Aflito com o Fluminense, João Guilherme Ripper estreia em Minas sua décima ópera

João Guilherme Ripper é um compositor ocupado. Precisa terminar até o fim do ano “La Vorágine”, ópera encomendada pelo Teatro Colón de Bogotá, baseada em romance centenário de José Eustasio Rivera (1889-1928), o Euclides da Cunha da Colômbia. Ao mesmo tempo, tenta se desvencilhar das dores que a escassa pontuação do Fluminense no Brasileiro lhe inspira.

— Se eu me preocupar com o Fluminense, não consigo compor. Cara, isso me afeta de uma maneira… — suspira o compositor, desviando o olhar como quem busca alguma luz.

O foco incessante no trabalho o ajuda a esquecer. Na última semana, foi a Belo Horizonte acompanhar os ensaios à italiana da estreia mundial de “Devoção”, sua décima ópera, e orientar correções de última hora na partitura. Embora pudesse batizar um conto de torcedor à beira do colapso, o título aborda uma história mineiríssima de fé, que será conduzida por Ligia Amadio diante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e do Coral Lírico de Minas Gerais.

O enredo trata do português Feliciano Mendes, que deixa o Norte de Portugal para a mineração no Brasil, onde contrai uma doença. Após atribuir a cura a uma promessa, começa a construir o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas-MG. Lá, algumas cenas de “Devoção” começarão a ganhar vida neste sábado (12), com direção de Ronaldo Zero e regência de Ligia Amadio. A ópera será integralmente criada no Grande Teatro Cemig, do Palácio das Artes de Belo Horizonte, de 19 a 23 de julho.

É tanto trabalho que, pela primeira vez, o compositor carioca, que completa 65 anos em agosto, abriu mão de escrever seu próprio libreto. Convocou os versos de André Cardoso, regente da Orquestra da Sinfônica da UFRJ, que se debruçou sobre o argumento proposto pela Secretaria da Cultura de Minas Gerais e pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), a partir da pesquisa oferecida pela Academia de Artes e Ciências de Congonhas.

“Devoção” é a terceira ópera com temas mineiros que a FCS encomenda sob direção artística de Claudia Malta, depois de “Aleijadinho” (2022), de Ernani Aguiar (com libreto de André Cardoso), e “Matraga” (2023), de Rufo Herrera. Todas tiveram pré-estreias nos lugares com que dialogam – no caso Ouro Preto e Cordisburgo. No caso de Congonhas, a logística será desafiadora: o público verá a ação se passar no alto de uma murada, enquanto a orquestra toca de dentro da igreja, amplificada.

Surge assim em 2024 uma história de Feliciano (o tenor Matheus Pompeu, radicado na Espanha) e de sua fictícia mulher, Mercê (a soprano portuguesa Carla Caramujo). Completam o elenco dessa história de fé o barítono Johnny França, o baixo Sávio Sperandio e a mezzo Barbara Brasil, além do menino-ator Miguel de Andrade. Autor de “Piedade”, livremente baseada no crime passional que matou Euclides da Cunha, Ripper se apressa em afastar-se da ideia de ópera-documentário, um gênero que, segundo ele, não existe.

— Quando a gente começou a abordar essa história, vi que por trás dela tinha uma tema muito maior, que é esse aspecto devocional mineiro, que é imenso e muito sincrético. Vai desde Padre Eustáquio, passa pelo Bom Jesus de Matosinhos e chega em José Arigó e Chico Xavier. Por isso que eu chamo “Devoção” de ópera-oratório: são grandes painéis, grandes cenas corais, em que a música narra o que você não necessariamente vê explicitamente no palco, jogando a narrativa para muito além do que aquele momento do século XVIII.

Até por isso, Ripper tomou a liberdade de escrever uma congada na ópera, o que remete imediatamente a Francisco Mignone (1897-1986), que também usou a tradição religiosa afro-brasileira para escrever a célebre Congada da ópera “O Contratador de Diamantes”, recentemente resgatada. Ripper conta que cita o tema de Mignone, enquanto se recorda do conselho que recebeu do velho maestro.

— Ele era patrono da minha turma de formatura na UFRJ, mas não pôde ir. Liguei para ele, e perguntei que conselho daria para um jovem compositor. Mignone parou, pensou um pouco e disse: “Escreva apenas aquilo que você tiver vontade. Se você achar que não tem que escrever, não escreva, porque a verdade transparece na música. Hoje, a minha verdade na ópera é que a música tem que estar a serviço da cena. Alguma coisa que ajude o texto, que conduza o texto à expressão daquela cena.”

Ainda haverá a estreia de “Candinho”, com encenações previstas em 2024 no Municipal do Rio, no São Pedro de Porto Alegre e no Neojiba, projeto social do Governo da Bahia de reconhecida excelência artística, guiado pelo maestro Ricardo Castro. No exterior, além da já citada “Voragine”, no Colón de Bogotá, Ripper conquista em setembro o Teatro de La Zarzuela, em Madri, com a superbem sucedida “Domitila”, ópera composta em 2000.

“Devoção”. De João Guilherme Ripper, com libreto de André Cardoso. 13 de julho, Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. Grátis. 19, 20, 22 e 23 de julho, 20h – Grande Teatro Cemig Palácio das Artes, Belo Horizonte

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