Conflito interno leva príncipe Harry a abandonar Sentebale, instituição de ajuda a HIV na África
O príncipe Harry, conhecido por seu engajamento em causas humanitárias, anunciou sua saída da Sentebale, organização que cofundou em 2006 para apoiar jovens afetados por HIV e AIDS em Lesoto e Botsuana. A decisão, tomada em conjunto com o príncipe Seeiso de Lesoto, outro fundador, foi motivada por uma crise interna que envolveu desentendimentos com a presidente do conselho, Sophie Chandauka. A ruptura, classificada como “devastadora” pelos dois patronos, expôs fragilidades na gestão da instituição e levantou dúvidas sobre seu futuro. Harry, que vive na Califórnia desde 2020 com Meghan Markle e os filhos, deixa para trás quase duas décadas de dedicação a uma causa ligada ao legado de sua mãe, a princesa Diana.
A Sentebale, cujo nome significa “não me esqueça” em sesotho, idioma de Lesoto, nasceu com o objetivo de oferecer suporte médico, psicológico e educacional a jovens vulneráveis na região sul da África. Ao longo dos anos, a ONG ganhou destaque por sua atuação em comunidades afetadas por altas taxas de HIV, uma das maiores crises de saúde pública do continente. A saída de Harry, porém, não foi apenas uma decisão pessoal: ela reflete uma disputa de poder que envolveu denúncias à Comissão de Caridade do Reino Unido e divergências irreconciliáveis entre os curadores e a liderança da organização.
Enquanto a instituição tenta se reerguer, o impacto da ausência de uma figura como Harry, que trouxe visibilidade global e recursos financeiros, já é sentido. A presidente Chandauka, por sua vez, mantém-se firme no cargo, desafiando as críticas e prometendo continuidade às operações. O caso revela os desafios enfrentados por organizações beneficentes quando conflitos internos ameaçam sua missão principal.
Raízes do conflito na Sentebale
A crise na Sentebale teve início com tensões entre os curadores e Sophie Chandauka, presidente do conselho desde 2022. Ela assumiu o posto com a promessa de modernizar a gestão, mas logo enfrentou resistência de parte da diretoria. Os curadores, apoiados por Harry e Seeiso, solicitaram sua saída, alegando que suas decisões estavam desalinhadas com os interesses da organização. Chandauka, no entanto, reagiu denunciando os curadores à Comissão de Caridade do Reino Unido, órgão que regula entidades beneficentes no país, acusando-os de abuso de poder e falta de transparência.
Harry e Seeiso divulgaram uma declaração conjunta lamentando o que chamaram de “ruptura irreparável”. Eles afirmaram que os curadores agiram para proteger a Sentebale, mas a resistência de Chandauka tornou impossível a continuidade de sua participação como patronos. A presidente, por outro lado, defendeu sua permanência, destacando que não cederá a pressões e que sua liderança é essencial para manter a estabilidade da instituição em meio à turbulência.
Impactos imediatos da saída de Harry
A partida de Harry representa um golpe significativo para a Sentebale, especialmente em termos de visibilidade. Desde sua fundação, a ONG arrecadou milhões de dólares, boa parte graças ao envolvimento do príncipe, que usou sua influência para atrair doadores e organizar eventos como o Sentebale Polo Cup. Dados mostram que, em 2019, a instituição arrecadou cerca de 4,7 milhões de libras, valor que caiu para 3,5 milhões em 2022 devido à pandemia e à redução de atividades presenciais. A ausência de Harry pode agravar essa tendência, dificultando a captação de recursos em um momento de crise interna.
Além disso, a saída ocorre em um contexto delicado para a região atendida pela Sentebale. Em Lesoto, cerca de 23% da população adulta vive com HIV, uma das taxas mais altas do mundo, enquanto Botsuana registra números próximos de 20%. A organização oferece programas de testagem, tratamento e educação, alcançando mais de 10 mil jovens anualmente. Sem a projeção internacional que Harry proporcionava, a Sentebale precisará buscar novas estratégias para manter seu alcance e relevância.
- Principais desafios pós-saída de Harry:
- Redução na captação de doações internacionais.
- Perda de visibilidade em eventos globais de caridade.
- Necessidade de reestruturação interna para superar o conflito.
Histórico da Sentebale e seu legado
Criada em 2006, a Sentebale surgiu de uma viagem de Harry a Lesoto, onde ele testemunhou o impacto devastador do HIV em comunidades locais. Inspirado pelo trabalho de sua mãe, Diana, que quebrou estigmas ao interagir com pacientes de AIDS nos anos 1980, o príncipe uniu forças com Seeiso para transformar a ideia em ação. A organização começou pequena, focada em orfanatos, mas expandiu-se para oferecer clínicas móveis, aconselhamento e bolsas de estudo, atendendo milhares de jovens ao longo dos anos.
O nome “Sentebale” reflete a missão de lembrar aqueles que foram esquecidos pela sociedade. Em quase duas décadas, a ONG estabeleceu parcerias com governos locais e organizações internacionais, como o Fundo Global, para ampliar seu impacto. Relatórios recentes indicam que, só em 2023, a Sentebale realizou mais de 15 mil testes de HIV em áreas rurais de Lesoto, além de distribuir medicamentos essenciais a comunidades isoladas.
Apesar dos avanços, a instituição enfrentou desafios financeiros e logísticos ao longo do tempo. A pandemia de Covid-19, por exemplo, reduziu significativamente suas operações presenciais, forçando uma adaptação para plataformas digitais. Agora, com a saída de seus fundadores, a Sentebale encara um novo teste: provar que pode sobreviver sem depender da figura carismática de Harry.
Sophie Chandauka no centro da polêmica
Sophie Chandauka, advogada britânica de origem zimbabuana, assumiu a presidência do conselho da Sentebale com um currículo impressionante. Formada pela Universidade de Oxford, ela acumulou experiência em grandes empresas e se destacou como defensora da diversidade no setor corporativo. Sua nomeação foi vista como um passo para profissionalizar a gestão da ONG, mas sua abordagem centralizadora logo gerou atritos com os curadores, que a acusaram de ignorar decisões coletivas.
A denúncia de Chandauka à Comissão de Caridade do Reino Unido marcou o ponto de ruptura. Ela alegou que os curadores tentaram minar sua autoridade e agir sem supervisão adequada, o que violaria as regras de governança da organização. Em resposta, Harry e Seeiso reforçaram o apoio aos curadores, mas optaram por se afastar diante da impossibilidade de um acordo. Chandauka, por sua vez, declarou que sua permanência é um sinal de compromisso com a missão original da Sentebale.
A polêmica expôs uma divisão profunda na liderança. Enquanto alguns funcionários elogiam a visão estratégica de Chandauka, outros a criticam por criar um ambiente de desconfiança. A resolução do conflito dependerá de investigações da Comissão de Caridade, que ainda não divulgou um parecer oficial sobre o caso.
Cronograma da crise na Sentebale
A escalada do conflito na Sentebale seguiu uma sequência de eventos que abalou a organização nos últimos meses:
- Início de 2024: Sophie Chandauka assume plenamente suas funções como presidente do conselho, prometendo reformas.
- Meados de 2024: Primeiros relatos de desentendimentos entre Chandauka e os curadores surgem internamente.
- Final de 2024: Curadores solicitam a saída de Chandauka, que reage com denúncia à Comissão de Caridade.
- Março de 2025: Harry e Seeiso anunciam sua saída como patronos, citando a “ruptura irreparável”.
Esse calendário mostra como a crise evoluiu rapidamente, culminando na decisão que pegou de surpresa apoiadores e beneficiários da ONG.
Futuro incerto para a Sentebale
A saída de Harry e Seeiso não significa o fim imediato da Sentebale, mas coloca a organização em uma posição vulnerável. A instituição ainda conta com uma equipe dedicada e projetos em andamento, como o programa “Let Youth Lead”, que capacita jovens para atuar como agentes de mudança em suas comunidades. Em 2024, o programa alcançou mais de 5 mil participantes em Lesoto e Botsuana, com planos de expansão para este ano.
No entanto, a dependência de doações internacionais, que representam cerca de 70% de seu orçamento, pode ser um obstáculo. A Sentebale precisará fortalecer sua base de apoiadores locais e buscar parcerias estratégicas para compensar a perda de visibilidade. Chandauka já sinalizou intenções de reestruturar a organização, mas sua liderança enfrenta resistência interna e escrutínio público.
A capacidade da Sentebale de manter sua missão dependerá de como ela navegará esse período de transição. A história da ONG, ligada ao legado de Diana e ao compromisso de Harry com os mais vulneráveis, continua sendo um ativo valioso, mas o futuro exigirá adaptação e resiliência diante dos desafios atuais.
Números que definem a Sentebale
A trajetória da Sentebale é marcada por dados que mostram seu impacto e os desafios que enfrenta:
- 23%: Taxa de prevalência de HIV entre adultos em Lesoto, um dos maiores índices globais.
- 15 mil: Número de testes de HIV realizados pela ONG em 2023.
- 3,5 milhões de libras: Arrecadação em 2022, menor que os 4,7 milhões de 2019.
- 10 mil: Jovens atendidos anualmente por programas da organização.
Esses números reforçam a relevância da Sentebale na luta contra o HIV na África, mas também destacam a necessidade de estabilidade financeira e operacional para manter seu alcance.
Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.
