Estudante palestino Mohsen Mahdawi é libertado nos EUA e desafia Trump: “Não tenho medo”
Mohsen Mahdawi, estudante palestino da Universidade de Columbia, foi libertado em 30 de abril de 2025, após duas semanas detido pelas autoridades de imigração dos Estados Unidos. A decisão judicial, tomada em um tribunal federal de Vermont, permite que ele conteste, em liberdade e sob fiança, as tentativas do governo de Donald Trump de deportá-lo por sua participação em protestos pró-Palestina. Mahdawi, de 34 anos, residente legal nos EUA desde 2015 com um green card, tornou-se uma figura central nos movimentos estudantis contra a guerra em Gaza. Ao sair do tribunal, ele desafiou diretamente o presidente americano, declarando: “Não tenho medo de vocês”. Sua prisão, vista por muitos como uma retaliação política, gerou protestos em Nova York e críticas de organizações de direitos civis, que apontam violações à liberdade de expressão.
A detenção de Mahdawi ocorreu em 14 de abril, quando ele compareceu a um escritório de imigração em Vermont, esperando finalizar seu processo de cidadania americana. Em vez disso, foi algemado por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e levado à Northwest State Correctional Facility, em St. Albans. Imagens gravadas por um amigo mostram o estudante entrando em um veículo do ICE, sem resistência, enquanto fazia um sinal de paz. Seus advogados, liderados por Luna Droubi, classificaram a prisão como uma tentativa inconstitucional de silenciar vozes críticas às ações de Israel em Gaza.
Mahdawi, que nasceu em um campo de refugiados na Cisjordânia, é cofundador da União de Estudantes Palestinos em Columbia, ao lado de Mahmoud Khalil, outro estudante detido pelo ICE em março. Ambos lideraram protestos contra a guerra em Gaza, que já deixou dezenas de milhares de mortos desde outubro de 2023. A libertação de Mahdawi, decidida pelo juiz federal Geoffrey Crawford, foi celebrada como uma vitória para a liberdade de expressão, mas o caso de Khalil, cuja deportação foi autorizada dias antes, permanece em aberto, intensificando o debate sobre a repressão a ativistas nos EUA.
- Principais fatos sobre a libertação de Mahdawi:
- Data da prisão: 14 de abril de 2025, durante entrevista de cidadania.
- Libertação: 30 de abril de 2025, sob fiança, em Vermont.
- Acusação do governo: Participação em protestos pró-Palestina como ameaça à política externa.
- Resposta de Mahdawi: Declaração desafiadora citando Martin Luther King sobre injustiça.
Contexto dos protestos pró-Palestina em Columbia
Os protestos na Universidade de Columbia começaram em 2023, após o início da guerra entre Israel e o Hamas, desencadeada por um ataque do grupo palestino em 7 de outubro. Estudantes, incluindo Mahdawi e Khalil, organizaram acampamentos no campus, exigindo que a universidade cortasse laços financeiros com empresas ligadas a Israel e apoiasse um cessar-fogo em Gaza. Essas manifestações atraíram atenção nacional, mas também críticas de grupos pró-Israel, que acusaram os ativistas de promoverem antissemitismo. Mahdawi, no entanto, sempre defendeu que sua luta é contra as ações do governo israelense, não contra judeus, enfatizando a coexistência entre as causas palestina e anti-antissemitismo.
A repressão aos protestos intensificou-se com o segundo mandato de Trump, iniciado em janeiro de 2025. O presidente assinou ordens executivas visando conter o que classifica como “antissemitismo” nos campi universitários, incluindo a revogação de vistos e green cards de estudantes estrangeiros envolvidos em atos pró-Palestina. Columbia, um dos epicentros dessas manifestações, perdeu cerca de US$ 400 milhões em financiamento federal, acusada de não proteger estudantes judeus. Em resposta, a universidade aumentou a presença policial no campus e proibiu o uso de máscaras em protestos, medidas vistas como concessões às pressões do governo.
Mahdawi, que se afastou dos protestos em março de 2024 para focar na construção de diálogos com comunidades judaicas e israelenses, tornou-se alvo de grupos extremistas pró-Israel, como o Betar, que o incluíram em listas de “deportação”. Apesar disso, ele compareceu à entrevista de cidadania, mesmo temendo uma armadilha. Sua detenção, segundo seus advogados, reflete uma estratégia mais ampla do governo Trump para intimidar ativistas e suprimir discursos críticos.
A prisão de Mahdawi e a resposta jurídica
A prisão de Mahdawi chocou a comunidade de Columbia e ativistas pelos direitos civis. Ele foi detido por agentes do ICE, alguns com rostos cobertos, enquanto esperava concluir seu processo de naturalização. Um vídeo, amplamente divulgado, mostrou o momento em que ele foi levado algemado, gerando indignação entre estudantes e legisladores de Vermont, como o senador Bernie Sanders, que classificou a detenção como “imoral, desumana e ilegal”. O juiz federal William Sessions emitiu uma ordem temporária proibindo a deportação de Mahdawi ou sua transferência para fora de Vermont, decisão posteriormente prorrogada pelo juiz Geoffrey Crawford.
Na audiência de 30 de abril, Crawford determinou que Mahdawi não representava perigo à sociedade nem risco de fuga, ordenando sua libertação sob fiança. O juiz criticou a detenção, comparando-a às perseguições políticas da era do Macarthismo, nos anos 1950, quando intelectuais foram alvos por suas opiniões. Mais de 90 membros da comunidade, incluindo judeus americanos, enviaram cartas ao tribunal descrevendo Mahdawi como uma pessoa pacífica, reforçando a argumentação de sua defesa.
- Alegações contra Mahdawi:
- Relatório de 2015: Um dono de loja de armas em Vermont alegou que Mahdawi disse construir metralhadoras “para matar judeus” na Palestina.
- Resposta do estudante: Negou veementemente, afirmando ser budista e defensor da não-violência.
- Justificativa do governo: Ativismo pró-Palestina como ameaça à política externa dos EUA.
A defesa de Mahdawi, apoiada pela União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), argumentou que sua prisão viola a Primeira Emenda da Constituição, que protege a liberdade de expressão. A advogada Lia Ernst destacou que o estudante não cometeu crimes e que sua detenção foi motivada exclusivamente por suas opiniões políticas. A decisão de Crawford foi vista como uma esperança no sistema judiciário, mas o processo de deportação ainda está em andamento, mantendo Mahdawi em um limbo jurídico.
O caso de Mahmoud Khalil e a repressão mais ampla
Enquanto a libertação de Mahdawi trouxe alívio, o caso de Mahmoud Khalil, seu colega na União de Estudantes Palestinos, evidencia a continuidade da repressão. Khalil, também residente legal com green card, foi preso em 8 de março de 2025, em sua residência estudantil em Columbia. Em 26 de abril, um juiz de imigração em Louisiana autorizou sua deportação, aceitando o argumento do governo de que ele representa um risco à segurança nacional. A decisão foi criticada por grupos de direitos civis, que apontam a ausência de acusações criminais formais contra Khalil.
Khalil, que concluiu seu mestrado em administração pública em Columbia, foi impedido de acompanhar o nascimento de seu primeiro filho, em 21 de abril, enquanto permanecia detido a mais de 1.600 km de Nova York. Sua esposa, cidadã americana grávida de oito meses na época da prisão, denunciou a detenção como uma tentativa de “sequestro” por sua defesa dos direitos palestinos. A prisão de Khalil foi anunciada por Trump como “a primeira de muitas”, sinalizando uma campanha mais ampla contra estudantes estrangeiros envolvidos em protestos.
A repressão não se limita a Columbia. Estudantes como Rumeysa Ozturk, da Universidade Tufts, e Yunseo Chung, da Coreia do Sul, também foram detidos por participarem de atos pró-Palestina. O governo Trump, apoiado pelo secretário de Estado Marco Rubio, justifica essas ações alegando que os ativistas minam os interesses americanos e promovem “sentimentos antissemitas”. Rubio anunciou, em 30 de abril, o cancelamento de vistos de estudantes estrangeiros envolvidos em protestos, intensificando a pressão sobre universidades.
Impactos na liberdade de expressão
A detenção de estudantes como Mahdawi e Khalil levantou preocupações sobre a erosão da liberdade de expressão nos EUA. Organizações como a ACLU e a União das Liberdades Civis de Nova York compararam as ações do governo Trump a práticas autoritárias, reminiscentes do Macarthismo. Donna Lieberman, da União das Liberdades Civis, classificou a prisão de Khalil como uma “escalada assustadora” da repressão ao discurso pró-Palestina, enquanto a ACLU destacou que a Primeira Emenda protege o direito de criticar políticas governamentais, incluindo as de aliados como Israel.
As universidades, pressionadas pelo governo, enfrentam um dilema. Columbia, por exemplo, foi criticada por ceder às exigências de Trump, como a supervisão externa de seus programas de Estudos do Oriente Médio. Harvard, por outro lado, perdeu US$ 2,3 bilhões em subsídios federais após se recusar a cumprir demandas semelhantes, como o fim de programas de inclusão. Essas medidas refletem uma estratégia mais ampla de usar o financiamento público como ferramenta para controlar o discurso acadêmico.
- Medidas do governo Trump contra universidades:
- Corte de US$ 400 milhões em financiamento para Columbia.
- Congelamento de US$ 2,3 bilhões em subsídios para Harvard.
- Ordens executivas para monitorar e deportar estudantes estrangeiros em protestos.
Mahdawi, ao ser libertado, reforçou sua mensagem de resistência. Citando Martin Luther King, ele afirmou que “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares”. Sua declaração ressoou entre ativistas, que veem seu caso como um símbolo da luta por direitos civis em um momento de crescente polarização nos EUA.
Cronologia dos eventos
A trajetória de Mahdawi e Khalil reflete a escalada das tensões nos campi americanos desde o início da guerra em Gaza. Abaixo, uma linha do tempo dos principais acontecimentos:
- Outubro de 2023: Ataque do Hamas a Israel desencadeia guerra em Gaza; protestos pró-Palestina começam em Columbia.
- 2024: Mahdawi e Khalil lideram acampamentos no campus, exigindo desinvestimento em empresas ligadas a Israel.
- Janeiro de 2025: Trump assume segundo mandato e assina ordens contra “antissemitismo” em universidades.
- 8 de março de 2025: Khalil é preso pelo ICE em sua residência estudantil.
- 14 de abril de 2025: Mahdawi é detido durante entrevista de cidadania em Vermont.
- 26 de abril de 2025: Justiça autoriza deportação de Khalil.
- 30 de abril de 2025: Mahdawi é libertado sob fiança; processo de deportação segue em aberto.
Essa cronologia destaca a rapidez com que o governo Trump intensificou a repressão a ativistas, usando a imigração como ferramenta política. A detenção de estudantes sem acusações criminais formais gerou debates sobre a legalidade dessas ações e seu impacto na democracia americana.
Reações e apoio a Mahdawi
A libertação de Mahdawi foi recebida com celebrações no campus de Columbia e em Vermont. Estudantes e ativistas organizaram vigílias e protestos desde sua prisão, exigindo sua soltura e a de outros detidos. A Columbia University Apartheid Divest, coalizão estudantil da qual Mahdawi fez parte, emitiu um comunicado saudando a decisão judicial como uma vitória para a justiça. O Movimento Juvenil Palestino também destacou a prisão como parte de uma campanha mais ampla do governo Trump para silenciar opositores ao “genocídio” em Gaza.
Legisladores de Vermont, incluindo Sanders, Peter Welch e Becca Balint, emitiram uma declaração conjunta condenando a detenção de Mahdawi. Eles argumentaram que o estudante, residente legal há uma década, tem direito ao devido processo legal. A comunidade judaica americana também se mobilizou, com grupos como Judeus do MIT pelo Cessar-fogo e Judeus de Harvard pela Palestina defendendo que as críticas a Israel não devem ser confundidas com antissemitismo.
Mahdawi, que planeja concluir sua graduação em maio e iniciar um mestrado em Columbia, expressou gratidão pelo apoio recebido. Ele destacou a importância de unir vozes em defesa da democracia e da justiça, cantando com apoiadores, ao sair do tribunal, hinos como “O povo unido jamais será vencido” e “Palestina livre”. Sua mensagem de amor e não-violência, enraizada em sua prática budista, contrastou com as acusações do governo, que o retratou como uma ameaça.
Desafios futuros para Mahdawi
Apesar da libertação, Mahdawi enfrenta um futuro incerto. O processo de deportação continua em andamento, e o governo Trump pode recorrer da decisão de Crawford. A autorização para que Mahdawi viaje a Nova York para sua formatura foi um alívio, mas a possibilidade de ser forçado a deixar os EUA, onde vive há uma década, permanece. A deportação para a Cisjordânia, segundo ele, seria “uma sentença de morte”, dado o conflito em curso na região.
A equipe jurídica de Mahdawi, liderada por Shezza Abboushi Dallal e Lia Ernst, planeja contestar as alegações do governo, incluindo o relatório de 2015 que o acusa de apoiar violência. A defesa argumenta que o documento, baseado em uma declaração não confirmada de um lojista, carece de credibilidade e contradiz o histórico pacífico do estudante. A ACLU também está mobilizando recursos para apoiar outros estudantes detidos, visando estabelecer precedentes legais contra a repressão política.
O caso de Mahdawi também colocou Columbia sob os holofotes. A universidade, criticada por não oferecer proteção adequada a Mahdawi e Khalil, enfrenta pressões de estudantes e do governo. Antes de sua prisão, Mahdawi pediu à administração um local seguro no campus, mas a solicitação foi negada. A instituição agora busca equilibrar o apoio a seus alunos com as exigências federais, em um contexto de crescente tensão política.
- Próximos passos no caso de Mahdawi:
- Continuação do processo de deportação em tribunais federais.
- Mobilização da ACLU e grupos de direitos civis para apoiar Mahdawi e outros estudantes.
- Participação de Mahdawi em sua formatura em Columbia, prevista para maio de 2025.
Implicações globais da repressão nos EUA
A repressão a estudantes pró-Palestina nos EUA reverbera além das fronteiras do país. A guerra em Gaza, que já matou mais de 52 mil pessoas, segundo estimativas, continua a polarizar o debate global sobre os direitos palestinos. Nos EUA, a narrativa de que o ativismo pró-Palestina equivale a antissemitismo tem sido usada para justificar medidas repressivas, mas críticos apontam que essa abordagem silencia vozes legítimas e enfraquece os princípios democráticos.
Mahdawi, em sua declaração após a libertação, enfatizou que “o mundo inteiro está nos observando”. Ele acredita que as decisões tomadas nos EUA terão impactos globais, especialmente em movimentos por justiça e direitos humanos. Sua citação de Martin Luther King reflete a conexão que ele vê entre sua luta e outras batalhas históricas contra a opressão. Para ativistas, o caso de Mahdawi é um lembrete de que a defesa da justiça exige coragem diante de represálias.
A comunidade internacional também acompanha os desdobramentos. Organizações como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch têm criticado a repressão a ativistas nos EUA, comparando-a a táticas usadas em regimes autoritários. A detenção de estudantes sem acusações criminais formais levanta questões sobre o compromisso dos EUA com os direitos humanos, especialmente em um momento em que o país busca manter sua influência global.
O papel das universidades na resistência
As universidades americanas, historicamente centros de ativismo político, estão no centro desse conflito. Columbia, Harvard, Tufts e outras instituições enfrentam pressões para controlar protestos, ao mesmo tempo em que tentam proteger a liberdade acadêmica. A decisão de Columbia de aumentar a presença policial e aceitar supervisão externa gerou críticas de estudantes, que acusam a administração de trair seus valores.
Mahdawi, que planeja continuar seus estudos em Columbia, vê as universidades como espaços cruciais para o diálogo e a resistência. Ele defendeu, em entrevistas anteriores, a construção de pontes entre comunidades palestinas e judaicas, rejeitando a polarização promovida por grupos extremistas. Sua abordagem, baseada na empatia e na não-violência, contrasta com as acusações do governo e reforça sua mensagem de unidade.
A luta de Mahdawi e Khalil também inspirou outros estudantes. Em 21 de abril, um grupo de alunos e ex-alunos de Columbia acorrentou-se aos portões do campus, exigindo a libertação de ambos. A ação, organizada pela Columbia University Apartheid Divest, mostra que a repressão, em vez de silenciar o movimento, tem fortalecido a solidariedade entre ativistas.
Nos EUA, a Justiça mandou soltar um estudante detido pelo governo por participar de atos pró-Palestina na Universidade de Columbia. Na saída da prisão, ele desafiou o presidente Donald Trump. pic.twitter.com/DeGmETaOeY
— Band Jornalismo (@BandJornalismo) May 1, 2025
Um símbolo de resistência
Mohsen Mahdawi emergiu como um símbolo de resistência contra a repressão política nos EUA. Sua libertação, embora temporária, é vista como uma vitória para os defensores da liberdade de expressão e dos direitos humanos. Ao desafiar Trump diretamente, ele reafirmou sua crença na justiça e na democracia, inspirando outros a continuar a luta.
O caso de Mahdawi também destaca os desafios enfrentados por imigrantes e residentes legais nos EUA, especialmente aqueles que ousam criticar políticas governamentais. Sua história, enraizada em sua experiência como refugiado palestino, ressoa com milhões que enfrentam opressão em todo o mundo. Enquanto ele se prepara para sua formatura e o próximo capítulo de sua vida acadêmica, Mahdawi permanece firme em sua mensagem: o amor e a justiça prevalecerão sobre o medo.
A batalha jurídica de Mahdawi está longe de terminar, mas sua libertação reacendeu a esperança entre ativistas. Ele planeja usar sua plataforma para continuar defendendo os direitos palestinos, enquanto busca construir um futuro nos EUA, o país que escolheu como lar. Sua coragem, apoiada por uma comunidade global, tornou-se um farol para aqueles que lutam contra a injustiça, dentro e fora dos campi universitários.



