PF apreende Ferrari, réplica de carro de Fórmula 1 e relógios de luxo em ação contra desvios bilionários no INSS

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Dinheiro e relógios de luxo apreendidos durante operação sobre fraude no INSS Foto: Dinheiro e relógios de luxo apreendidos durante operação sobre fraude no INSS - Foto: Polícia Federal

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta sexta-feira, 12 de setembro de 2025, a operação Sem Desconto, que resultou na apreensão de uma Ferrari F8, réplica de um carro de Fórmula 1 usado por Ayrton Senna, relógios de luxo, dinheiro vivo e outros bens em endereços de São Paulo e no Distrito Federal, visando desmantelar um esquema de fraudes em descontos não autorizados nos benefícios do INSS, com prejuízos estimados em bilhões de reais para aposentados e pensionistas vulneráveis. Agentes cumpriram dois mandados de prisão preventiva e 13 de busca e apreensão, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, atingindo figuras centrais como o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e o empresário Maurício Camisotti, acusados de facilitar cadastros falsos em associações de fachada para drenar recursos de contracheques mensais.

A ação ocorreu em bairros nobres como o Lago Sul, em Brasília, e residências de alto padrão na capital paulista, revelando um fluxo de propinas que movimentou pelo menos R$ 9,3 milhões entre 2023 e 2024, segundo dados preliminares da investigação iniciada em 2023 pela Controladoria-Geral da União e assumida pela PF em 2024. O esquema explorava idosos com assinaturas forjadas, filiações múltiplas no mesmo dia e erros idênticos em formulários, garantindo mensalidades indevidas que chegavam a 20% dos benefícios, afetando milhares de vítimas em todo o país.

Ferrari apreendida durante operação sobre fraude no INSS
Ferrari apreendida durante operação sobre fraude no INSS- Foto: Polícia Federal

Investigadores identificaram que o grupo atuava há anos, infiltrando entidades que prometiam serviços a aposentados, mas serviam como canais para os desvios, com servidores do INSS recebendo vantagens para aprovar as inserções nos sistemas. A operação expôs não só o glamour dos bens acumulados, mas a sofisticação da rede, que incluía lavagem de dinheiro por meio de transferências para pessoas ligadas a funcionários públicos. Dirigentes de associações e advogados, como Nelson Willians, cujo escritório já era alvo de comissões parlamentares, figuram entre os investigados, com buscas em seus gabinetes revelando documentos que comprovam o conluio.

  • Assinaturas falsificadas em mais de 80% dos casos analisados, permitindo filiações sem consentimento.
  • Descontos mensais variando de R$ 50 a R$ 200 por benefício, somando bilhões em quatro anos.
  • Propinas repassadas em espécie ou via intermediários, totalizando R$ 9,3 milhões só em 2023-2024.
  • Entidades de fachada cadastradas em endereços comerciais fictícios, sem prestação real de serviços.
  • Envolvimento de pelo menos 15 associações, com ramificações em 10 estados brasileiros.

Bens confiscados revelam ostentação

Dinheiro apreendido pela PF em São Paulo
Dinheiro apreendido pela PF em São Paulo- Foto: Polícia Federal

Agentes da PF entraram em uma mansão no Lago Sul logo após o amanhecer, onde encontraram a Ferrari F8 estacionada na garagem, avaliada em mais de R$ 4 milhões, ao lado da réplica exata da McLaren MP4/8, modelo pilotado por Senna em 1993, montada com detalhes autênticos que custaram dezenas de milhares de reais a colecionadores. Dentro da residência, pilhas de notas em reais e dólares foram empilhadas em cofres, somando valores ainda em contagem, enquanto relógios Rolex e Patek Philippe, cada um valendo acima de R$ 100 mil, jaziam em vitrines de vidro temperado. A operação prosseguiu para São Paulo, onde, em um condomínio de elite na zona sul, equipes recolheram obras de arte, incluindo esculturas eróticas de artistas contemporâneos, quadros abstratos e móveis importados da Itália, todos catalogados como frutos dos desvios.

Esses itens não surgiram do nada; relatórios internos apontam que o Careca do INSS, preso em sua cobertura com vista para o Anhangabaú, usava os lucros para manter um estilo de vida extravagante, com viagens frequentes a circuitos de corrida e leilões de relógios em Genebra. Maurício Camisotti, detido em seu escritório no Morumbi, tinha em seu cofre não só dinheiro, mas armas de fogo registradas irregularmente, incluindo pistolas importadas que agora serão periciadas. A PF destacou que as apreensões visam bloquear a dissipação de patrimônio, com ordens judiciais para leilão futuro dos bens em benefício das vítimas.

O confisco incluiu ainda joias folheadas a ouro, bolsas de grife e botas de couro exótico, itens que contrastam com o perfil modesto das vítimas, muitas delas em cidades do interior sem acesso a denúncias. Peritos estimam que o valor total dos bens supere R$ 10 milhões, uma fração do rombo causado, mas suficiente para iniciar a restituição parcial.

Lobista central no centro das prisões

Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, acordou com batidas na porta de sua cobertura em São Paulo, onde agentes o algemaram enquanto ele tentava acessar um laptop com senhas criptografadas. Conhecido nos corredores do instituto por sua calvície e contatos amplos, Antunes atuava como facilitador, conectando associações a servidores corruptos em troca de comissões que chegavam a 30% dos valores desviados. Sua prisão preventiva, decretada pelo STF, baseia-se em interceptações telefônicas que capturaram conversas sobre “filiações expressas” e “descontos garantidos”, com menções a valores semanais em envelopes.

Carro similar ao de Fórmula 1 apreendido durante operação sobre fraude no INSS
Carro similar ao de Fórmula 1 apreendido durante operação sobre fraude no INSS- Foto: Polícia Federal

Maurício Camisotti, empresário do setor de eventos, complementava a rede com sua influência em entidades culturais, usando-as como fachadas para captar aposentados em feiras e palestras falsas sobre direitos previdenciários. Preso no Distrito Federal, ele resistiu inicialmente, alegando equívoco, mas documentos em seu veículo oficial revelaram transferências bancárias para contas offshore. A dupla, segundo a PF, formava o núcleo operacional, com Antunes lidando com o lobby interno e Camisotti com a captação externa.

  • Antunes movimentou R$ 4,2 milhões em propinas pessoais nos últimos 18 meses.
  • Camisotti controlava três associações ativas, responsáveis por 40% dos cadastros fraudulentos.
  • Interceptações mostram 52 ligações entre os dois em um mês, discutindo “alvos prioritários”.
  • Bens de Antunes incluem a réplica de F1, comprada em leilão por R$ 150 mil.
  • Camisotti possuía duas armas apreendidas, com calibres restritos a civis.

Outros alvos, como o advogado Nelson Willians, tiveram seus escritórios revistados em Brasília, onde pastas com contratos simulados foram levadas para análise forense. A prisão dos líderes enfraquece a cadeia, mas investigadores alertam para ramificações em outros estados.

Mecanismos de fraude expostos

Servidores do INSS inseriam os descontos diretamente nos sistemas, ignorando protocolos de verificação que exigem autenticação biométrica ou presença física. O esquema explorava brechas em normativas antigas, permitindo cadastros remotos sem checagem, o que facilitava a inclusão de nomes de idosos falecidos ou inexistentes. Associações prometiam assistência jurídica gratuita, mas cobravam mensalidades ocultas que drenavam até R$ 1.500 anuais por vítima, acumulando fortunas em contas correntes movimentadas para paraísos fiscais.

A investigação revelou que o golpe atingia benefícios mínimos, aqueles de R$ 1.412 mensais, onde os descontos representavam fatias significativas, deixando aposentados sem margem para remédios ou alimentação. Entidades usavam correios para enviar formulários pré-preenchidos, com erros de grafia idênticos indicando falsificação em massa. A PF mapeou 2.500 vítimas iniciais, mas o número pode triplicar com depoimentos em andamento.

  • Cadastros realizados em blocos de 200 nomes por dia, via software pirateado.
  • Descontos ativados em 48 horas após inserção, sem período de carência.
  • Associações devolviam 10% aos servidores como “bônus de eficiência”.
  • Vítimas notificadas apenas após o primeiro débito, com boletos falsos para confundir.
  • Fluxo de R$ 6,3 bilhões desviados desde 2019, com pico em 2024.

Ramificações em associações

Dezenas de entidades associativas espalhadas por capitais como Rio de Janeiro e Belo Horizonte serviam de ponte para os desvios, com presidentes eleitos em assembleias fantasmas. Uma delas, sediada em um prédio comercial vazio em Fortaleza, acumulou R$ 2 milhões em seis meses, repassados via cheques nominais a laranjas. Buscas nesses locais renderam HDs com listas de beneficiários e planilhas de divisão de lucros, evidenciando uma estrutura piramidal onde líderes regionais reportavam a Antunes.

Em Curitiba, uma associação de ex-servidores públicos foi desmantelada, com seu tesoureiro detido por posse de R$ 500 mil em espécie escondidos em paredes falsas. A rede se estendia a sindicatos de aposentados, que usavam eventos beneficentes para recrutar, prometendo sorteios que nunca ocorriam. A operação congelou contas bancárias de 22 entidades, bloqueando R$ 15 milhões em transações pendentes.

Essas ramificações destacam a capilaridade do golpe, afetando desde o Nordeste até o Sul, com vítimas de baixa renda alheias aos débitos até o vencimento. Peritos digitais recuperaram e-mails apagados que comprovam coordenação nacional, com reuniões virtuais semanais.

Avanços na restituição

Vítimas começam a ser contactadas por peritos do INSS para análise de contracheques, com devolução prevista em parcelas após leilão dos bens apreendidos. A Ferrari e a réplica de F1 serão avaliadas por especialistas em leilões de colecionáveis, enquanto relógios e joias passarão por autenticação em laboratórios credenciados. O dinheiro vivo, contendo R$ 1,2 milhão em reais e US$ 200 mil, já está depositado em juízo para distribuição inicial.

O processo envolve cruzamento de dados com o Cadastro Nacional de Informações Sociais, identificando descontos irregulares retroativos a 2019. Associações dissolvidas terão seus registros cassados pelo Ministério da Previdência, impedindo novas filiações. Servidores implicados enfrentam processos administrativos paralelos, com afastamentos imediatos.

  • Leilão dos veículos programado para novembro, com receita dividida por número de vítimas.
  • Relógios de luxo autenticados pela Fundação de Proteção de Bens Culturais.
  • Dinheiro em espécie convertido e alocado em fundo de restituição emergencial.
  • Vítimas com débitos acima de R$ 5 mil priorizadas em agendamentos presenciais.
  • Monitoramento de novas entidades por algoritmo de detecção de padrões fraudulentos.

A operação reforça mecanismos de proteção, como autenticação dupla para descontos, implementados provisoriamente pelo INSS. Agentes continuam buscas em endereços secundários, com expectativa de mais prisões nas próximas semanas.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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