Febre de bebês reborn atrai crianças e gera polêmica com ataques a colecionadoras no Brasil
Em um shopping movimentado de Campinas, uma menina de 12 anos segura com cuidado sua boneca hiper-realista, enquanto a mãe observa com um sorriso. A cena, comum em lojas especializadas, reflete uma realidade pouco discutida: as crianças são as principais consumidoras de bebês reborn, bonecas que imitam recém-nascidos com detalhes impressionantes. Nos últimos meses, porém, o universo dessas bonecas ganhou destaque nas redes sociais, não apenas pelo encanto que desperta, mas por uma onda de críticas e desinformação que tem afetado artesãs e colecionadoras. Vídeos virais no TikTok e debates acalorados expõem um cenário de polarização, onde a prática lúdica é confundida com obsessão.
A polêmica cresceu após publicações nas redes sociais mostrarem mulheres simulando rotinas maternas com as bonecas, como idas ao hospital ou trocas de fraldas. Muitos internautas reagiram com escárnio, questionando a sanidade das envolvidas. Artesãs, no entanto, afirmam que grande parte desses conteúdos é encenação, criada para engajar e monetizar perfis online. Enquanto isso, o mercado de bebês reborn segue aquecido, com lojas relatando alta demanda, especialmente entre o público infantil.
O fenômeno não é novo, mas a recente viralização trouxe à tona preconceitos e mal-entendidos. Para entender o impacto, é preciso explorar as dinâmicas por trás dessa arte:
- Demanda infantil: Crianças, atraídas pelo realismo, lideram as compras, usando as bonecas para brincadeiras que estimulam a imaginação.
- Uso terapêutico: As bonecas são empregadas em ONGs, lares de idosos e treinamentos médicos, mostrando versatilidade.
- Monetização digital: Influenciadoras criam conteúdos de roleplay, gerando receita com visualizações e parcerias.
- Críticas online: Comentários de ódio têm levado algumas artesãs a considerar abandonar a profissão.
Origem e popularidade da arte reborn
A arte dos bebês reborn surgiu nos Estados Unidos, na década de 1990, quando artistas começaram a transformar bonecas comuns em réplicas hiper-realistas de recém-nascidos. O processo, conhecido como “reborning”, envolve técnicas minuciosas, como pintura em camadas, implantação de cabelos fio a fio e uso de materiais como vinil e silicone. No Brasil, a prática ganhou força nos anos 2000, impulsionada por ateliês e plataformas de comércio online. Hoje, o mercado movimenta cifras significativas, com bonecas custando entre R$ 200 e R$ 30 mil, dependendo do nível de personalização.
O público infantil se tornou o principal consumidor, segundo lojistas. Em Campinas, a Alana Babys, uma das principais “maternidades” de bonecas do país, relata que 60% das vendas são destinadas a crianças entre 6 e 14 anos. Mães frequentemente acompanham as filhas às lojas, onde as bonecas são exibidas em berços, com enxovais completos que incluem fraldas, chupetas e até certidões de nascimento fictícias. A experiência de compra, muitas vezes, simula a adoção de um bebê, o que encanta o público jovem.
Para as crianças, os bebês reborn representam uma forma de brincadeira que vai além do tradicional. “Minha filha passa horas arrumando as roupinhas e criando histórias com a boneca”, conta Mayara Gimenez, mãe de Manuela, de 12 anos, que possui nove bonecas. A prática, segundo especialistas, estimula a criatividade e ajuda no desenvolvimento emocional, especialmente em crianças que desejam imitar papéis de cuidado.
O papel do roleplay nas redes sociais
A popularidade dos bebês reborn explodiu no TikTok, onde vídeos de influenciadoras simulando rotinas com as bonecas acumulam milhões de visualizações. Essas encenações, conhecidas como roleplay, mostram atividades como banhos, trocas de roupa e até partos fictícios. Um vídeo da influenciadora Sweet Carol, que simula o nascimento de uma boneca, ultrapassou 100 milhões de visualizações, destacando o potencial de engajamento do conteúdo.
Muitas influenciadoras monetizam esses vídeos por meio de parcerias com marcas de acessórios ou lojas especializadas. Mariana Nunes, de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Com 21 bonecas em sua coleção, ela aumentou a produção de conteúdo de três para cinco vídeos diários, faturando cerca de R$ 4 mil por mês com anúncios e colaborações. “Mostro a rotina de cuidados, mas é tudo uma brincadeira para entreter”, explica.
Nem todos os espectadores, porém, entendem o tom lúdico. Comentários negativos frequentemente acusam as criadoras de tratar as bonecas como filhos reais, gerando uma onda de críticas que se espalha por plataformas como o X. Um usuário escreveu: “Isso é o começo do apocalipse”, enquanto outro questionou: “Por que tratar uma boneca como bebê de verdade?”. A falta de clareza sobre o caráter fictício dos vídeos alimenta mal-entendidos, segundo colecionadoras.

Impacto das críticas nas artesãs
As críticas não se limitam às influenciadoras. Artesãs, que dedicam semanas a cada boneca, enfrentam uma crescente hostilidade. Alana Generoso, da Alana Babys, relata que já foi chamada de “louca” por internautas que desconhecem o processo artístico. “É uma arte que exige paciência e talento, mas as pessoas julgam sem entender”, diz. Algumas artistas, desmotivadas, consideram abandonar a profissão.
O trabalho de uma artesã reborn é meticuloso. Cada boneca leva de 10 a 40 dias para ser finalizada, dependendo do material. O processo inclui:
- Pintura detalhada: Até 30 camadas de tinta são aplicadas para simular veias, manchas e texturas de pele.
- Implantação de cabelo: Fios de mohair ou cabelo humano são inseridos manualmente.
- Montagem: O corpo é preenchido com fibras e pesos para imitar a sensação de um bebê.
- Personalização: Clientes escolhem detalhes como cor dos olhos, tom de pele e até marcas de nascença.
O custo elevado reflete a complexidade. Modelos de vinil custam a partir de R$ 750, enquanto bonecas de silicone sólido, mais realistas, podem chegar a R$ 15 mil. Apesar da dedicação, o preconceito online tem afastado potenciais clientes, segundo Andrea Janaína, organizadora de eventos reborn em São Paulo.
Uso terapêutico e educacional
Além do público infantil, os bebês reborn têm aplicações práticas em outros setores. Em ONGs, as bonecas são usadas para ajudar mulheres que enfrentam luto gestacional ou infertilidade, oferecendo conforto emocional. Em lares de idosos, elas estimulam a memória afetiva, reduzindo a ansiedade em pacientes com demência. “Já vi senhoras que voltaram a sorrir ao segurar uma boneca”, conta Cristina Ribeiro, artesã de Belém.
No campo educacional, universidades e hospitais utilizam modelos específicos para treinamentos médicos. Bonecas com sensores internos, que custam entre R$ 2 mil e R$ 10 mil, simulam procedimentos como reanimação neonatal. Em São Paulo, uma maternidade de bonecas fornece peças para faculdades de medicina, com demanda crescente em 2025.
A versatilidade das bonecas reforça seu valor, mas não impede as críticas. Projetos de lei, como o do deputado Cristiano Caporezzo, em Minas Gerais, propõem proibir o atendimento de bonecas em hospitais, após casos de encenação que geraram confusão. Outro projeto, no Rio de Janeiro, sugere um programa de saúde mental para “pais” de reborn, refletindo a percepção equivocada de que a prática é sempre problemática.
Eventos e comunidades de colecionadores
A paixão pelos bebês reborn vai além das redes sociais. Encontros presenciais reúnem colecionadores em parques e shoppings, onde exibem suas bonecas e trocam experiências. Um evento no Parque Ibirapuera, em São Paulo, atraiu dezenas de participantes em abril de 2025, com vídeos do encontro viralizando online. “É uma comunidade que se apoia e celebra a arte”, diz Elaine Alves, conhecida como Nane Reborns, que participou do evento.
Esses encontros fortalecem laços entre colecionadores, mas também geram reações mistas. Alguns internautas elogiam a criatividade, enquanto outros expressam desconforto com a simulação de rotinas maternas. A hashtag #reborns no TikTok, com mais de 100 mil vídeos, reflete a popularidade do tema, mas também a polarização que o acompanha.
No Rio de Janeiro, a aprovação do Dia da Cegonha Reborn, em 4 de setembro, reconhece o trabalho das artesãs, mas não silencia as críticas. “As pessoas veem um vídeo de dois minutos e acham que entendem nossa vida”, lamenta Elaine, que possui 15 bonecas e produz conteúdo monetizado.
Mercado em expansão e desafios legais
O setor de bebês reborn movimentou cerca de R$ 10 milhões no Brasil em 2024, segundo estimativas do mercado. Lojas como a Minha Infância, em São Paulo, relatam crescimento de 25% nas vendas de acessórios, como carrinhos e roupas, que custam de R$ 50 a R$ 300. O comércio online, em plataformas como Shopee e Mercado Livre, também impulsionou as vendas, embora artesãs alertem para falsificações que prejudicam a reputação da arte.
Questões legais começam a surgir com a popularidade. Em Goiânia, um casal disputou na Justiça a posse de uma boneca reborn avaliada em R$ 8 mil, além da administração de um perfil no Instagram que gerava receita. A advogada Suzana Ferreira recusou o caso, mas destacou que o perfil monetizado é um ativo patrimonial legítimo. Casos semelhantes levantam debates sobre como o Judiciário deve lidar com objetos que transcendem o valor material.
A legislação brasileira classifica as bonecas como bens materiais, sem direitos como guarda ou convivência. Projetos de lei, como o de Zacharias Calil, em Goiás, propõem multas de até R$ 30 mil para quem usar reborns para obter benefícios, como filas preferenciais. Tais medidas refletem a tentativa de regulamentar um fenômeno que mistura afeto, arte e negócios.
Influenciadoras e o poder das redes
Influenciadoras como Nane Reborns e Sweet Carol moldam a percepção pública sobre os bebês reborn. Com perfis que somam centenas de milhares de seguidores, elas combinam criatividade e estratégia digital. Nane, por exemplo, transformou seu hobby em profissão, firmando parcerias com lojas para promover bonecas e acessórios. “Gravo vídeos para divulgar o trabalho das artesãs, mas também para entreter”, diz.
A monetização no TikTok ocorre por meio de visualizações, presentes virtuais e parcerias. O Creativity Program Beta, lançado pela plataforma, oferece pagamentos maiores que o antigo Creator Fund, com criadores ganhando até 20 vezes mais por visualizações qualificadas. Influenciadoras brasileiras aproveitam o potencial, mas enfrentam o desafio de combater a desinformação sobre seus conteúdos.
A viralização, porém, tem um lado negativo. Vídeos exagerados, como os que simulam partos ou consultas médicas, alimentam críticas e reforçam estereótipos. “Algumas criadoras exageram para atrair likes, mas isso prejudica a comunidade”, lamenta Maria da Silva, colecionadora de 33 anos que prefere não se expor publicamente.
Crianças no centro da tendência
O apelo dos bebês reborn entre crianças é inegável. Lojas relatam que meninas de 6 a 14 anos são as mais entusiasmadas, muitas vezes economizando mesadas ou esperando aniversários para comprar uma boneca. “Minha filha viu um vídeo no YouTube e ficou fascinada”, conta Fernanda Souza, mãe de uma menina de 9 anos que possui três bonecas. A brincadeira, segundo ela, mantém a filha afastada de telas e estimula a imaginação.
As bonecas vêm com enxovais completos, o que aumenta o realismo. Um kit básico, com fraldas, mamadeira e roupas, custa cerca de R$ 150, enquanto enxovais de luxo chegam a R$ 500. Lojas como a Alana Babys oferecem experiências imersivas, com berços aquecidos e simulações de parto, atraindo famílias que buscam presentear as crianças.
A prática é vista como saudável por especialistas. “Brincar de boneca ajuda no desenvolvimento emocional e social, especialmente em crianças que querem imitar os adultos”, explica Ana Cristina Rodrigues, psicóloga do Centro Universitário Anhanguera. Ela alerta, porém, que o exagero em encenações por adultos pode confundir o público jovem, reforçando a importância de esclarecer o caráter lúdico.
Futuro do mercado e perspectivas das artesãs
A febre dos bebês reborn não mostra sinais de desaceleração. Ateliês em cidades como Belo Horizonte e Belém registram aumento na procura, com feiras locais atraindo colecionadores e curiosos. Uma boneca de médio porte, com enxoval de 28 itens, é vendida por cerca de R$ 1.300 em lojas mineiras, enquanto modelos personalizados custam até R$ 5 mil.
Artesãs como Cristina Ribeiro, que já produziu mais de 300 bonecas, veem o mercado com otimismo, mas pedem respeito. “É uma arte que transforma vidas, seja para crianças, colecionadores ou pessoas em terapia”, diz. Ela investe em cursos para formar novas artistas, garantindo a continuidade da prática.
Os desafios, porém, persistem. A desinformação nas redes sociais e os projetos de lei restritivos podem limitar o crescimento do setor. Enquanto isso, colecionadoras como Manuela, de 12 anos, continuam a encantar-se com suas bonecas, indiferentes às polêmicas. “Para mim, é só uma brincadeira divertida”, diz a menina, segurando sua boneca preferida.
Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.








