Fraudes bilionárias abalam aposentados e pensionistas do INSS. Entre 2019 e 2024, entidades associativas descontaram, sem autorização, cerca de R$ 6,3 bilhões de benefícios previdenciários. A descoberta do esquema, revelada pela Operação Sem Desconto, levou à demissão de altos cargos e à criação de mecanismos para devolver o dinheiro aos lesados. A seguir, detalhes sobre como identificar prejuízos e os prazos para reembolso.
A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a operação em abril de 2025, cumprindo 211 mandados de busca e apreensão em 13 estados e no Distrito Federal. Seis servidores públicos foram afastados, incluindo o então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. A investigação revelou que associações e sindicatos aplicavam mensalidades indevidas diretamente na folha de pagamento de milhões de beneficiários.
O esquema, que começou a ganhar força em 2016, atingiu seu pico durante a pandemia, aproveitando a vulnerabilidade de aposentados. Abaixo, alguns pontos-chave sobre a fraude:
- Volume financeiro: R$ 6,3 bilhões descontados entre 2019 e 2024.
- Modus operandi: Descontos automáticos sem consentimento explícito.
- Entidades envolvidas: Associações sem estrutura para oferecer serviços prometidos.
- Ação imediata: Suspensão de todos os Acordos de Cooperação Técnica (ACTs).
O governo federal anunciou a criação de uma força-tarefa para agilizar a restituição dos valores. A prioridade é garantir que os beneficiários recebam o dinheiro de forma rápida e sem burocracia, com reembolsos iniciando em maio de 2025.
Identificação de descontos indevidos
Aposentados e pensionistas podem verificar se foram vítimas da fraude por meio do aplicativo ou site Meu INSS. O processo é simples e acessível, permitindo a consulta de extratos de pagamento. Cerca de 6 milhões de segurados, dos 40,6 milhões do INSS, tinham valores retidos mensalmente por entidades associativas, sendo 80% ligados às organizações investigadas.
Para confirmar possíveis perdas, o beneficiário deve acessar a seção “Mensalidade Associativa” no Meu INSS. Caso sejam identificados descontos não autorizados, é possível solicitar a exclusão imediata do débito. O sistema também permite o bloqueio de futuras cobranças indevidas, garantindo maior segurança.
Entre janeiro de 2023 e maio de 2024, o INSS registrou 1,9 milhão de reclamações sobre descontos irregulares. A maioria dos casos envolve mensalidades cobradas por entidades que prometiam serviços como assessoria jurídica, convênios com academias ou planos de saúde, mas não tinham capacidade operacional para entregá-los. Em 72% dos casos analisados, as associações não apresentaram a documentação exigida para formalizar os acordos com o INSS.
Os beneficiários que identificarem irregularidades podem, além de usar o Meu INSS, entrar em contato com a Central 135 ou registrar denúncias no portal Consumidor.gov.br. A Ouvidoria do INSS, por meio da plataforma Fala BR, também está recebendo relatos para apuração.
Cronologia do esquema fraudulento
O esquema de descontos indevidos teve início em 2016, sob a gestão do presidente Michel Temer, mas ganhou escala a partir de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro. A ausência de regulamentações rigorosas facilitou a ação das entidades. Em 2022, o Congresso Nacional removeu exigências que obrigavam associações a confirmar o consentimento dos beneficiários para os descontos, o que ampliou a vulnerabilidade do sistema.
A fraude atingiu seu ápice entre 2023 e 2024, já no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse período, os descontos alcançaram a marca de bilhões de reais, com entidades cobrando mensalidades de até 97% dos beneficiários sem autorização, segundo auditoria da CGU. Abaixo, os principais marcos do esquema:
- 2016: Início das fraudes, com descontos esporádicos.
- 2019: Crescimento exponencial das mensalidades indevidas.
- 2022: Mudanças legislativas facilitam a ação das entidades.
- 2023-2024: Explosão dos descontos, totalizando R$ 6,3 bilhões.
- Abril 2025: Operação Sem Desconto desmantela o esquema.
A investigação revelou que as entidades utilizavam falsificação de assinaturas e acordos irregulares para justificar os descontos. Carros de luxo, joias e dinheiro vivo foram apreendidos durante as buscas, evidenciando o enriquecimento ilícito dos envolvidos.
Mecanismos de reembolso
O governo federal anunciou que os valores descontados indevidamente em abril de 2025 serão devolvidos na folha de pagamento de maio. Para os descontos realizados entre 2019 e março de 2025, uma força-tarefa está apurando os montantes a serem ressarcidos. O processo deve se estender até junho, com prioridade para os casos mais recentes.
Gilberto Waller Júnior, novo presidente do INSS, afirmou que o ressarcimento será feito de forma ágil. Um canal específico foi criado no Meu INSS para que os beneficiários solicitem a devolução diretamente. A Advocacia-Geral da União (AGU) e a Dataprev estão apoiando a iniciativa, garantindo a integração de dados para identificar os lesados.
Os reembolsos serão depositados automaticamente na conta usada para o pagamento do benefício. No entanto, o governo alertou que os valores anteriores a abril de 2025 ainda estão sob análise, e não há data definitiva para a conclusão desse processo. Beneficiários que desejarem agilizar a solicitação podem enviar um relato ao e-mail acordo.mensalidade@inss.gov.br, acompanhado de documentos que comprovem os descontos.
Ações contra entidades investigadas
O INSS abriu investigação interna contra 12 entidades suspeitas de envolvimento na fraude. As portarias, assinadas pelo corregedor-geral substituto José Alberto de Medeiros Landim, foram publicadas no Diário Oficial da União em 5 de maio de 2025. O Processo Administrativo de Responsabilização (PAR) tem prazo de 180 dias para conclusão.
Entre as entidades alvos estão a Associação no Brasil de Aposentados e Pensionistas da Previdência Social (APBRASIL), a Associação Brasileira dos Aposentados e Pensionistas e Idosos (ASBRAPI) e a Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA). Essas organizações, segundo a PF, operavam sem cumprir requisitos legais, como a apresentação de Acordos de Cooperação Técnica válidos.
A CGU recomendou o bloqueio imediato de novas autorizações para descontos associativos. Além disso, 11 entidades tiveram seus contratos suspensos judicialmente. Abaixo, algumas medidas adotadas contra as organizações:
- Suspensão de contratos: Interrupção de todos os ACTs com o INSS.
- Investigação interna: Apuração de responsabilidades por 180 dias.
- Sequestro de bens: Bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em ativos.
- Prisões temporárias: Seis mandados cumpridos em abril de 2025.
A Justiça Federal também determinou o afastamento cautelar de seis agentes públicos, cujos papéis no esquema ainda estão sendo investigados. A PF continua buscando uma pessoa foragida, ligada a organizações de Sergipe.
Alerta contra novos golpes
A divulgação da fraude gerou uma onda de tentativas de golpes contra aposentados. Golpistas estão enviando mensagens falsas, prometendo devoluções rápidas dos valores descontados. O governo emitiu um alerta pelo Meu INSS, orientando que os beneficiários evitem links suspeitos e consultem apenas canais oficiais.
Mensagens de phishing, fingindo serem do INSS, têm solicitado dados pessoais e senhas por meio de sites fraudulentos. A PF recomenda que qualquer comunicação seja verificada diretamente no aplicativo ou site Meu INSS. A Central 135 também está disponível para esclarecimentos.
Outro golpe comum envolve a promessa de indenizações rápidas. O INSS esclareceu que os reembolsos anteriores a abril de 2025 ainda estão em apuração, e qualquer oferta de devolução imediata deve ser tratada com desconfiança. Abaixo, dicas para evitar fraudes:
- Verificação oficial: Use apenas o Meu INSS ou a Central 135.
- Desconfie de links: Não clique em mensagens recebidas por e-mail ou WhatsApp.
- Proteja dados pessoais: Não informe senhas ou números de documentos.
- Denuncie irregularidades: Registre queixas no Consumidor.gov.br ou Fala BR.
Reações de beneficiários
Aposentados e pensionistas expressaram indignação com a escala da fraude. Em São Paulo, associações de aposentados organizaram protestos exigindo transparência na devolução dos valores. Muitos beneficiários relatam dificuldades para acessar o Meu INSS, especialmente em áreas rurais, onde a conectividade é limitada.
A conselheira Tonia Galleti, representante dos aposentados no Conselho Nacional de Previdência Social (CNPS), tentou incluir o tema dos descontos indevidos na pauta de reuniões desde 2023. Suas solicitações foram negadas, mas a pressão resultou na criação de um grupo de trabalho para revisar os Acordos de Cooperação Técnica.
Em Brasília, pensionistas aguardam orientações claras sobre o reembolso. A falta de informações detalhadas sobre os valores a serem devolvidos tem gerado ansiedade. O INSS prometeu intensificar a comunicação por meio de campanhas em rádios e TVs, com foco em alcançar beneficiários sem acesso à internet.
Medidas preventivas adotadas
O INSS implementou novas regras para evitar a repetição do esquema. Em 2024, uma instrução normativa já havia imposto maior rigor na autorização de descontos, mas a medida não foi suficiente para conter a fraude. Agora, todos os ACTs foram suspensos, e o instituto planeja digitalizar processos de auditoria em tempo real.
A CGU sugeriu a modernização do sistema de validação de mensalidades associativas. A integração com a Dataprev permitirá cruzamento de dados para identificar irregularidades rapidamente. Além disso, o INSS estuda a criação de um aplicativo específico para denúncias, com interface simplificada para idosos.
A força-tarefa anunciada pelo governo inclui representantes do Ministério da Previdência, da AGU e da PF. O grupo está revisando todos os contratos firmados com entidades associativas desde 2016. A expectativa é que novas regulamentações sejam publicadas até o final de 2025, exigindo consentimento digital verificável para qualquer desconto.
Papel da tecnologia na fraude
A ausência de controles digitais robustos facilitou a ação das entidades fraudulentas. O sistema do INSS, apesar de contar com o Meu INSS, não possuía mecanismos eficazes para validar autorizações em massa. A Dataprev, responsável pela infraestrutura tecnológica, anunciou um investimento de R$ 10,5 milhões para aprimorar a detecção de fraudes em 2025.
A inteligência artificial, usada para processar pedidos de benefícios, também apresentou falhas. Casos complexos, como os de trabalhadores rurais, foram negados automaticamente, enquanto descontos indevidos passavam despercebidos. O INSS planeja recalibrar seus algoritmos para priorizar a segurança dos beneficiários.
A modernização do Meu INSS é uma das prioridades do governo. Novas funcionalidades, como alertas automáticos para descontos suspeitos, estão em desenvolvimento. A plataforma também passará a exigir autenticação em duas etapas para alterações nos dados dos beneficiários, reduzindo o risco de acessos não autorizados.
Demandas por investigação ampliada
Deputados federais cobraram apurações mais profundas sobre a fraude. Em discursos no Plenário da Câmara, parlamentários criticaram a gestão do INSS e defenderam a criação de uma CPI mista para investigar o caso. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) destacou a necessidade de responsabilizar todos os envolvidos, independentemente do período em que as fraudes ocorreram.
Chico Alencar (Psol-RJ) classificou o esquema como um “escândalo tremendo” e pediu celeridade na devolução dos valores. Já Pedro Aihara (PRD-MG) revelou ter recebido denúncias sobre o caso desde 2023, que foram encaminhadas para investigação. A Comissão de Previdência da Câmara marcou uma audiência pública com o ministro da Previdência, Carlos Lupi, para discutir o tema.
A pressão por transparência também veio de entidades civis. A Confederação Nacional dos Aposentados e Pensionistas (CNAP) exigiu a divulgação da lista completa de entidades investigadas. O grupo também solicitou que o INSS crie um fundo emergencial para antecipar reembolsos a beneficiários em situação de vulnerabilidade.
Avanços na proteção aos beneficiários
O governo federal suspendeu todos os acordos que permitiam descontos diretos nos benefícios. A medida, anunciada em abril de 2025, impede que novas mensalidades sejam cobradas sem autorização expressa. O INSS também ampliou o horário de atendimento da Central 135, que agora funciona das 7h às 22h, incluindo fins de semana.
Campanhas educativas estão sendo planejadas para orientar aposentados sobre seus direitos. O Ministério da Previdência firmou parcerias com rádios comunitárias para alcançar populações em áreas remotas. Folders informativos serão distribuídos em agências do INSS e bancos pagadores, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil.
A AGU está analisando a possibilidade de ações coletivas para acelerar a restituição. A medida beneficiaria grupos de aposentados que enfrentam dificuldades para acessar o Meu INSS. O órgão também estuda a criação de um portal unificado para denúncias, integrando dados do INSS, da PF e da CGU.

