Assassinatos para rituais de magia aterrorizam Serra Leoa com tráfico de órgãos humanos

3 min de leitura
Mapa Serra Leoa Foto: Mapa Serra Leoa - Denis Kvarda/shutterstock.com

Investigação conduzida pela BBC Africa Eye revelou a existência de redes que oferecem partes de corpos humanos para rituais de magia em Serra Leoa. Dois praticantes de juju aceitaram fornecer órgãos e membros em troca de pagamento, alegando atender clientes poderosos da África Ocidental. Os crimes, conhecidos como assassinatos para ritual, permanecem impunes na maioria dos casos devido à falta de recursos policiais e crenças internas nas forças de segurança.

Casos de mutilação ocorrem com frequência no país, especialmente em períodos eleitorais. Crianças e adultos aparecem mortos com órgãos retirados, como olhos, braços e genitais. A população de 8,9 milhões conta com apenas um médico-legista, o que impede autópsias adequadas.

Redes oferecem corpos por até US$ 3 mil

Um praticante identificado como Kanu, em área remota de Kambia, cobrou 70 milhões de leones (cerca de US$ 3 mil) por uma mulher completa destinada a ritual. Ele exibiu crânio humano e indicou local onde partes do corpo são penduradas após abate.

Em Waterloo, subúrbio de Freetown, outro suspeito chamado Idara afirmou comandar 250 herbalistas. Ele recebeu pedido disfarçado e informou que sua equipe já havia identificado vítima para captura noturna.

A operação policial resultou na prisão de Idara e dois comparsas em junho passado. Foram encontrados ossos, cabelos humanos e substâncias de cemitério na residência.

Impunidade atinge maioria dos casos

O menino Papayo, de 11 anos, foi encontrado mutilado em poço de Makeni há quatro anos. Órgãos vitais, olhos e braço haviam sido removidos. Ninguém foi condenado até hoje.

Em maio de 2025, Fatmata Conteh, 28 anos, apareceu morta à beira de estrada na mesma cidade. Dentes frontais faltavam, indício comum de crime ritual segundo moradores. A autópsia foi inconclusiva.

Autoridades enfrentam falta de estrutura básica. Apenas mil médicos registrados atendem o país inteiro, contra 45 mil curadores tradicionais, segundo dados da OMS de 2022.

Serra Leoa é um dos países mais pobres do mundo e ainda se recupera do legado de uma violenta guerra civil de 11 anos (1991-2002)
Serra Leoa é um dos países mais pobres do mundo e ainda se recupera do legado de uma violenta guerra civil de 11 anos (1991-2002) – Reprodução/BBC

Polícia depende de curadores tradicionais

Agentes admitem medo de investigar praticantes de juju por crença em poderes sobrenaturais. Operações contra suspeitos só ocorrem com presença de líderes de curadores tradicionais.

Sheku Tarawallie, presidente do Conselho de Curadores Tradicionais, participa de batidas policiais. Ele afirma que criminosos mancham a imagem da medicina tradicional legítima.

Tarawallie encontrou evidências em Waterloo suficientes para prisão temporária dos suspeitos. Os acusados respondem em liberdade desde então.

Crença em bruxaria dificulta investigações

Grande parte dos policiais mantém crenças em feitiçaria, segundo relatos internos. Casos ficam sem solução por receio de retaliação sobrenatural.

Pesquisador Emmanuel Sarpong Owusu estima que 90% dos autores de assassinatos rituais nunca são presos em países africanos. Crimes aparecem como acidentes ou mortes naturais nos registros oficiais.

Período eleitoral aumenta risco de sequestros

Pais recebem alertas extras durante campanhas políticas. Praticantes alegam maior demanda por partes humanas para garantir vitória de candidatos.

Kanu afirmou receber políticos de Guiné, Senegal e Nigéria em seu santuário às vésperas de eleições. Ele garantiu capacidade de fornecer qualquer parte do corpo solicitada.

A investigação da BBC entregou gravações e localizações às autoridades de Kambia e Freetown. Até o momento não houve retorno sobre avanços nas apurações.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

Notícias relacionadas