Ozempic dispara alertas: uso indevido cresce e eleva riscos de transtornos alimentares

Ozempic

Ozempic - Foto: MillaF/ Shutterstock.com

A rápida popularidade de medicamentos como o Ozempic, inicialmente desenvolvido para tratar diabetes tipo 2, tem gerado preocupações entre especialistas em saúde mental e física. Usados cada vez mais para perda de peso, esses fármacos, pertencentes à classe dos agonistas do receptor GLP-1, suprimem o apetite e ajudam a reduzir o peso corporal, mas também trazem riscos significativos para pessoas com transtornos alimentares ou predisposição a eles. Profissionais australianos relatam um aumento nas consultas relacionadas ao uso dessas medicações, enquanto a falta de triagem adequada pode agravar condições como anorexia atípica e compulsão alimentar periódica. A situação exige atenção urgente de médicos e pesquisadores para evitar consequências graves à saúde pública.

No último ano, a Butterfly Foundation, organização australiana de suporte a transtornos alimentares, registrou um crescimento nas ligações para sua linha de ajuda. Pacientes expressam interesse em experimentar medicamentos como Ozempic e Wegovy, atraídos pela promessa de uma solução rápida para perda de peso. A psicóloga clínica Sarah Cox, que atua na entidade, destaca que esses fármacos podem reforçar ideias distorcidas sobre corpo e autoestima, especialmente em indivíduos vulneráveis.

A discussão vai além do uso clínico. A cobertura midiática, com imagens de “antes e depois” e celebrações da perda de peso rápida, alimenta uma cultura que valoriza corpos magros a qualquer custo. Esse cenário preocupa especialistas, que pedem mais pesquisas e ações preventivas para proteger grupos de risco.

Uso de agonistas GLP-1 revela lacunas na triagem de saúde mental

Os agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda, funcionam imitando hormônios que prolongam a sensação de saciedade e reduzem os níveis de açúcar no sangue. Na Austrália, enquanto Wegovy é aprovado para controle de peso, o Ozempic é frequentemente prescrito “off-label” para essa finalidade. Essa prática, embora legal, levanta questões sobre a segurança de pacientes com histórico de transtornos alimentares. Estima-se que mais de 1,1 milhão de australianos convivam com essas condições, mas menos de um terço receba tratamento adequado.

A falta de triagem universal para identificar transtornos alimentares antes da prescrição desses medicamentos é um ponto crítico. Sarah Trobe, psicóloga clínica e diretora da National Eating Disorders Collaboration (NEDC), alerta que indivíduos com peso elevado, incluindo aqueles com anorexia atípica, estão particularmente vulneráveis. Esses pacientes, apesar de não apresentarem baixo peso, exibem sintomas graves, como medo intenso de engordar e restrição alimentar extrema. Prescrever medicamentos para perda de peso nesses casos pode intensificar o problema, levando a riscos semelhantes aos da anorexia tradicional.

Há também o impacto psicológico do “efeito rebote”. Quando o uso dos fármacos é interrompido, muitos pacientes recuperam o peso perdido, o que pode desencadear culpa, vergonha e comportamentos alimentares desordenados. Esse ciclo vicioso reforça a necessidade de avaliação prévia e acompanhamento contínuo por profissionais de saúde.

Preocupações crescem com a influência da mídia e da cultura de celebridades

A exposição constante a narrativas de sucesso na perda de peso tem agravado a percepção pública sobre os agonistas GLP-1. Fotos de celebridades e influenciadores exibindo transformações rápidas circulam amplamente, criando uma pressão social que afeta a autoimagem de muitas pessoas. Sarah Cox observa que essa glorificação midiática impacta diretamente quem busca ajuda na Butterfly Foundation, com relatos de insatisfação corporal e vergonha impulsionados por comparações irreais.

Esse fenômeno não é exclusivo de quem já tem um transtorno alimentar. Indivíduos sem diagnóstico prévio, mas com predisposição, podem ser influenciados a buscar esses medicamentos como solução mágica. A facilidade de acesso, somada à falta de regulação rigorosa sobre prescrições “off-label”, amplia o potencial de uso indevido e suas consequências.

Riscos específicos para diferentes tipos de transtornos alimentares

Diferentes transtornos alimentares apresentam riscos distintos com o uso de agonistas GLP-1. Veja alguns pontos levantados por especialistas:

  • Anorexia atípica: Pacientes com peso médio ou elevado, mas com padrões restritivos, podem ter seus sintomas agravados, correndo riscos de desnutrição e complicações graves.
  • Transtorno da compulsão alimentar periódica: Embora estudos preliminares sugiram que os medicamentos possam reduzir episódios de compulsão, os efeitos a longo prazo são incertos.
  • Bulimia e outros distúrbios: O uso indevido para compensar ingestão alimentar pode intensificar ciclos de compulsão e purgação.

A complexidade dessas condições exige abordagens individualizadas. Para pessoas com obesidade e transtorno alimentar concomitante, decisões sobre perda de peso devem envolver equipes multidisciplinares, incluindo médicos, psicólogos e nutricionistas. Ignorar essa necessidade pode comprometer tanto a saúde física quanto a mental.

Falta de pesquisas limita entendimento dos impactos a longo prazo

Apesar da popularidade crescente, os efeitos dos agonistas GLP-1 em pessoas com transtornos alimentares ainda são pouco compreendidos. Estudos iniciais indicam benefícios potenciais no controle da compulsão alimentar, mas a ausência de amostras amplas e acompanhamentos prolongados impede conclusões definitivas. Sarah Trobe enfatiza que esses medicamentos não atuam nos mecanismos psicológicos centrais dos transtornos, como crenças negativas sobre o corpo ou a comida.

A revisão sistemática mais recente sobre o tema, focada no transtorno da compulsão alimentar periódica, mostrou redução de sintomas comportamentais em curto prazo. No entanto, os pesquisadores alertam que os dados são insuficientes para recomendar o uso amplo dos fármacos nessa população. Enquanto isso, a anorexia atípica permanece como uma contraindicação clara, com especialistas afirmando que a perda de peso adicional pode ser fatal.

A ausência de evidências robustas reforça a demanda por triagem universal. Profissionais de saúde precisam identificar sinais de alerta, como distorções na imagem corporal ou histórico de dietas extremas, antes de indicar qualquer medicação desse tipo.

Profissionais de saúde enfrentam desafios na prescrição responsável

Avaliar pacientes para além do peso na balança é um desafio crescente para médicos. Sarah Trobe destaca que o estigma internalizado sobre peso, presente até mesmo entre profissionais, pode levar a decisões precipitadas. Prescrever Ozempic ou similares sem considerar a saúde mental do paciente perpetua uma visão reducionista, focada apenas em números, e não no bem-estar geral.

Em casos de obesidade clinicamente significativa, o uso de agonistas GLP-1 pode ser justificado, mas exige cautela. A alimentação regular, essencial no tratamento de transtornos alimentares, pode ser prejudicada pela supressão do apetite causada pelos medicamentos. Isso cria um dilema: tratar a obesidade sem comprometer a recuperação do transtorno alimentar.

Para mitigar esses riscos, especialistas defendem a capacitação de médicos e a criação de protocolos claros. A triagem deve incluir perguntas sobre relação com a comida, histórico de dietas e percepção corporal, evitando prescrições inadequadas que possam agravar condições preexistentes.

Cronograma da ascensão dos agonistas GLP-1 no mundo

Os agonistas do receptor GLP-1 ganharam destaque ao longo dos anos, marcando uma evolução no tratamento de diabetes e obesidade. Confira os principais marcos:

  • 2005: Liraglutida (Saxenda) é introduzida como um dos primeiros agonistas GLP-1, inicialmente para diabetes.
  • 2017: Semaglutida (Ozempic) é aprovada para diabetes tipo 2, com efeitos notáveis na perda de peso.
  • 2021: Wegovy, versão da semaglutida para controle de peso, recebe aprovação em diversos países.
  • 2023: Uso “off-label” de Ozempic para perda de peso dispara, gerando debates sobre segurança.

Esse avanço trouxe benefícios claros, mas também expôs lacunas na regulamentação e no acompanhamento de pacientes vulneráveis.

Alternativas e caminhos para um uso seguro

Focar em comportamentos saudáveis, em vez de apenas perda de peso, é uma abordagem defendida por especialistas. Para pessoas com transtornos alimentares, o tratamento padrão envolve terapias cognitivo-comportamentais e suporte nutricional, que abordam as causas subjacentes, como baixa autoestima e ansiedade. Medicamentos como os agonistas GLP-1 devem ser considerados apenas em contextos específicos e com supervisão rigorosa.

Pacientes que já utilizam esses fármacos e têm histórico de transtornos alimentares devem buscar orientação especializada. A Butterfly Foundation recomenda contato com profissionais treinados, disponíveis por meio de linhas de ajuda e serviços online, para ajustar o tratamento e minimizar riscos.

A educação pública também é essencial. Combater o estigma do peso e desconstruir a ideia de que emagrecer é sinônimo de saúde pode reduzir a busca desenfreada por soluções rápidas, protegendo a população de efeitos adversos.

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