Pedro Lourenço reconhece falhas nas contratações do Cruzeiro e aponta erros de Alexandre MattosPor Thiago Lemos
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O Cruzeiro vive um momento de reflexão interna após um início de temporada aquém das expectativas. Pedro Lourenço, dono da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do clube, abriu o jogo sobre os equívocos nas contratações realizadas nos últimos meses. Em uma entrevista franca, o empresário assumiu que o clube errou ao trazer jogadores que não atenderam às necessidades do time e apontou o diretor de futebol, Alexandre Mattos, como um dos responsáveis pelo desequilíbrio no elenco. Desde que assumiu o controle da SAF, em abril de 2024, Lourenço investiu pesado em reforços, mas os resultados em campo não corresponderam ao montante desembolsado, gerando críticas da torcida e pressão por mudanças.
Com 18 contratações realizadas entre meados de 2024 e o início de 2025, o Cruzeiro gastou mais de R$ 250 milhões em direitos econômicos de atletas, além de manter uma folha salarial que ultrapassa os R$ 20 milhões mensais. Nomes como Gabigol, Dudu e Cássio chegaram com status de estrelas, mas o desempenho coletivo da equipe decepcionou, culminando em eliminações precoces, como no Campeonato Mineiro, e na perda de objetivos maiores, como uma vaga na Libertadores. Pedro Lourenço destacou que o excesso de jogadores para algumas posições, especialmente no ataque, contrastou com a falta de opções em outros setores, evidenciando falhas no planejamento.
A relação entre Lourenço e Mattos, que foi o primeiro nome trazido pelo empresário para comandar o futebol do clube, está sob escrutínio. O dono da SAF não hesitou em dividir a responsabilidade pelos erros com o diretor, afirmando que as avaliações equivocadas de jogadores superestimados comprometeram o projeto. A torcida, que já vinha manifestando insatisfação com Mattos nas redes sociais, ganhou um respaldo indireto do dirigente, que reconheceu a legitimidade de parte das críticas.
Investimentos altos e resultados baixos
Desde a transição da SAF de Ronaldo Fenômeno para Pedro Lourenço, o Cruzeiro passou por uma reformulação ambiciosa. No meio de 2024, sete jogadores foram contratados, incluindo o goleiro Cássio, o meia Matheus Henrique e os atacantes Kaio Jorge e Lautaro Diaz. Já na janela de início de 2025, mais 11 nomes chegaram, como Gabigol, Dudu e Fabrício Bruno, elevando o total de reforços a 18. O objetivo era claro: transformar o clube em protagonista no cenário nacional e voltar a disputar títulos. No entanto, o desempenho em campo expôs fragilidades que vão além da qualidade individual dos atletas.
Pedro Lourenço, dono da SAF do Cruzeiro, admite erro nas contratações e diz que 'futebol é péssimo negócio':
— Planeta do Futebol ???? (@futebol_info) April 8, 2025
"A realidade mostra para todos: nós erramos muito nas contratações. Erramos bastante. Não vou citar nome, porque é deselegante, mas erramos. Conversei com o Alexandre… pic.twitter.com/Up5aJVNJNl
O investimento superior a R$ 200 milhões na compra de direitos econômicos de sete jogadores na metade de 2024, somado aos R$ 50 milhões gastos para adquirir João Marcelo, Lucas Villalba e Matheus Pereira, que estavam emprestados, reflete a aposta financeira de Lourenço. Apesar disso, o time não conseguiu emplacar uma sequência sólida de resultados. A eliminação nas semifinais do Campeonato Mineiro para o América-MG, em março de 2025, foi um dos golpes mais duros, deixando a equipe sem competições oficiais por quase um mês até a estreia no Brasileirão.
Para Lourenço, o problema não está apenas nos valores investidos, mas na forma como o elenco foi montado. Ele admitiu que o excesso de contratações para o ataque – sete dos 18 reforços são atacantes – deixou o time desbalanceado. Enquanto nomes como Gabigol e Kaio Jorge disputam espaço no setor ofensivo, outras posições, como a lateral-direita e o meio-campo defensivo, carecem de alternativas à altura das ambições do clube.
Números das contratações do Cruzeiro
Dos 18 jogadores contratados na era Pedro Lourenço, a distribuição por posição revela o desequilíbrio apontado pelo dirigente:
- Atacantes: 7 (Gabigol, Dudu, Kaio Jorge, Lautaro Diaz, Bolasie, Marquinhos, Wanderson)
- Meio-campistas: 6 (Matheus Henrique, Christian, Rodriguinho, Eduardo, Walace, Peralta)
- Zagueiros: 4 (Fabrício Bruno, Mateo Gamarra, Jonathan Jesus, João Marcelo)
- Goleiro: 1 (Cássio)
- Lateral: 1 (Fágner)
Esse cenário gerou críticas internas e externas, com o técnico Leonardo Jardim, recém-contratado, também sinalizando a necessidade de ajustes no elenco.
Erros de avaliação no mercado
Pedro Lourenço foi além ao abordar as falhas no processo de escolha dos reforços. Ele apontou que as avaliações de jogadores muitas vezes chegam à diretoria de forma supervalorizada, o que leva a decisões equivocadas. O departamento de futebol, liderado por Alexandre Mattos, teria falhado em filtrar atletas que realmente se encaixassem nas necessidades táticas do time. O resultado foi a chegada de nomes que, apesar do currículo, não renderam o esperado em campo.
Gabigol, por exemplo, chegou como a maior contratação da história do clube, com a promessa de 20 gols no Brasileirão, mas até abril de 2025 soma apenas cinco gols em sete jogos disputados. A situação do atacante é ainda mais delicada devido ao julgamento por doping marcado para os dias 3 e 4 de abril no Tribunal Arbitral do Esporte (CAS), na Suíça, que pode impactar sua temporada. Dudu, outro reforço badalado, também não encontrou regularidade, enquanto Cássio, ídolo do Corinthians, enfrenta questionamentos sobre sua forma física aos 37 anos.
A pressão sobre Mattos é agravada pelo histórico de críticas que o acompanha desde passagens por outros clubes. No Cruzeiro, a torcida já o considera o principal culpado pelo desempenho abaixo do esperado, e as declarações de Lourenço reforçam essa percepção. O dirigente, no entanto, não eximiu a si mesmo de responsabilidade, admitindo que precisa ajustar o modelo de gestão para evitar novos tropeços.
Reação da torcida e cobrança interna
A insatisfação dos torcedores cruzeirenses não é novidade. Após a eliminação no Mineiro, o número de sócios-torcedores caiu significativamente. Em janeiro de 2025, o clube alcançara a marca de 85 mil associados, impulsionado pelas chegadas de Gabigol e Dudu. Porém, os resultados ruins fizeram esse número despencar, afastando a meta de Pedro Lourenço de atingir 100 mil sócios. A média de público nos jogos também reflete o descontentamento: apesar de ocupar a segunda posição no ranking nacional, com 30.797 pagantes por partida no Mineiro, a torcida cobra mais do que boas intenções.
Dentro do clube, as cobranças não se limitam aos dirigentes. Lourenço revelou que conversou com os jogadores, especialmente os “medalhões” como Gabigol, Dudu, Cássio e Fágner, exigindo maior comprometimento. O técnico Leonardo Jardim, contratado em 2025 para substituir Fernando Diniz, também fez críticas públicas ao elenco, afirmando que alguns atletas estão abaixo do nível físico e técnico esperado. A combinação de pressão interna e externa coloca o Cruzeiro em um momento decisivo para reverter o cenário.
Ajustes no horizonte do Cruzeiro
Com a temporada de 2025 ainda em andamento, Pedro Lourenço sinalizou que o clube precisa corrigir o rumo. Ele enfatizou a importância de trabalhar em conjunto com o treinador para identificar as carências do elenco e buscar soluções no mercado. A janela de transferências do meio do ano pode ser uma oportunidade para equilibrar o time, mas o dirigente deixou claro que os erros do passado devem servir de lição.
Um dos desafios será lidar com o alto investimento já realizado. Além dos R$ 250 milhões gastos em contratações, o clube fez um aporte de R$ 300 milhões em 2025 para cobrir dívidas e salários, totalizando quase R$ 400 milhões desembolsados pela gestão Lourenço. Esse volume financeiro contrasta com a falta de resultados expressivos, como a derrota na final da Copa Sul-Americana de 2024 para o Racing e a ausência na Libertadores deste ano.
O foco agora está no Campeonato Brasileiro, que começou em abril. Antes da estreia oficial contra o Mirassol, o Cruzeiro realizou amistosos, como o duelo contra o Bragantino, e jogos-treino, como o enfrentamento com o Botafogo, para ajustar o time. A expectativa é que Leonardo Jardim consiga extrair o melhor do elenco atual enquanto a diretoria planeja os próximos passos.
Desafios de uma SAF em construção
Gerir um clube sob o modelo de SAF exige adaptação, e o Cruzeiro ainda está em processo de consolidação. Pedro Lourenço assumiu o controle em 29 de abril de 2024, comprando 90% das ações por R$ 600 milhões de Ronaldo Fenômeno. Desde então, o empresário tem se envolvido diretamente no dia a dia do clube, diferentemente de seu antecessor, que adotava uma postura mais distante. A mudança de comando trouxe uma injeção de ânimo e recursos, mas também expôs os desafios de transformar dinheiro em resultados.
O elenco atual é bem diferente daquele herdado da gestão Ronaldo. Dos contratados na época do ex-jogador, apenas nove permanecem, enquanto a nova administração apostou em uma reformulação quase total. A folha salarial elevada e os investimentos altos refletem a ambição de Lourenço, mas o desequilíbrio tático e as eliminações precoces mostram que o sucesso não depende apenas de finanças.
A experiência de outros clubes-empresa no Brasil, como Botafogo e Vasco, serve como referência. No entanto, cada SAF tem suas particularidades, e o Cruzeiro ainda busca o caminho ideal. A pressão por títulos, como o prometido por Lourenço em entrevistas, aumenta a cada tropeço, e o tempo para ajustes é curto diante das expectativas da torcida e do próprio dono da SAF.
Pressão sobre Alexandre Mattos
Alexandre Mattos, contratado como CEO de futebol logo após a chegada de Pedro Lourenço, enfrenta o maior desgaste de sua passagem pelo Cruzeiro. O diretor, que já trabalhou em clubes como Palmeiras e Atlético-MG, é conhecido por movimentações agressivas no mercado, mas nem sempre com sucesso. No Cruzeiro, ele foi o responsável por negociar os 18 reforços, mas o resultado em campo não justificou as escolhas.
A torcida, que já o critica há meses, ganhou um aliado nas palavras de Lourenço. O dono da SAF deixou claro que Mattos, como chefe do departamento de futebol, carrega a maior parcela de culpa pelos erros. A permanência do dirigente no cargo, porém, não foi questionada abertamente, sugerindo que ele terá a chance de corrigir o planejamento na próxima janela de transferências.
O desafio de Mattos será alinhar as contratações às demandas de Leonardo Jardim, que assumiu o comando técnico com a missão de dar identidade ao time. A relação entre o treinador e o diretor será crucial para o sucesso do Cruzeiro na temporada, especialmente diante do investimento já realizado e das expectativas criadas.
O peso dos medalhões no elenco
Os chamados “medalhões” – jogadores com passagens vitoriosas por outros clubes – foram alvo direto das cobranças de Lourenço. Além de Gabigol, Dudu e Cássio, o lateral Fágner, ex-Corinthians, também integra esse grupo. Apesar do currículo, esses atletas não conseguiram, até agora, liderar o Cruzeiro rumo aos objetivos traçados.
Leonardo Jardim, em suas primeiras declarações como técnico, reforçou a percepção de Lourenço ao apontar que alguns jogadores estão abaixo do esperado fisicamente e tecnicamente. A situação de Gabigol, por exemplo, é emblemática: mesmo com cinco gols em sete jogos, seu desempenho é considerado tímido diante da expectativa de ser o grande nome do ataque. A pendência no julgamento por doping só aumenta a incerteza sobre seu futuro no clube.
Para o dono da SAF, esses atletas precisam justificar os altos salários e o status que carregam. A cobrança interna reflete a urgência de transformar o elenco em um time competitivo, capaz de brigar por títulos e atender às demandas de uma torcida apaixonada, mas cada vez mais impaciente.







