Jeju Air: erro dos pilotos ao desligar motor menos danificado causou tragédia em 2023Por Luís Henrique Costa
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A tragédia do voo 2216 da Jeju Air, que matou 179 pessoas em 29 de dezembro de 2023, em Muan, Coreia do Sul, revelou um erro crítico dos pilotos, que desligaram o motor esquerdo, menos danificado, após uma colisão com pássaros, segundo investigações. O Boeing 737-800, vindo de Bangkok, Tailândia, sofreu um bird strike momentos antes do pouso, levando a uma tentativa de aterrissagem de emergência sem trem de pouso, que terminou em colisão com uma estrutura de concreto, causando uma explosão. Apenas dois tripulantes sobreviveram. A descoberta, confirmada por fontes próximas à investigação, levanta questões sobre os procedimentos de emergência e a infraestrutura do aeroporto, enquanto famílias das vítimas exigem respostas mais completas.
O acidente, o mais mortal da história da aviação sul-coreana, chocou o país e o mundo. A aeronave, que transportava 175 passageiros e seis tripulantes, enfrentou problemas após o impacto com aves, identificado como um flock de patos Baikal teal. A decisão dos pilotos de desligar o motor menos afetado comprometeu a potência e os sistemas elétricos, dificultando o controle do avião.
- Principais fatores do acidente:
- Colisão com aves causou danos aos motores.
- Desligamento do motor esquerdo, menos danificado.
- Falha no acionamento do trem de pouso.
- Colisão com estrutura de concreto no fim da pista.
A investigação, conduzida pela Autoridade de Investigação de Acidentes Aéreos e Ferroviários da Coreia do Sul (ARAIB), ainda não publicou um relatório oficial, mas as evidências incluem gravações da cabine, dados do computador de bordo e a posição de uma chave física do motor encontrada nos destroços.
Detalhes da investigação
A análise inicial revelou que o motor direito sofreu danos mais graves devido ao impacto com aves, enquanto o motor esquerdo, embora também afetado, mantinha funcionalidade parcial. A decisão de desligar o motor menos danificado agravou a situação, pois o Boeing 737-800 perdeu potência significativa, comprometendo sistemas como o gerador de energia elétrica (IDG), essencial para instrumentos de voo e acionamento do trem de pouso. A falta de energia pode explicar por que os pilotos não conseguiram baixar o trem manualmente, levando à aterrissagem de barriga.
A investigação também destacou que os gravadores de voo e de voz pararam de funcionar cerca de quatro minutos antes do impacto, dificultando a reconstrução completa dos eventos. Apesar disso, a transcrição parcial das comunicações com a torre de controle mostrou que os pilotos relataram o bird strike, declararam emergência com um chamado de “mayday” e tentaram uma segunda aproximação, mudando a direção do pouso.
- Evidências coletadas até agora:
- Gravações da cabine confirmam o erro no desligamento do motor.
- Dados do computador de bordo mostram vibrações em ambos os motores.
- Chave física do motor esquerdo estava na posição “desligado”.
- Restos de patos Baikal teal foram encontrados nos motores.
A ARAIB enviou os motores para análise detalhada pela CFM International, fabricante dos motores CFM56-7B26, em março de 2024. O exame, realizado com apoio de investigadores americanos e franceses, confirmou que não havia defeitos pré-existentes nos motores antes do bird strike.
Reações das famílias e do sindicato
Familiares das vítimas, informados sobre os achados em uma reunião no fim de semana de 19 de julho de 2025, protestaram contra a divulgação do relatório preliminar. Eles argumentam que a ênfase no erro dos pilotos ignora outros fatores, como a estrutura de concreto no fim da pista, que abrigava uma antena do sistema de pouso por instrumentos (ILS). A colisão com essa barreira causou uma explosão que elevou drasticamente o número de mortes.
O sindicato dos pilotos da Jeju Air também criticou a investigação, afirmando que a ARAIB minimizou os danos no motor esquerdo, já que vestígios de aves foram encontrados em ambos os motores. Eles acusam os investigadores de transformar os pilotos em “bodes expiatórios” sem evidências científicas de que o avião poderia ter pousado com segurança apenas com o motor esquerdo.
- Demandas das famílias e do sindicato:
- Investigação mais ampla sobre a infraestrutura do aeroporto.
- Transparência na divulgação de dados dos gravadores de voo.
- Análise detalhada do impacto da barreira de concreto.
- Revisão dos protocolos de emergência da companhia aérea.
A pressão das famílias levou ao cancelamento de uma coletiva de imprensa planejada para 19 de julho de 2025, com a promessa de audiências públicas e maior envolvimento das partes afetadas antes do relatório final, previsto para junho de 2026.
Infraestrutura do aeroporto em xeque
O Aeroporto Internacional de Muan, onde ocorreu o acidente, é conhecido por ter a maior taxa de colisões com aves entre os 14 aeroportos regionais da Coreia do Sul, com uma taxa de 0,09% dos voos, significativamente superior a outros como Gimpo (0,018%) e Jeju (0,013%). Desde 2019, pelo menos dez incidentes de bird strike foram registrados em Muan, o que levanta questões sobre as medidas de controle de fauna no local.
A estrutura de concreto atingida pelo avião, que abrigava o sistema de navegação ILS, também está sob escrutínio. Especialistas em aviação, como John Cox, ex-piloto e CEO da Safety Operating Systems, afirmaram que a presença de uma barreira rígida tão próxima ao fim da pista não segue as melhores práticas da indústria, que recomendam materiais frágeis ou sistemas de absorção de energia para minimizar danos em caso de overrun.
- Problemas identificados no aeroporto:
- Alta incidência de colisões com aves.
- Barreira de concreto próxima ao fim da pista.
- Falta de sistemas de absorção de energia, como leitos de frenagem.
- Necessidade de revisão das medidas de controle de fauna.
Em resposta, o Ministério dos Transportes da Coreia do Sul anunciou, em janeiro de 2025, a substituição das barreiras de concreto em sete aeroportos do país por estruturas mais seguras. Além disso, foi ordenada uma inspeção emergencial de todos os Boeing 737-800 operados por companhias sul-coreanas, totalizando 101 aeronaves.
Medidas após o acidente
A tragédia levou o governo sul-coreano a revisar protocolos de segurança aérea. O presidente interino, Choi Sang-mok, determinou uma reavaliação abrangente dos procedimentos de emergência, treinamento de pilotos e manutenção de aeronaves. A Jeju Air, que operava o voo 2216, suspendeu temporariamente links de compra de passagens em seu site e anunciou uma redução de 10-15% em seus voos de inverno para intensificar a manutenção.
A companhia também enfrentou consequências legais. Em maio de 2025, 72 familiares das vítimas entraram com uma queixa criminal contra 15 pessoas, incluindo o CEO da Jeju Air, Kim E-bae, o ministro dos Transportes e funcionários do aeroporto, por negligência profissional. A polícia já havia interditado a saída do país de Kim E-bae em janeiro, e buscas foram realizadas na sede da companhia e no aeroporto de Muan.
- Ações tomadas pelo governo e pela Jeju Air:
- Inspeção de todos os Boeing 737-800 no país.
- Revisão de barreiras em sete aeroportos.
- Redução de voos para reforço na manutenção.
- Investigação criminal contra executivos e autoridades.
Histórico da Jeju Air e lições aprendidas
Fundada em 2005, a Jeju Air é a terceira maior companhia aérea da Coreia do Sul, atrás da Korean Air e da Asiana Airlines. Até o acidente de 2023, a empresa não registrava fatalidades em seus 19 anos de operação. O Boeing 737-800 acidentado, fabricado em 2009, havia sido adquirido em 2017 após operar pela Ryanair. Inspeções realizadas antes do voo não indicaram problemas mecânicos, segundo a companhia.
O desastre reacendeu debates sobre a preparação de pilotos para situações de emergência. Casos semelhantes, como o acidente da Kegworth em 1989 e o da TransAsia em 2015, mostraram que erros na identificação do motor danificado podem levar a consequências catastróficas. A formação para cenários de alta pressão, como bird strikes, está sendo revisada para evitar decisões precipitadas.
- Lições de acidentes anteriores:
- Kegworth (1989): pilotos desligaram o motor funcional, causando a queda.
- TransAsia (2015): erro semelhante levou à perda de potência.
- Necessidade de treinamento para identificação rápida de danos.
- Importância de sistemas redundantes para trem de pouso.
Próximos passos da investigação
A ARAIB planeja realizar audiências públicas e incorporar mais dados antes do relatório final, previsto para junho de 2026. A análise do gravador de voz da cabine, enviado aos Estados Unidos, pode esclarecer as comunicações dos pilotos nos momentos finais. Além disso, a colaboração com especialistas da Boeing, da Administração Federal de Aviação dos EUA e da NTSB (National Transportation Safety Board) deve trazer mais detalhes sobre os fatores técnicos e humanos envolvidos.
A tragédia também gerou um impacto significativo na Jeju Air, com cerca de 68 mil reservas canceladas após o acidente, segundo a agência Yonhap. A confiança do público na companhia e na segurança da aviação sul-coreana foi abalada, exigindo esforços para restaurar a credibilidade.
- Foco da investigação futura:
- Análise detalhada dos gravadores de voo e voz.
- Estudo da infraestrutura do aeroporto de Muan.
- Revisão dos procedimentos de emergência da Jeju Air.
- Avaliação das medidas de controle de aves no local.
A tragédia do voo 2216 continua a mobilizar a sociedade sul-coreana, com famílias exigindo justiça e mudanças estruturais para evitar futuros desastres. A combinação de erro humano, falhas de infraestrutura e alta incidência de bird strikes destaca a complexidade dos acidentes aéreos e a necessidade de melhorias contínuas na segurança da aviação.







