clareá-la. “Um amigo chegou a se ferir ao usar produtos químicos.”
Por causa das desavenças na escola, chegou em casa algumas vezes com o nariz sangrando. “Acho que minha mãe me achava problemático, pois meu irmão é pardo, não passava por isso.”
“O sentimento que eu tinha era que as crianças e adolescentes usavam a violência como válvula de escape para liberar toda raiva e sofrimento que sentiam por serem sistematicamente excluídas, inclusive pelas suas próprias famílias.”
IGREJA EVANGÉLICA DEU ESTRUTURA, DIZ PESQUISADOR, MELHOR ALUNO NA GRADUAÇÃO
Frequentar uma igreja evangélica durante a infância teve muito impacto em sua formação. Para França, seríamos uma sociedade muito mais violenta sem a igreja. “Li a Bíblia algumas vezes. Na igreja aprendi o poder da oratória como um meio para resolver os conflitos, contribuiu para que me tornasse uma pessoa extremamente pacífica”, diz ele, que hoje não frequenta nenhuma igreja específica.
Até o primeiro ano do ensino médio, França diz que nunca tinha ouvido falar em vestibular, novidade que conheceu por meio do irmão. “Na escola, as professoras não falavam sobre ensino superior. A sensação que eu tinha era que elas não acreditavam que os alunos iam chegar muito longe. Os próprios alunos não acreditam em si. Não havia modelos sociais a serem seguidos.”
A partir desse dia, o economista colocou na cabeça que, por meio da educação, ascenderia socialmente. “Grande parte da minha juventude foi marcada por ficar trancado em bibliotecas estudando horas e horas para me preparar para o vestibular.”
Passou para economia na Unesp de Araraquara, mas se manter financeiramente até o final do curso foi outro grande desafio. Os pais só conseguiam ajudá-lo com R$ 350. Morava em uma república com outros 12 rapazes. Com o tempo ganhou auxílio-alimentação, aluguel e depois uma bolsa de estudos da faculdade. Isso o ajudou a ter maior tranquilidade financeira e finalizar o curso como o melhor aluno da turma.
“Sempre fiz alguns trabalhos para ajudar em casa e comprar alguns materiais da escola. Nunca foi só estudar, mas é bom destacar que muitos talentos estão ficando pelo caminho devido à falta de apoio.”
FRANÇA MOROU EM FAVELA DURANTE O MESTRADO E O DOUTORADO
Apesar do estudo, a grana ainda era curta. Para fazer o mestrado e o doutorado morou, de 2012 a 2020, na favela São Remo, localizada próxima da USP, na zona oeste da capital paulista.
No mestrado, em que estudou a precificação de ativos em finanças, ele diz que assustava os colegas com a quantidade de horas que ficava sentado estudando. “A música foi para mim uma grande companheira de jornada, que, em boa parte, foi solitária. YáYá Massemba, cantada por Maria Bethânia, ainda me toca muito.”
Devido ao bom desempenho acadêmico durante o mestrado, foi convidado para representar a USP no Econometric Game, competição que acontece entre as melhores universidades do mundo, anualmente, em Amsterdã.
Ao final do mestrado, França sentia-se pouco motivado a continuar na carreira acadêmica. Então, resolveu trabalhar como assistente de pesquisa no Insper, quando começou a nascer o gosto pela área social. Foi aí que começou o doutorado na USP, na área de desigualdade social, e ganhou bolsa da Fapesp.
Durante o doutorado (parte dele feito como pesquisador visitante na Universidade Columbia, em Nova York), França percebeu que os economistas não comunicavam o que produziam de uma forma acessível. “A minha ideia é falar com a população em geral, não apenas com meus pares.”
No período, também apresentou artigos na Argentina, no Uruguai e na Índia. “Quando fiz essas viagens todas, me lembrei daquele garoto que subia na mangueira. Sinto a responsabilidade de ajudar outras pessoas.”
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