O governo federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), anunciou em julho de 2025 a realocação de R$ 685,9 milhões do orçamento destinado à expansão de escolas em tempo integral para financiar o programa Pé-de-Meia, voltado a bolsas para estudantes do ensino médio. A decisão, enviada ao Congresso Nacional no fim de junho, corta quase metade dos R$ 1,5 bilhão previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) para a política de jornada ampliada, considerada essencial para melhorar a qualidade da educação básica. A medida, que visa garantir a continuidade do Pé-de-Meia, gerou debates sobre as prioridades educacionais do país. A proposta ainda depende de aprovação parlamentar para entrar em vigor, enquanto o Ministério da Educação (MEC) assegura que o uso de recursos do Fundeb evitará prejuízos às escolas integrais.
A realocação orçamentária reflete a pressão financeira enfrentada pelo governo para sustentar suas iniciativas educacionais. O Pé-de-Meia, uma das principais vitrines da gestão Lula, tem como objetivo combater a evasão escolar no ensino médio, beneficiando cerca de 2,5 milhões de estudantes de baixa renda. No entanto, a transferência de recursos levanta questionamentos sobre o impacto na ampliação do ensino em tempo integral, uma política reconhecida por melhorar o desempenho escolar e a permanência dos alunos.
- Principais pontos da decisão:
- Corte de R$ 685,9 milhões do orçamento de escolas em tempo integral.
- Recursos realocados para o programa Pé-de-Meia, com custo anual de R$ 12 bilhões.
- Proposta enviada ao Congresso em junho de 2025, aguardando aprovação.
- MEC afirma que Fundeb compensará perdas no ensino integral.
O debate sobre a priorização de programas educacionais ganha força em um momento de restrições fiscais, com o governo buscando equilibrar suas metas sociais e educacionais. A decisão também expõe os desafios de financiar políticas públicas em um contexto de arcabouço fiscal rígido.
Realocação de recursos em foco
A proposta de corte nos recursos para escolas em tempo integral foi formalizada pelo Ministério do Planejamento, liderado pela ministra Simone Tebet, em um pedido enviado ao Congresso no final de junho de 2025. O documento justifica a transferência com a possibilidade de financiar o ensino integral por meio do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que não está sujeito às mesmas limitações fiscais do Orçamento Geral da União. O Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica, teve sua complementação federal ampliada em 2024, o que, segundo o MEC, permitirá manter a expansão das matrículas em tempo integral.
O programa Pé-de-Meia, que consome R$ 12 bilhões anualmente, oferece bolsas mensais de R$ 200, depósitos anuais de R$ 1.000 em poupança e incentivos para participação no Enem, totalizando até R$ 9.200 por estudante ao longo do ensino médio. Criado para reduzir a evasão escolar, o programa atende alunos de famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico), com renda per capita de até meio salário mínimo. Em 2024, o governo ampliou sua cobertura, incluindo 1,2 milhão de estudantes adicionais, o que elevou os custos além das projeções iniciais de R$ 7 bilhões.
A decisão de redirecionar verbas, no entanto, não foi unânime. Especialistas apontam que o ensino em tempo integral, com jornada mínima de sete horas diárias, é uma das estratégias mais eficazes para melhorar a aprendizagem e reduzir desigualdades educacionais. Dados do Censo Escolar de 2024 mostram que apenas 20% das matrículas do ensino médio público estão em escolas de tempo integral, evidenciando a necessidade de mais investimentos para alcançar as metas do Plano Nacional de Educação (PNE).
Mecanismos de financiamento em debate
O uso do Fundeb como alternativa para compensar o corte no orçamento das escolas em tempo integral é um ponto central da estratégia do governo. Em 2024, o Congresso aprovou uma emenda constitucional que garante 10% dos recursos federais do fundo para a expansão do ensino integral em 2025, embora a proposta inicial do governo fosse de 20%. Para 2026, a fatia destinada a essa política será reduzida para 4%, o que pode limitar os avanços no longo prazo.
O MEC destaca que a flexibilidade do Fundeb permite a execução do programa de ensino integral sem prejuízos, mas a pasta desembolsou apenas R$ 297 mil dos recursos previstos para a política em 2025 até o momento, equivalente a 0,02% do orçamento inicial. Esse baixo índice de execução orçamentária reforça as críticas de que a realocação pode comprometer a implementação de novas matrículas em tempo integral.
- Benefícios do Fundeb para o ensino integral:
- Fundo não está sujeito às regras fiscais do Orçamento Geral da União.
- Complementação federal de R$ 56 bilhões em 2025.
- Permite financiar matrículas em tempo integral em estados e municípios.
- Emenda constitucional garante 10% dos recursos federais em 2025.
A dependência do Fundeb também levanta questões sobre a sustentabilidade financeira de programas educacionais. O fundo, que reúne impostos estaduais, municipais e uma complementação federal, é essencial para a educação básica, mas sua alocação para diferentes políticas pode gerar competição entre prioridades, como alfabetização, ensino técnico e tempo integral.
Prioridades educacionais sob escrutínio
O programa Pé-de-Meia, lançado em 2024, tornou-se uma das principais apostas do governo Lula para enfrentar a evasão escolar, que atinge 8,8% dos alunos no primeiro ano do ensino médio, segundo dados do MEC. A iniciativa combina transferência de renda com condicionalidades, como frequência mínima de 80% e aprovação anual, visando incentivar a permanência e a conclusão do ensino médio. Além disso, o programa inclui educação financeira e incentivos para o Enem, reforçando seu apelo entre jovens de baixa renda.
No entanto, o alto custo do Pé-de-Meia, que superou as estimativas iniciais, tem gerado críticas entre educadores. Enquanto o programa consome R$ 12 bilhões anuais, os recursos para alfabetização e ensino integral somam cerca de R$ 2 bilhões, e as universidades federais enfrentam dificuldades para pagar despesas básicas. A realocação de R$ 685,9 milhões agrava esse desequilíbrio, especialmente em um ano marcado por cortes de R$ 31 bilhões no orçamento federal.
O ministro da Educação, Camilo Santana, tem defendido o ensino em tempo integral como a política com maior potencial para melhorar o desempenho escolar e reduzir a criminalidade entre jovens. Em entrevistas, ele destacou que o governo atingiu a meta de 1 milhão de novas matrículas em tempo integral em 2024 e planeja repetir o feito em 2025. Contudo, a redução de recursos diretos para a política pode dificultar o cumprimento dessas metas, que dependem da colaboração entre estados e municípios.
Processo legislativo em andamento
A proposta de realocação de recursos ainda precisa passar pela Comissão Mista de Orçamento e pelo plenário da Câmara e do Senado. Enviada no fim de junho de 2025, a medida reflete a necessidade de suplementar o orçamento do Pé-de-Meia, cuja demanda superou as projeções iniciais. O governo já previa essa suplementação desde a aprovação da LOA em março, mas a escolha de cortar verbas do ensino integral gerou reações no Congresso e entre especialistas.
Parlamentares da oposição, como o deputado Luciano Zucco (PL-RS), criticaram a manobra, argumentando que ela compromete a credibilidade do arcabouço fiscal e desvaloriza políticas educacionais de longo prazo. A liderança da oposição chegou a pedir ao Tribunal de Contas da União (TCU) a investigação de possíveis irregularidades no financiamento do Pé-de-Meia, incluindo o uso de fundos extraorçamentários.
O MEC, por sua vez, reafirma que a realocação não comprometerá o ensino integral, destacando que o programa depende principalmente de estados e municípios, com apoio técnico e financeiro da União. A pasta também aponta que o Pé-de-Meia é essencial para atender jovens em situação de vulnerabilidade, que muitas vezes abandonam a escola para trabalhar.
Desafios de execução orçamentária
A baixa execução do orçamento para o ensino em tempo integral em 2025 é um dos principais pontos de preocupação. Até julho, o MEC utilizou apenas 0,02% dos R$ 1,5 bilhão previstos, um indicativo de entraves administrativos ou falta de planejamento. Essa situação contrasta com o avanço do Pé-de-Meia, que já realizou pagamentos de R$ 200 para o incentivo-matrícula em abril de 2025, beneficiando milhões de estudantes.
A gestão do orçamento educacional também enfrenta críticas por sua dependência de fundos extraorçamentários. Auditorias do TCU apontam que o uso de recursos como o Fipem e o FG-Educ para financiar o Pé-de-Meia pode comprometer a transparência e a sustentabilidade fiscal. O MEC respondeu que essas alterações não impactaram as ações principais dos programas, mas a polêmica persiste.
- Obstáculos à execução do ensino integral:
- Baixa execução orçamentária (0,02% até julho de 2025).
- Dependência de colaboração com estados e municípios.
- Concorrência entre prioridades educacionais no uso do Fundeb.
- Pressão de restrições fiscais do arcabouço fiscal.
A realocação de recursos também reflete a complexidade de gerir o orçamento da educação em um contexto de múltiplas demandas. Enquanto o Pé-de-Meia atende uma necessidade imediata de combate à evasão, o ensino em tempo integral é uma estratégia de longo prazo, com impactos mais duradouros na qualidade da educação.
Ampliação do Pé-de-Meia
Em agosto de 2024, o governo anunciou a expansão do Pé-de-Meia para incluir todos os jovens de famílias inscritas no CadÚnico, o que adicionou 1,2 milhão de beneficiários ao programa. A medida, que elevou os custos para R$ 12,5 bilhões em 2025, foi uma promessa de campanha da ministra Simone Tebet, incorporada por Lula no segundo turno das eleições de 2022. A ampliação reforça o compromisso do governo com a inclusão social, mas também aumenta a pressão sobre o orçamento educacional.
Os pagamentos do Pé-de-Meia seguem um cronograma estruturado, com depósitos automáticos em contas digitais geridas pela Caixa Econômica Federal. Além do incentivo-matrícula de R$ 200, os alunos recebem nove parcelas anuais de R$ 200 pelo incentivo-frequência, desde que mantenham 80% de presença nas aulas. O incentivo-conclusão, de R$ 1.000 por ano, é depositado em poupança e só pode ser sacado após a formatura no ensino médio.
A iniciativa também prevê um pagamento extra de R$ 200 para concluintes que participarem do Enem, incentivando o acesso ao ensino superior. Dados do MEC mostram que, em 2024, o programa beneficiou 2,5 milhões de estudantes, com previsão de alcançar 3,7 milhões em 2025.
Gestão de recursos e transparência
A gestão financeira do Pé-de-Meia tem sido alvo de escrutínio. Em 2025, o MEC enviou documentos ao TCU comprovando o uso de R$ 3 bilhões de fundos extraorçamentários para sustentar o programa, uma prática que, segundo auditorias, pode comprometer a credibilidade fiscal. A lista de beneficiários, que deveria estar disponível no Portal da Transparência, foi publicada parcialmente, gerando críticas sobre a falta de clareza na execução do programa.
O governo planeja integrar o Pé-de-Meia ao orçamento regular da educação a partir de 2026, conforme anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Até lá, a dependência de recursos suplementares e a realocação de verbas, como os R$ 685,9 milhões do ensino integral, continuarão a alimentar o debate sobre as prioridades educacionais do país.

