O príncipe Harry, duque de Sussex, anunciou sua saída da Sentebale, organização que fundou há quase duas décadas em Lesotho, na África Austral, para homenagear sua mãe, Diana, princesa de Gales, e apoiar crianças afetadas pelo HIV e Aids. A decisão, tomada em conjunto com o príncipe Seeiso de Lesotho, seu cofundador, marca o fim de uma era para a entidade, que enfrentou turbulências internas recentes. A partida de Harry, aos 40 anos, ocorre após um colapso nas relações com a direção da ONG, expondo desentendimentos sobre os rumos da organização e acusações que abalaram os bastidores. Sua última visita ao país, em 2024, foi um momento de celebração do trabalho realizado, mas também o prelúdio de um adeus inesperado.
A trajetória de Harry com a Sentebale começou em 2004, quando, aos 19 anos, ele visitou Lesotho durante um ano sabático após concluir os estudos em Eton e antes de ingressar na academia militar de Sandhurst. Impactado pela realidade das crianças órfãs devido à epidemia de HIV, ele decidiu agir. Dois anos depois, em 2006, a organização foi criada com o objetivo de oferecer suporte a essa população vulnerável. O nome Sentebale, que significa “não-me-esqueças” em sesotho, reflete a ligação pessoal do príncipe com a memória de sua mãe, falecida em 1997, e com a causa que ela defendeu ao longo de sua vida.
Desde então, a ONG cresceu, ampliando seu alcance para projetos de saúde, educação e resiliência climática, beneficiando milhares de jovens em Lesotho e Botswana. Harry manteve um envolvimento ativo, participando de eventos e visitas regulares ao longo dos anos. Contudo, sua mudança para os Estados Unidos em 2020, após renunciar às funções reais, trouxe desafios logísticos à sua participação direta. Mesmo assim, ele continuou a destacar a importância da Sentebale, como em seu discurso emocionado em janeiro daquele ano, durante um jantar beneficente em Londres, onde agradeceu à equipe por lhe dar coragem para seguir em frente em sua nova vida.
Origens de um legado
Quando Harry pisou em Lesotho pela primeira vez, o país enfrentava uma das maiores crises de HIV do mundo, com uma taxa de prevalência que chegava a 23% da população adulta na época. A visita, planejada como parte de seu ano sabático, foi um divisor de águas. Ele conheceu comunidades devastadas pela doença, crianças que perderam os pais e líderes locais determinados a mudar essa realidade. Foi nesse contexto que ele se conectou com o príncipe Seeiso, irmão mais novo do rei Letsie III de Lesotho, que também carregava o peso da perda de sua mãe. Juntos, decidiram transformar sua dor em ação.
A fundação da Sentebale, em 2006, foi um marco. Inicialmente focada em oferecer apoio psicossocial e médico a crianças e adolescentes afetados pelo HIV, a organização rapidamente ganhou projeção internacional, atraindo doadores e parceiros. Harry e Seeiso lideraram a iniciativa com uma abordagem prática, visitando projetos e engajando-se diretamente com as comunidades beneficiadas. Ao longo dos anos, a ONG adaptou suas prioridades, incorporando temas como prevenção ao HIV e sustentabilidade ambiental, refletindo as necessidades emergentes da região.
Uma parceria marcada por laços pessoais
A relação entre Harry e Seeiso transcendeu o âmbito profissional. Unidos pelo luto e pela vontade de honrar suas mães, eles construíram uma amizade sólida. Seeiso esteve presente em momentos cruciais da vida de Harry, como seu casamento com Meghan Markle em 2018, no Castelo de Windsor, e o casamento do príncipe William e Kate Middleton em 2011, na Abadia de Westminster. Essas ocasiões reforçam o quanto a Sentebale era mais do que uma instituição para Harry — era um espaço de apoio mútuo e conexão pessoal.
Por quase 20 anos, a dupla conduziu a organização com entusiasmo visível. Em 2024, durante a mais recente visita de Harry a Lesotho, eles celebraram avanços como o projeto de resiliência climática em Matlameng, que combina agricultura sustentável e apoio à saúde juvenil. Na ocasião, Harry reafirmou seu compromisso com a causa, declarando que seu apoio à Sentebale jamais vacilaria. A declaração, porém, contrastou com o anúncio de sua saída semanas depois, sugerindo que os problemas internos já estavam em curso.
Crise na liderança
Nos últimos meses, a Sentebale enfrentou uma tempestade nos bastidores. Uma ruptura entre os fundadores e a presidência do conselho diretor expôs fissuras na gestão da entidade. Desentendimentos sobre a direção estratégica da ONG, aliados a acusações não detalhadas publicamente, culminaram na decisão de Harry e Seeiso de se afastarem. A crise abalou a imagem da organização, que por anos foi vista como um exemplo de impacto social liderado por figuras públicas.
Embora os detalhes do conflito permaneçam restritos, sabe-se que as tensões vinham se acumulando desde a mudança de Harry para a Califórnia. A distância geográfica dificultou sua participação ativa, mas sua equipe nos Estados Unidos garante que ele seguia envolvido, acompanhando relatórios e apoiando iniciativas à distância. A saída, portanto, parece mais ligada a divergências internas do que a um abandono voluntário da causa.
A crise também levanta questões sobre o futuro da Sentebale. Com a saída de seus fundadores, a organização precisará redefinir sua liderança e estratégia para manter o impacto alcançado ao longo de duas décadas. Enquanto isso, Harry segue sendo descrito como um defensor das causas que abraçou, mas agora sem o papel formal que o conectava diretamente a Lesotho.
Marcos da trajetória da Sentebale
A história da Sentebale é repleta de conquistas que refletem seu crescimento e adaptação. Alguns dos principais momentos incluem:
- Lançamento em 2006, com foco inicial em apoio a órfãos do HIV.
- Expansão para Botswana em 2010, ampliando o alcance regional.
- Introdução de programas de prevenção ao HIV em 2015, voltados para adolescentes.
- Início de projetos de resiliência climática em 2022, integrando sustentabilidade e saúde.
Esses avanços consolidaram a Sentebale como uma força relevante no combate às consequências do HIV na África Austral, mas também mostram a necessidade de uma gestão alinhada para sustentar o progresso.
Impacto em números
O trabalho da Sentebale deixou marcas significativas nas comunidades atendidas. Estima-se que, desde sua fundação, a organização tenha alcançado mais de 200 mil jovens em Lesotho e Botswana com serviços de saúde e educação. Em 2023, cerca de 5 mil adolescentes participaram de programas de prevenção ao HIV, enquanto projetos de agricultura sustentável beneficiaram mais de 1,2 mil famílias. Esses números destacam a escala do legado deixado por Harry e Seeiso, mesmo diante do atual impasse.
A epidemia de HIV, que motivou a criação da ONG, ainda é um desafio na região. Em Lesotho, a prevalência entre adultos caiu para cerca de 20% nos últimos anos, mas segue entre as mais altas do mundo. A Sentebale desempenhou um papel crucial ao oferecer suporte a uma geração marcada pela doença, mas os obstáculos persistem, especialmente em áreas rurais.
Desafios de uma transição
A mudança de Harry para os Estados Unidos em 2020 já havia gerado especulações sobre seu envolvimento com a Sentebale. Naquele ano, durante o jantar beneficente em Londres, ele falou abertamente sobre a tristeza de deixar o Reino Unido e a gratidão pelo apoio recebido da equipe da ONG. A decisão de renunciar às funções reais, tomada após meses de negociações fracassadas com a família real, marcou o início de uma nova fase em sua vida, mas também trouxe ajustes em suas responsabilidades filantrópicas.
Viver na Califórnia, a milhares de quilômetros de Lesotho, limitou as visitas presenciais de Harry. Apesar disso, ele manteve contato com a organização, participando de eventos virtuais e acompanhando os projetos mais recentes. Sua visita em 2024, ao lado de Seeiso, foi vista como um sinal de continuidade — até a reviravolta da saída conjunta.
A transição para uma vida fora da realeza já havia colocado Harry em situações semelhantes. Outras iniciativas, como os Invictus Games, também exigiram adaptações em sua gestão à distância, mas nenhuma ruptura foi tão significativa quanto a da Sentebale, que carregava um peso emocional único devido à ligação com Diana.
O fator Diana
A memória de Diana, princesa de Gales, sempre esteve no cerne da Sentebale. Conhecida por seu trabalho humanitário, ela quebrou tabus ao visitar pacientes com Aids nos anos 1980 e 1990, desafiando o estigma associado à doença. Harry herdou essa missão e a levou adiante com a criação da ONG. Em seu discurso de 2020, ele destacou como a organização o acolheu após a perda da mãe, moldando sua visão de justiça e solidariedade.
Para Harry, a Sentebale era uma forma de manter viva a influência de Diana. Cada visita a Lesotho reforçava essa conexão, seja ao conhecer crianças beneficiadas pelos programas ou ao ouvir histórias de superação que ecoavam o espírito de sua mãe. Sua saída, portanto, não é apenas uma questão administrativa, mas um rompimento simbólico com um dos pilares de sua identidade pública.
Um futuro incerto para a Sentebale
Com a saída de Harry e Seeiso, a Sentebale enfrenta um momento delicado. A organização precisará encontrar novos líderes capazes de preservar seu legado e enfrentar os desafios financeiros e operacionais que podem surgir. A crise na direção já gerou especulações sobre uma possível redução no apoio de doadores, que viam nos fundadores um símbolo de credibilidade e engajamento.
Enquanto isso, Lesotho continua lidando com as sequelas do HIV e as pressões adicionais da mudança climática, que afeta a agricultura e a segurança alimentar. Os projetos da Sentebale, como os de resiliência climática, são essenciais nesse contexto, mas dependem de uma gestão estável para seguir em frente. A transição será um teste à capacidade da ONG de se reinventar sem seus fundadores históricos.
Curiosidades sobre a Sentebale
A trajetória da organização traz detalhes que mostram sua singularidade:
- O nome “Sentebale” foi escolhido por Harry e Seeiso como homenagem às suas mães.
- A primeira iniciativa da ONG foi um acampamento para crianças afetadas pelo HIV, em 2007.
- Harry aprendeu palavras básicas em sesotho para se comunicar durante suas visitas.
- A Sentebale já recebeu apoio de figuras como Elton John e Charlize Theron em eventos beneficentes.
Esses aspectos reforçam o caráter pessoal e global da entidade, que agora busca um novo caminho.
Cronologia da jornada de Harry com a Sentebale
A relação de Harry com a organização pode ser acompanhada por eventos marcantes:
- 2004: Primeira visita a Lesotho, durante ano sabático.
- 2006: Fundação da Sentebale com o príncipe Seeiso.
- 2018: Seeiso comparece ao casamento de Harry e Meghan.
- 2020: Discurso emocionado em jantar beneficente em Londres.
- 2024: Última visita a Lesotho antes da saída.
Essa linha do tempo ilustra a profundidade do envolvimento de Harry e o impacto de sua decisão de se afastar.
