Corinthians inicia entrega de relatórios financeiros ao MP em apuração de gastos de ex-presidentesPor Beatriz
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O Sport Club Corinthians Paulista iniciou nesta segunda-feira, 8 de setembro de 2025, a entrega de documentos financeiros abrangendo os anos de 2018 a 2025 ao Ministério Público de São Paulo, atendendo a requisições feitas há mais de um mês pela promotoria. Essa ação ocorre no âmbito de um procedimento investigatório criminal que apura suspeitas de uso irregular de cartões corporativos durante as gestões dos ex-presidentes Andrés Sanchez, Duilio Monteiro Alves e Augusto Melo, com foco em possíveis crimes como apropriação indébita, estelionato e falsidade ideológica. O material, que inclui relatórios de despesas e faturas, foi protocolado diretamente na Justiça para preservar o sigilo fiscal, e o clube justificou a demora pela subtração de parte dos arquivos durante uma invasão à sede no Parque São Jorge em 31 de maio. A medida visa esclarecer movimentações questionáveis, como gastos em itens pessoais e pagamentos a empresas possivelmente irregulares, e reforça o compromisso do Corinthians em colaborar integralmente com as autoridades para manter a transparência administrativa.
A apuração ganhou ímpeto após denúncias públicas sobre despesas que não se relacionavam diretamente com atividades institucionais do clube, levando o promotor Cássio Roberto Conserino a instaurar o procedimento em 30 de julho. Inicialmente voltado para as administrações de Sanchez e Monteiro Alves, o escopo se estendeu à gestão de Melo, incorporando análises de prestações de contas e quebras de sigilo solicitadas à Justiça.
- Principais gastos sob análise incluem mais de R$ 86 mil em compras pessoais, como produtos de beleza e medicamentos, registradas entre setembro e outubro de 2023.
- Pagamentos a um minimercado supostamente inativo somaram R$ 32 mil em duas semanas de outubro de 2023, levantando indícios de fachada.
- Andrés Sanchez admitiu uso pessoal do cartão em 2020, mas alegou reembolso integral de R$ 15 mil em despesas de viagem.
Esses elementos destacam a complexidade da investigação, que busca mapear padrões de conduta financeira ao longo de sete anos.
Detalhes da investigação em curso
O procedimento investigatório criminal, aberto pelo Ministério Público de São Paulo, concentra-se em despesas presidenciais que ultrapassam limites esperados para fins corporativos, abrangendo um período marcado por instabilidades financeiras no clube. Durante a gestão de Duilio Monteiro Alves, de 2021 a 2023, relatórios internos revelaram planilhas com R$ 80 mil em gastos em apenas 40 dias, incluindo itens como cervejas e serviços sem justificativa clara. O promotor Conserino, em audiências realizadas em agosto, ouviu testemunhas como o presidente interino Osmar Stabile e o superintendente financeiro Roberto Gavioli, que comprometeu-se a fornecer dados, mas enfrentou atrasos na entrega.
A extensão da apuração para Augusto Melo, que presidiu de janeiro de 2024 a maio de 2025, ocorreu após depoimentos iniciais indicarem padrões semelhantes, embora sua defesa afirme que ele nunca utilizou o cartão pessoalmente. Em 21 de agosto, o MP requereu à Justiça o afastamento temporário dos três ex-presidentes de órgãos políticos do clube, como o Conselho Deliberativo e o de Orientação, para evitar interferências. Até o momento, não há decisão judicial sobre essa medida cautelar, mas o pedido fundamenta-se em riscos de obstrução, incluindo relatos de ameaças a testemunhas.
O clube, sob a gestão interina de Stabile, enfatizou em nota oficial que a colaboração é prioritária, especialmente após críticas do promotor à “inércia administrativa”. A invasão de 31 de maio, envolvendo torcedores e aliados de Melo, complicou a recuperação de arquivos físicos, forçando a reconstrução via sistemas digitais e bancos. Essa episódio, que incluiu a presença de policiais do Batalhão de Choque, reflete a tensão política no Parque São Jorge, onde disputas por poder culminaram em tentativas de reintegração de Melo ao cargo.

Histórico das gestões sob análise
Andrés Sanchez, que comandou o Corinthians de 2018 a 2020 em seu segundo mandato, enfrentou questionamentos iniciais sobre o uso do cartão em despesas de lazer, como em Tibau do Sul, no Rio Grande do Sul. Sua defesa argumenta que todas as contas foram aprovadas pelo Conselho e que reembolsos foram efetuados, destacando aprovações formais das prestações de contas. No entanto, o MP identificou mais de 170 transações nesse período, totalizando valores que demandam verificação detalhada.
Duilio Monteiro Alves, sucessor de Sanchez, liderou o clube entre 2021 e 2023, período de agravamento da dívida alvinegra, que ultrapassou R$ 2,5 bilhões segundo relatórios do Conselho de Orientação. A investigação ampliou-se para irregularidades em notas fiscais, como as emitidas pelo Oliveira Minimercado Ltda., uma empresa sem estrutura para os serviços declarados, como buffets. Denilson Grillo, ex-motorista de Duilio conhecido como “Carioca”, foi incluído como investigado por assinar documentos de prestação, e deve depor nos próximos dias. Monteiro Alves posicionou-se favoravelmente à apuração, solicitando acesso aos arquivos para esclarecimentos.
Augusto Melo, afastado por impeachment em maio de 2025 relacionado ao caso Vai de Bet, nega qualquer uso indevido do cartão durante sua curta gestão. Seu mandato foi marcado por crises, incluindo a rescisão unilateral do patrocínio de apostas estimado em R$ 40 milhões, após denúncias de lavagem de dinheiro e uso de laranja. A defesa de Melo enfatiza transparência e ausência de gastos pessoais, recebendo a investigação com “serenidade” para reforçar sua conduta ética.
Essas gestões sucessivas compartilham desafios financeiros herdados, como dívidas acumuladas desde 2015, mas o foco atual reside em práticas específicas de controle de despesas presidenciais.
Suspeitas de irregularidades financeiras
Movimentações atípicas chamaram atenção do MP desde a abertura do caso, com ênfase em compras que fogem do escopo institucional. Em outubro de 2023, sob Duilio, o clube registrou R$ 32 mil em um minimercado inoperante, sem cozinha industrial para os serviços faturados. Outros exemplos incluem pagamentos a lanchonetes e casas de chá, totalizando valores que sugerem uso pessoal, além de aquisições de produtos de beleza como babyliss e medicamentos.
- Estelionato e falsidade ideológica surgem em notas fiscais possivelmente frias, com endereços incompatíveis e assinaturas questionáveis.
- Apropriação indébita é apontada em despesas reembolsadas tardiamente ou não auditadas adequadamente.
- Furto qualificado e associação criminosa completam o rol, com indícios de rede para desvio sistemático de recursos.
O promotor Conserino, corintiano declarado, expressou frustração com a desorganização interna, recomendando a implementação de compliance e códigos de conduta. Em entrevista à Rádio Bandeirantes, ele mencionou “provas contundentes” de notas irregulares, lamentando a ausência de fiscalização rigorosa. O Santander, banco custodiante das contas, foi acionado para fornecer extratos, limitando depoimentos iniciais, mas comprometendo-se com a entrega.
Reações e impactos no clube
A nota oficial do Corinthians, divulgada nesta segunda, reafirma a disposição em fornecer mais materiais, priorizando a proteção da imagem institucional. Osmar Stabile, eleito para mandato-tampão até 2026, depôs como testemunha e defendeu reformas nos controles financeiros, alertando para infiltrações externas na política interna. Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, relatou ameaças em depoimento, atribuindo-as a grupos organizados, o que ampliou o clima de tensão.
Andrés Sanchez manifestou confiança na Justiça, afirmando que sua gestão seguiu padrões legais e que denúncias visam desestabilizar o clube. Duilio Monteiro Alves, por sua vez, protocolou notícia-crime contra a divulgação de documentos falsos e reiterou pedidos de auditoria. Augusto Melo, impedido de cargos políticos por dez anos devido ao impeachment, vê a apuração como oportunidade para validar sua integridade.
A investigação coincide com desafios esportivos, como o transfer ban imposto pela Fifa por dívidas com contratações, incluindo o zagueiro Félix Torres. Torcidas organizadas, como Gaviões da Fiel e Camisa 12, intensificaram protestos desde junho, invadindo o Parque São Jorge em demandas por reforma estatutária e punições a responsáveis por endividamentos. Essas ações, embora pacíficas em sua maioria, geraram evacuações e presença policial, destacando a insatisfação da Fiel Torcida.
Avanços na colaboração judicial
Com a entrega iniciada, o MP planeja analisar os arquivos para confrontar com depoimentos e extratos bancários. O promotor Conserino agendou novas oitivas, incluindo com ex-funcionários, para mapear fluxos de aprovação de despesas. A quebra de sigilo fiscal do Oliveira Minimercado, solicitada em agosto, visa confirmar sua operacionalidade, enquanto buscas por sigilos telefônicos de envolvidos podem ocorrer se indícios se solidificarem.
O Corinthians, em meio a uma dívida que pressiona renovações como a de Gustavo Henrique, usa a apuração para sinalizar governança aprimorada. Especialistas em direito esportivo observam que casos semelhantes em clubes brasileiros, como no Flamengo e Palmeiras, resultaram em condenações por desvios menores, reforçando a necessidade de transparência. A diretoria atual, com Stabile à frente, comprometeu-se com auditorias externas, visando mitigar riscos futuros.
- Implementação de software para rastreio de cartões corporativos, limitando acessos a itens essenciais.
- Treinamentos obrigatórios para dirigentes sobre compliance financeiro, inspirados em modelos da CBF.
- Relatórios mensais ao Conselho de Orientação, com veto a despesas acima de R$ 5 mil sem aprovação prévia.
Essas medidas, discutidas internamente, buscam alinhar o clube a padrões de gestão profissional, especialmente após escândalos como o Vai de Bet, que indiciou Melo por lavagem e furto.






