INSS define calendário para devolver valores de descontos indevidos a aposentados

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INSS - Foto: AngelaMacario/ Istockphoto.com

A maior fraude já registrada contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) terá um desfecho financeiro ainda em 2025. O governo federal, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU) e do INSS, anunciou que os segurados lesados por descontos associativos indevidos serão reembolsados em parcela única, com valores corrigidos, até o fim do ano. A decisão, revelada em 18 de junho, durante transmissão ao vivo, responde às denúncias trazidas pela Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU). O esquema, que desviou bilhões de benefícios previdenciários, afetou milhões de brasileiros entre 2019 e 2024. Um calendário de pagamentos, dividido em lotes quinzenais, será apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) na próxima semana, garantindo agilidade no processo. A medida visa reparar o prejuízo e evitar a judicialização em massa, oferecendo uma solução administrativa prática e segura.

O escândalo, que veio à tona em abril de 2025, revelou a vulnerabilidade do sistema previdenciário brasileiro. Associações e entidades conveniadas ao INSS aplicavam descontos automáticos nos contracheques de aposentados, muitas vezes sem autorização expressa. A AGU estima que cerca de 4,1 milhões de segurados foram impactados, com prejuízos que podem ultrapassar R$ 6,3 bilhões. Para enfrentar o problema, o governo optou por uma abordagem direta, assumindo a responsabilidade inicial pelos ressarcimentos, mas já acionou judicialmente as entidades envolvidas para recuperar os valores desviados.

Os principais pontos do plano de reembolso incluem:

  • Pagamento em parcela única, com correção monetária, para todos os segurados lesados.
  • Lotes quinzenais, sem distinção de grupos, para agilizar a devolução.
  • Processo administrativo simplificado, evitando a necessidade de ações judiciais.
  • Busca ativa de vítimas que ainda não contestaram os descontos.

A resposta do governo, segundo autoridades, reflete a gravidade do caso e a urgência em reparar os danos causados a uma população vulnerável, composta majoritariamente por idosos.

Plano de pagamento detalhado
O calendário de reembolsos, que será submetido ao STF em 24 de junho, é o próximo passo para concretizar a promessa de reparação. Durante a transmissão ao vivo, o presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, destacou que os pagamentos serão organizados em lotes processados a cada 15 dias. Essa estratégia visa garantir que todos os segurados recebam os valores devidos no mesmo período, sem priorizar grupos específicos. A expectativa é que o processo comece ainda no segundo semestre, com conclusão prevista até dezembro de 2025.

A proposta de acordo nacional, apresentada pela AGU, busca simplificar o acesso aos reembolsos. Segurados serão informados sobre os valores a receber e convidados a aderir ao plano administrativo. Jorge Messias, advogado-geral da União, enfatizou que a adesão é voluntária, preservando o direito de recorrer à Justiça. No entanto, ele defendeu a via administrativa como a alternativa mais rápida, barata e segura, evitando litígios que poderiam se arrastar por anos.

Mecanismo das fraudes
As fraudes, descobertas pela Operação Sem Desconto, envolviam associações que firmavam acordos com o INSS para descontar mensalidades diretamente dos benefícios. Essas entidades prometiam serviços como atendimento médico, atividades de lazer ou assistência jurídica, mas, na maioria dos casos, os segurados não haviam autorizado as cobranças. Um relatório da CGU apontou que 97,6% dos aposentados entrevistados entre abril e julho de 2024 negaram participação em qualquer associação, evidenciando a escala do golpe.

Entre as entidades investigadas, destacam-se a AAPPS Universo, que arrecadou R$ 255 milhões entre 2022 e 2025, e a APDAP PREV, com R$ 224 milhões no mesmo período. A Polícia Federal identificou figuras como Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, como operadores centrais do esquema. Transferências de R$ 17 milhões para ex-diretores do INSS também foram rastreadas, reforçando a suspeita de envolvimento interno.

Ações contra os fraudadores
A resposta do governo não se limita aos reembolsos. A AGU já bloqueou R$ 2,8 bilhões em bens de entidades e pessoas envolvidas, incluindo fazendas, apartamentos e contas bancárias. A Polícia Federal, por sua vez, intensificou as investigações, com a quarta fase da Operação Sem Desconto, deflagrada em 17 de junho, resultando na prisão de duas pessoas e no cumprimento de cinco mandados de busca e apreensão em Sergipe.

As ações judiciais movidas pela AGU têm como objetivo garantir que as entidades fraudulentas arquem com os custos dos desvios. Messias afirmou que o governo não permitirá que a sociedade pague a conta do esquema. Além disso, servidores do INSS sob investigação foram afastados e respondem a processos administrativos disciplinares, reforçando o compromisso com a transparência.

Como os segurados podem agir
Para garantir o reembolso, os aposentados e pensionistas devem contestar os descontos indevidos por meio dos canais oficiais do INSS. Até o momento, 3,2 milhões de contestações foram registradas, aproximando-se da estimativa inicial de 4,1 milhões de vítimas. Os principais canais de atendimento incluem:

  • Aplicativo ou site Meu INSS, onde é possível verificar extratos e contestar cobranças.
  • Central telefônica 135, para registro de reclamações.
  • Agências dos Correios, que oferecem atendimento presencial e emissão de protocolos.
  • Busca ativa do INSS, que monitora casos pendentes e entra em contato com segurados.

O presidente do INSS garantiu que não há prazo para o recebimento de contestações, permitindo que todos os afetados tenham tempo para se manifestar. A recomendação é que os beneficiários verifiquem regularmente seus extratos de pagamento e denunciem qualquer desconto suspeito.

Escala do problema
A dimensão do escândalo é impressionante. Dados da CGU revelam que, entre 2019 e 2024, os descontos indevidos totalizaram R$ 6,3 bilhões, afetando cerca de 9,3 milhões de segurados com algum tipo de cobrança associativa. A auditoria do INSS, iniciada em 2023, já apontava fragilidades nos controles de descontos, mas a extensão do problema só foi confirmada com a operação policial.

Um levantamento da AGU mostrou que, em 2022, os descontos associativos somaram R$ 706,2 milhões, valor que cresceu exponencialmente nos anos seguintes. A falta de verificação biométrica e a permissão para que entidades contratassem empresas privadas para validação de identidade contribuíram para a perpetuação do esquema.

Medidas preventivas adotadas
Para evitar novos casos, o INSS implementou mudanças significativas. Desde março de 2024, novas regras para descontos associativos foram instituídas, incluindo a suspensão de operações com entidades suspeitas. A biometria fake, que permitia validações fraudulentas, foi extinta em 2025. Além disso, o órgão passou a exigir maior rigor na comprovação de autorizações para descontos.

A colaboração com bancos também foi intensificada. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) propôs, em abril de 2024, a criação de uma frente de trabalho para aprimorar os controles de crédito consignado, outro ponto vulnerável explorado por fraudadores. Essas medidas buscam fortalecer a segurança do sistema previdenciário e proteger os beneficiários.

Resposta ágil do governo
A rapidez na resposta ao escândalo foi destacada por Jorge Messias durante a transmissão. Em apenas 45 dias após a deflagração da Operação Sem Desconto, o governo estruturou um plano de ressarcimento, bloqueou bilhões em bens e afastou servidores suspeitos. A audiência de conciliação no STF, marcada para 24 de junho, será um marco para formalizar o acordo nacional e garantir que os pagamentos cheguem rapidamente aos segurados.

A iniciativa reflete a prioridade dada ao caso, que ganhou repercussão nacional devido à sua gravidade. A AGU também entrou com uma ação no STF para suspender decisões judiciais que responsabilizam automaticamente o INSS pelos descontos, argumentando que a culpa recai sobre as entidades privadas envolvidas.

Próximos passos
Com a apresentação do calendário ao STF, o governo espera iniciar os pagamentos no segundo semestre. A proposta de lotes quinzenais permitirá que milhões de segurados sejam atendidos de forma organizada. A AGU e o INSS continuarão monitorando as contestações, garantindo que todos os lesados tenham acesso ao reembolso.

A Polícia Federal, por sua vez, segue aprofundando as investigações. Novas fases da Operação Sem Desconto podem ser deflagradas, com análise de documentos apreendidos que podem revelar outros envolvidos. O objetivo é desmantelar completamente a rede criminosa e evitar que esquemas semelhantes se repitam.

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