Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, é um nome que ecoa com força nas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro. Aos 34 anos, ele se consolidou como chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), uma das maiores facções criminosas do estado, e lidera com mão de ferro o chamado Complexo de Israel, um conjunto de cinco favelas que inclui Cidade Alta, Parada de Lucas, Vigário Geral, Cinco Bocas e Pica-Pau. Nunca preso, Peixão acumula mais de 50 registros criminais e cerca de 20 mandados de prisão por crimes como tráfico de drogas, homicídios, torturas e roubos. Sua trajetória, marcada por uma mistura de violência, intolerância religiosa e ostentação, o coloca como um dos traficantes mais procurados do Brasil. Em 2024, operações policiais expuseram o império que ele construiu, com imóveis de luxo que chocaram até os agentes mais experientes.
O domínio de Peixão vai além do controle territorial. Ele impôs uma ditadura religiosa nas comunidades, proibindo práticas como candomblé e espiritismo, enquanto bandeiras de Israel e Estrelas de Davi marcam seu território. Filho de uma umbandista, o traficante se converteu ao evangelismo e transformou sua quadrilha, autodenominada Tropa do Aarão, em um grupo que usa a fé como justificativa para ações violentas. A influência dele é tanta que, em incursões recentes, a polícia encontrou mansões equipadas com piscinas, academias e lagos artificiais, evidenciando a prosperidade financeira obtida com atividades ilícitas.
A operação mais recente, em março de 2025, revelou a extensão do poder de Peixão. Um “resort” em Parada de Lucas começou a ser demolido, mas o traficante segue foragido, desafiando as autoridades. O confronto entre o TCP e o rival Comando Vermelho (CV) mantém a região em constante tensão, com tiroteios que já fecharam vias como a Avenida Brasil e deixaram vítimas entre moradores e trabalhadores. A seguir, a história de um criminoso que mistura crime, fé e luxo em um dos cenários mais perigosos do Rio.
Origens humildes e ascensão no crime
Criado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Álvaro Malaquias Santa Rosa teve uma infância marcada pela simplicidade e pela influência materna. Sua mãe, uma umbandista que recebia o santo Erê, vestia-se de branco e oferecia pipoca e doces na esquina da Avenida Brasil. Antes de se tornar Peixão, ele era apenas Alvinho, um jovem que cresceu em um bar da família, na divisa com a favela de Parada de Lucas. Ali, desenvolveu o hábito peculiar de adicionar azeitonas a tudo que comia, um detalhe que persiste até hoje. Apesar de afirmar na infância que não queria seguir o caminho do crime, a vida o levou por outra direção.
A entrada de Peixão no mundo do tráfico começou cedo. Seus dois irmãos, também envolvidos com atividades criminosas, foram mortos, e a irmã igualmente se aproximou desse universo. A primeira anotação criminal dele data de 2015, quando já era apontado como o novo líder de Parada de Lucas. A ascensão foi rápida. Em 2016, após os Jogos Olímpicos do Rio, ele planejou a invasão da Cidade Alta, um conjunto habitacional em Cordovil. Usando drones para mapear o território, preparou-se durante meses e consolidou o controle em outubro daquele ano, enfrentando uma tentativa frustrada de retomada pelo Comando Vermelho em maio de 2017, que resultou na prisão de 45 rivais e na apreensão de 33 fuzis pela PM.
Hoje, Peixão comanda um império que vai além do tráfico de drogas. Seus negócios incluem roubos de cargas, extorsões e até suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de instituições evangélicas. Com um arsenal bélico capaz de sustentar longos confrontos, ele mantém o Complexo de Israel sob rígido controle, enquanto sua folha criminal registra acusações graves, como homicídios e ocultação de cadáveres. Apesar disso, permanece fora do alcance das autoridades, um símbolo da dificuldade do estado em combater o crime organizado.
Intolerância religiosa molda o Complexo de Israel
Convertido ao evangelismo, Peixão transformou o Complexo de Israel em um território onde a fé que ele professa é imposta à força. Terreiros de religiões de matriz africana foram proibidos, e imagens de santos católicos, retiradas das comunidades. Em Cinco Bocas, por exemplo, uma imagem de uma santa em uma quadra foi removida assim que o TCP assumiu o controle. A intolerância não é novidade em sua trajetória: ele já foi investigado por ataques a terreiros em Duque de Caxias, onde chegou a pregar em uma igreja evangélica antes de se dedicar integralmente ao crime.
A influência religiosa de Peixão vai além das proibições. Ele batizou sua quadrilha de Tropa do Aarão, uma referência ao irmão de Moisés na Bíblia, e adotou símbolos como a Estrela de Davi e a bandeira de Israel para marcar o território. Em Cidade Alta, uma Estrela de Davi de grandes proporções foi instalada no topo de uma construção, visível a quilômetros de distância. Alto-falantes espalham mensagens bíblicas pelas ruas, enquanto câmeras de vigilância, instaladas por ordem do traficante, monitoram os moradores. Pontes construídas entre as favelas facilitam a circulação dos criminosos, reforçando o domínio sobre as cinco comunidades.
Essa mistura de crime e fé chamou a atenção das autoridades. Em 2024, Peixão passou a ser investigado por terrorismo, acusado de impor uma “ditadura religiosa” que expulsa quem não segue suas crenças. Casos de igrejas católicas fechadas por ordem dele circularam em redes sociais, como em julho, quando a paróquia Nossa Senhora da Conceição e São Justino, em Parada de Lucas, suspendeu atividades temporariamente. Embora a Arquidiocese do Rio tenha negado interferência direta, moradores relatam o medo constante de represálias, evidenciando o controle absoluto do traficante.
Operações policiais expõem o luxo de Peixão
Nos últimos anos, as incursões policiais no Complexo de Israel revelaram a dimensão da riqueza acumulada por Peixão. Em outubro de 2024, agentes da Polícia Civil localizaram uma mansão em Parada de Lucas que impressionou pela ostentação. A casa contava com uma área de lazer ampla, piscina, academia equipada com aparelhos modernos de musculação e um lago artificial repleto de carpas. Durante a ação, batizada de Operação Êxodo, 12 pessoas foram presas, mas o traficante escapou. A estrutura, apelidada de “resort do tráfico”, foi construída com dinheiro ilícito e servia como base para armazenar armas e drogas.
Apenas alguns meses depois, em março de 2025, outra operação voltou ao mesmo imóvel. Desta vez, as autoridades iniciaram a demolição do “resort”, que também incluía um monte usado para orações e coqueiros decorativos. A ação, realizada por policiais civis e militares, foi marcada por tiroteios intensos, que fecharam a Avenida Brasil por alguns minutos. A investigação apontou que a mansão violava normas ambientais, como o desvio de cursos d’água, e não possuía licença para construção. Apesar da destruição, Peixão segue foragido, e outras propriedades ligadas a ele continuam sendo alvo de buscas.
Além do luxo, as operações expuseram a infraestrutura criminosa do TCP. Fossos medievais cavados nas ruas, barricadas em chamas e drones usados para vigilância mostram a sofisticação das táticas de Peixão. Em uma ação em maio de 2023, a polícia encontrou um bunker em Parada de Lucas, onde 17 homens se escondiam, acessado por uma porta de concreto controlada remotamente. Esses detalhes reforçam a percepção de que o traficante opera como um líder intocável, desafiando as forças de segurança com recursos e planejamento.
Confrontos e impacto na população
Tiroteios entre o TCP e as forças policiais são rotina no Complexo de Israel, mas os confrontos também afetam diretamente os moradores e trabalhadores da região. Em outubro de 2024, uma operação da PM nas comunidades de Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau deixou três mortos e três feridos, todos baleados em vias expressas como a Avenida Brasil. Entre as vítimas estavam um motorista de aplicativo, um passageiro de ônibus e um caminhoneiro, pegos no fogo cruzado. A via ficou interditada por mais de duas horas, enquanto barricadas queimavam e valas dificultavam o avanço policial.
A violência não é novidade. Em fevereiro de 2025, outra ação policial resultou em quatro baleados e no fechamento da Linha Vermelha e da Avenida Brasil. O objetivo era impedir uma invasão do TCP à comunidade do Quitungo, controlada pelo Comando Vermelho. Durante o confronto, um helicóptero da PM foi atingido por disparos e precisou fazer um pouso forçado. Escolas, unidades de saúde e o transporte público foram afetados, com 17 unidades escolares interrompendo as aulas e estações de trem do ramal Saracuruna fechadas temporariamente.
A população vive sob tensão constante. Relatos apontam que os moradores são obrigados a seguir regras rígidas impostas por Peixão, como a proibição de usar celulares nas ruas ou instalar câmeras em casa. Serviços como TV a cabo foram cortados, forçando o uso de sistemas controlados pela facção. Desaparecimentos também são frequentes: em abril de 2024, três jovens, incluindo um casal de namorados e um motorista de aplicativo, sumiram no complexo, e casos assim raramente são solucionados, devido ao medo de represálias.
Cronologia do império de Peixão
A trajetória de Peixão no crime é marcada por momentos-chave que consolidaram seu poder. Veja os principais eventos que definiram sua ascensão:
- 2015: Primeira anotação criminal de Álvaro Malaquias Santa Rosa, já apontado como líder em Parada de Lucas.
- 2016: Invasão da Cidade Alta, planejada com drones, marca o início da expansão do TCP sob seu comando.
- 2017: Tentativa de retomada pelo Comando Vermelho é frustrada pela PM, com 45 prisões e 33 fuzis apreendidos.
- 2020: Durante a pandemia, Peixão estabelece o Complexo de Israel, unindo cinco favelas com pontes e câmeras.
- 2023: Operação em Parada de Lucas encontra um bunker com 17 criminosos escondidos.
- 2024: Descoberta de uma mansão de luxo em outubro, seguida por confrontos que deixaram três mortos.
- 2025: Demolição de um “resort” em março reforça os esforços policiais para desmantelar sua estrutura.
Esses marcos mostram como Peixão transformou um conjunto de favelas em um território fortemente controlado, usando táticas inovadoras e uma combinação de violência e simbolismo religioso.
Detalhes do poderio bélico e táticas
Equipado com um arsenal impressionante, o TCP de Peixão se destaca pelo poder de fogo. Fuzis, metralhadoras e munições em grande quantidade foram apreendidos em diversas operações, mas o estoque parece inesgotável. Em maio de 2023, uma metralhadora ponto 50, capaz de derrubar aeronaves, foi encontrada em Parada de Lucas, evidenciando a ameaça que o grupo representa. Drones também são usados para monitorar o território e planejar ataques, como na invasão da Cidade Alta.
As táticas defensivas são igualmente sofisticadas. Fossos cavados nas ruas, barricadas de concreto e veículos incendiados dificultam o acesso policial. Em outubro de 2024, um blindado da polícia ficou preso em uma dessas barreiras durante uma operação. A construção de pontes, como a que cruza o rio Pavuna, facilita a movimentação entre as favelas, enquanto câmeras de segurança mantêm os moradores sob vigilância constante. Essas estratégias tornam o Complexo de Israel um dos redutos mais difíceis de serem penetrados pelas forças de segurança.
O apoio de policiais corruptos é outro fator que sustenta o domínio de Peixão. Acusações de pagamento por proteção remontam aos antecessores Robertinho de Lucas e Furica, e ele teria mantido essa prática para garantir a invasão de territórios e evitar prisões. Apesar das denúncias, nenhuma prova concreta levou à captura do traficante, que segue desafiando as autoridades com sua estrutura criminosa bem organizada.

