Decisão de Beirute proíbe operações do Hezbollah e mobiliza exército para desarmamento no sul
O governo do Líbano oficializou nesta segunda-feira, 2 de março, uma determinação histórica que classifica como ilegais todas as atividades de caráter militar e de segurança conduzidas pelo grupo Hezbollah. A medida exige a entrega imediata de todo o arsenal bélico da organização ao Estado, marcando uma ruptura na política de convivência entre as forças armadas nacionais e a milícia xiita que perdurava há décadas no cenário político do país.
A ordem executiva foi assinada após uma reunião de emergência do gabinete em Beirute, motivada pela recente troca de hostilidades na fronteira sul. O primeiro-ministro Nawaf Salam instruiu os órgãos de segurança a restringirem a atuação do grupo exclusivamente à esfera política, vetando qualquer movimentação tática ou logística que envolva armamentos.

O presidente Joseph Aoun declarou que a soberania nacional depende da centralização das decisões de guerra e paz nas mãos das instituições estatais. Segundo o mandatário, o lançamento de foguetes a partir de zonas não autorizadas colocou a população civil em risco e violou os protocolos de segurança estabelecidos pelo Exército libanês nas áreas próximas ao rio Litani.
Esta nova diretriz governamental surge em um momento de extrema fragilidade regional, com o objetivo declarado de evitar que o Líbano seja arrastado para um conflito de larga escala. As autoridades de Beirute buscam, com essa ação, retomar o controle territorial e assegurar à comunidade internacional que o país está comprometido com a estabilidade e a neutralidade em disputas externas.
Implementação do desarmamento e controle militar
O plano de ação estipulado pelo governo envolve o destacamento de unidades do Exército para monitorar rigorosamente as zonas ao norte do rio Litani, impedindo operações de grupos paramilitares. A estratégia inclui a fiscalização de rotas de suprimentos e a ocupação de pontos estratégicos anteriormente utilizados para o lançamento de projéteis.
Fontes ligadas ao Ministério da Defesa indicam que a prioridade é evitar o vácuo de poder em áreas onde o Hezbollah mantinha forte influência. A transição de autoridade visa garantir a segurança das comunidades locais, que temem ficar desprotegidas diante das incursões aéreas frequentes na região.
A logística para o recolhimento de armas apresenta desafios significativos, dado o volume do arsenal acumulado pelo grupo ao longo dos anos. O governo promete atuar com firmeza, mas também com cautela, para evitar confrontos internos que poderiam desestabilizar ainda mais a situação social e econômica do país.
Escalada de violência e resposta israelense
O estopim para a decisão governamental foi a série de eventos ocorridos no domingo, 1º de março, quando mísseis e drones foram disparados contra o território israelense. A ação, reivindicada como defensiva, provocou uma resposta militar contundente por parte de Israel, que realizou mais de 70 ataques aéreos em solo libanês em menos de 24 horas.
Os bombardeios atingiram infraestruturas críticas em Beirute e no sul do país, resultando em um saldo trágico de pelo menos 52 mortos. Entre as vítimas estariam lideranças de facções aliadas e civis que residiam próximos aos alvos militares, gerando uma crise humanitária imediata e a sobrecarga dos hospitais na capital e arredores.
Relatos de moradores de Baabda descrevem explosões sequenciais que danificaram edifícios residenciais, evidenciando a intensidade da retaliação. O governo libanês condenou a destruição causada pelos ataques aéreos, mas reiterou que a solução para cessar as hostilidades passa obrigatoriamente pelo desarmamento interno e pelo respeito às resoluções internacionais.
Repercussão diplomática e Resolução 1701
A comunidade internacional reagiu prontamente ao anúncio de Beirute. A União Europeia manifestou apoio integral à iniciativa de restringir o Hezbollah às atividades políticas, alinhando-se aos esforços para a implementação total da Resolução 1701 da Organização das Nações Unidas (ONU). O documento, datado de 2006, prevê a desmilitarização da zona entre a Linha Azul e o rio Litani.
- Diplomatas ocidentais reforçam a necessidade de fortalecer as Forças Armadas Libanesas com financiamento e treinamento.
- A Arábia Saudita e outros países do Golfo discutem a ampliação da cooperação militar para sustentar a autoridade do Estado.
- O Irã, tradicional aliado do grupo xiita, manteve-se inicialmente em silêncio, enquanto analistas avaliam o impacto na influência de Teerã na região.
- Observadores da ONU continuam monitorando a fronteira, reportando violações diárias de ambos os lados do conflito.
A conferência prevista para ocorrer em Paris, ainda neste mês de março, ganha novos contornos com a decisão do governo libanês. O encontro deve focar na captação de recursos para viabilizar a operacionalização do desarmamento e na reconstrução das áreas afetadas pelos bombardeios recentes.
Impactos políticos e sociais internos
A proibição das atividades armadas do Hezbollah altera profundamente o equilíbrio de forças dentro do Líbano. O grupo, que detém representação parlamentar e ministerial, enfrenta agora o desafio de redefinir sua atuação sob a pressão legal do Estado e a vigilância internacional. A medida testa a coesão do governo e a capacidade das instituições de imporem a lei em todo o território.
Nas ruas, a população se divide entre o apoio à restauração da soberania estatal e o receio de que a medida deixe o país vulnerável a ameaças externas. Comunidades do sul, historicamente ligadas à resistência, expressam preocupação com a segurança imediata, exigindo garantias de que o Exército nacional será capaz de preencher as lacunas defensivas.
O cenário permanece volátil, com alertas de evacuação emitidos para diversas localidades. A eficácia da proibição dependerá da cooperação das diversas facções políticas e da sustentação do apoio internacional, enquanto o país busca evitar a repetição dos ciclos de violência que marcaram sua história recente.













