Jornada de trabalho no varejo: o avanço do modelo 5×2 e suas implicações para o salário
A discussão sobre o formato da jornada de trabalho no Brasil, especialmente no setor varejista, ganhou um novo capítulo com a crescente adoção da escala 5×2. Este modelo, que prevê cinco dias de trabalho e dois de folga, tem sido testado e implementado por diversas empresas como uma estratégia para melhorar a retenção de funcionários e o ambiente interno. A mudança representa um contraste significativo em relação à tradicional escala 6×1, onde os trabalhadores desfrutam de apenas um dia de descanso semanal.
Apesar do entusiasmo em torno da migração, é fundamental compreender que essa alteração não se tornou uma regra nacional. A decisão de substituir a jornada 6×1 pelo 5×2 ainda reside exclusivamente nas empresas ou depende de acordos coletivos estabelecidos com os sindicatos. Portanto, a transição não é automática e o trabalhador não possui um direito imediato a ela, mesmo com o debate público intensificado sobre o tema.
O ano vigente de 2026 marca um período de experimentação e consolidação dessas novas práticas no varejo. Enquanto a legislação trabalhista brasileira continua a permitir o regime 6×1, muitas redes estão optando por flexibilizar suas operações, buscando um equilíbrio entre a produtividade e a qualidade de vida de seus colaboradores. Esse movimento é impulsionado por uma série de fatores, incluindo a necessidade de atrair e manter talentos em um mercado cada vez mais competitivo.
O avanço da escala 5×2: iniciativas pioneiras no varejo
A transição para o modelo 5×2, embora não seja imposta por lei, tem sido abraçada por importantes players do varejo brasileiro. Essas empresas identificaram na nova jornada uma oportunidade de fortalecer seus quadros de funcionários e criar um ambiente de trabalho mais favorável. A iniciativa parte delas, como uma decisão estratégica de gestão.
Entre os nomes que já implementaram ou estão testando o formato, destacam-se o Grupo Savegnago, que expandiu o 5×2 para suas lojas da bandeira Savegnago e para o Paulistão Atacadista. A Rede Pague Menos (supermercados) também aderiu ao modelo, com o objetivo claro de melhorar a retenção de talentos e o clima organizacional, percebendo o impacto positivo na satisfação da equipe.
Outras redes importantes seguiram caminho semelhante. A Coop – Cooperativa de Consumo, por exemplo, adotou o modelo em todas as suas drogarias, demonstrando um compromisso com o bem-estar de seus colaboradores. O Supermercado do Frade optou por uma implantação gradual em suas diversas unidades, enquanto o Grupo UNI-X, que engloba as redes Enxuto e Flex Atacarejo, iniciou projetos-piloto para avaliar a eficácia do novo regime.
Regiões em destaque na transição
A maior concentração de testes e implantações do modelo 5×2 no varejo está no estado de São Paulo, o que reflete a densidade comercial e a intensa concorrência por mão de obra qualificada na região. Diversas cidades paulistas já testemunham a aplicação do novo regime.
Municípios do interior como Campinas, Sumaré, Hortolândia, Barretos, Sertãozinho e Franca registraram a adoção, assim como o litoral norte, com unidades em Ilhabela. A região do ABC Paulista, São José dos Campos, Sorocaba, Piracicaba e Tatuí também estão entre os locais onde a escala 5×2 já é uma realidade para alguns trabalhadores. Fora do eixo paulista, no Sul do país, especialmente no Rio Grande do Sul, redes varejistas igualmente iniciaram testes com o modelo, buscando atrair mais trabalhadores e fortalecer suas equipes, evidenciando uma tendência que se espalha.
É obrigatório mudar? Entenda a legislação vigente da jornada de trabalho
Apesar da crescente popularidade da escala 5×2, é crucial esclarecer a situação legal para os trabalhadores. Até o presente momento, a legislação federal não impõe nenhuma obrigação às empresas para que substituam a tradicional jornada 6×1 pelo modelo 5×2. Isso significa que a escolha de implementar ou não o novo formato é uma prerrogativa da empresa.
A manutenção do regime 6×1 é plenamente permitida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), desde que a empresa respeite integralmente a jornada legal, os intervalos para descanso e alimentação, e o direito ao descanso semanal remunerado. Portanto, a decisão de migrar para a escala 5×2 depende exclusivamente de uma deliberação interna da companhia ou, em alguns casos, de um acordo coletivo firmado entre a empresa e o sindicato da categoria profissional.
Impacto financeiro da mudança: o salário na mira
Uma das maiores preocupações dos trabalhadores ao se discutir a migração de escalas é o possível impacto no salário. A dúvida mais comum é se a mudança do 6×1 para o 5×2 resultaria em uma redução dos rendimentos mensais. Em geral, a boa notícia é que, na maioria dos casos, a transição para o modelo 5×2 não implica uma diminuição do salário base do empregado.
Isso ocorre porque o salário mensal é calculado com base na carga horária semanal ou mensal contratual, e não necessariamente no número de dias trabalhados. Assim, se a carga horária semanal total for mantida, o valor do salário permanecerá o mesmo. O que muda, na verdade, é a distribuição dessas horas ao longo da semana, concentrando-as em menos dias.
Entretanto, é importante estar ciente de que podem surgir alterações indiretas na composição da remuneração total. Por exemplo, a reorganização dos turnos pode levar à redução da necessidade de realizar horas extras, caso o novo arranjo otimize a operação e diminua a demanda por jornadas prolongadas.
Além disso, a migração pode impactar o gerenciamento do banco de horas, que precisará ser readequado às novas diretrizes de folgas e horários. Eventuais readequações de turnos e folgas também são aspectos a serem considerados, podendo influenciar adicionais noturnos ou outros benefícios vinculados a regimes específicos. Cada empresa, portanto, define o formato mais adequado com base em sua própria operação e necessidades.
Vantagens estratégicas: por que as empresas estão adotando o 5×2?
A adoção da escala 5×2 por redes varejistas não é uma simples concessão aos trabalhadores, mas sim uma estratégia de gestão com múltiplos objetivos. O setor do varejo, conhecido por sua alta rotatividade de funcionários, busca incessantemente métodos para reduzir esse índice, que gera custos com recrutamento, treinamento e perda de produtividade. Um modelo de jornada mais atraente, como o 5×2, torna-se um diferencial competitivo crucial.
Melhorar a satisfação dos funcionários é outro pilar fundamental. Colaboradores mais satisfeitos tendem a ser mais engajados, produtivos e, consequentemente, contribuem para um melhor atendimento ao cliente e para a imagem positiva da empresa. A possibilidade de ter dois dias consecutivos de folga permite aos trabalhadores um maior tempo de descanso e lazer, favorecendo o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Este fator é cada vez mais valorizado, especialmente por gerações mais jovens, que buscam flexibilidade e bem-estar no ambiente de trabalho.
Adicionalmente, o varejo enfrenta a constante dificuldade de contratação de mão de obra qualificada e comprometida. Ao oferecer uma jornada de trabalho que se alinha às expectativas modernas dos profissionais, as empresas conseguem atrair um número maior de candidatos e reter talentos que, de outra forma, poderiam buscar oportunidades em setores com condições de trabalho consideradas mais favoráveis. É uma resposta direta às demandas do mercado de trabalho atual, onde a competitividade vai além do salário e inclui benefícios e qualidade de vida.
O futuro das jornadas: debates e expectativas
O debate sobre a flexibilização das jornadas de trabalho, especialmente a transição para o modelo 5×2 no varejo, deve continuar a crescer. A experiência das empresas pioneiras serve como um laboratório, cujos resultados serão cruciais para futuras discussões e possíveis novas regulamentações.
Perspectivas para o trabalhador do varejo
Para o trabalhador que atualmente está no regime 6×1, é fundamental compreender que a migração para o 5×2 não é um direito automático. A mudança só ocorrerá se a empresa empregadora decidir adotar esse formato ou se houver um acordo coletivo específico com o sindicato da categoria que contemple tal alteração. Portanto, a proatividade em buscar informações junto ao departamento de RH da empresa ou ao sindicato é essencial para entender as políticas vigentes.
Apesar da ausência de uma obrigação legal, a tendência de adoção do 5×2 por iniciativa das empresas, especialmente nas regiões com projetos-piloto, pode pressionar outras companhias a seguir o mesmo caminho. A melhoria na qualidade de vida dos empregados, com mais tempo para descanso e atividades pessoais, torna-se um atrativo poderoso e um fator de competitividade no mercado de trabalho. Permanecer informado sobre essas movimentações do setor é a melhor forma de se preparar para eventuais mudanças e reivindicar melhores condições de trabalho quando a oportunidade surgir.
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