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A República Popular da China manifestou publicamente sua “extrema irritação” diante do aumento das tensões geopolíticas no Estreito de Ormuz. A escalada de incidentes na região, uma rota marítima vital para o transporte global de petróleo, coloca o Irã em uma posição delicada, especialmente considerando que a China é seu principal cliente no Oriente Médio para a commodity.

O cenário de instabilidade regional tem reverberado diretamente nos mercados globais. Os preços do petróleo bruto experimentaram uma alta significativa, com o valor futuro do Brent, um importante referencial internacional, superando brevemente a marca de US$ 115 por barril.

Em um reflexo direto dessa conjuntura, o governo chinês, através da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, equivalente ao gabinete ministerial, anunciou um reajuste nos preços dos combustíveis em 9 de março de 2025, com efeito no dia seguinte. O preço médio nacional da gasolina comum teve um acréscimo de aproximadamente 0,55 yuan por litro, elevando o valor médio de varejo para cerca de 7,5 yuan, o que representa um aumento de quase 27 yuan para um tanque de 50 litros.

A escalada das tensões e seu impacto global

A escalada das tensões no Estreito de Ormuz não impactou apenas a China. Países asiáticos, muitos dos quais são importadores líquidos de petróleo, estão sentindo o peso do aumento dos preços dos combustíveis. No Vietnã, por exemplo, que possui reservas de petróleo limitadas, relatos indicam a formação de longas filas nos postos de gasolina da capital, Hanói, evidenciando a apreensão dos cidadãos.

A situação reflete uma vulnerabilidade generalizada na região. A interrupção ou ameaça de interrupção do fluxo de petróleo em rotas críticas como Ormuz pode desestabilizar economias e gerar incerteza em diversos setores, forçando governos a agir rapidamente para mitigar os impactos internos.

A dependência chinesa do petróleo do Oriente Médio

A China, a segunda maior economia do mundo e uma potência industrial, mantém uma profunda dependência do petróleo bruto proveniente do Oriente Médio. De acordo com estimativas do Energy Institute (EI), uma respeitada organização internacional de pesquisa com sede em Londres, em 2024, as importações chinesas de petróleo bruto da região representaram cerca de 57% do total. Essa estatística sublinha o quão vulnerável a economia chinesa se torna diante de qualquer instabilidade que possa afetar o Estreito de Ormuz, uma passagem estratégica pela qual grande parte desse volume é transportada.

A possibilidade de um bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, ou a destruição de instalações de produção e refino de petróleo nos países do Golfo, representa uma ameaça existencial para a segurança energética da China. Pequim tem trabalhado para diversificar suas fontes, mas o volume e a proximidade do petróleo do Oriente Médio tornam essa região insubstituível a curto e médio prazo. Além disso, é um “segredo aberto” que a China importa uma quantidade considerável de petróleo bruto do Irã. Embora não haja dados oficiais publicamente divulgados devido às sanções ocidentais contra o petróleo iraniano, especialistas estimam que o Irã seja responsável por cerca de 10% das importações totais de petróleo bruto da China, constituindo aproximadamente metade do volume que a China classifica como importações de “outros países do Oriente Médio”. Essa importação, não negada publicamente por Pequim, evidencia a profunda e complexa relação entre os dois países, apesar das pressões internacionais.

Dificuldades na transição para o petróleo russo

Diante de uma potencial interrupção no fornecimento de petróleo do Oriente Médio, a China poderia considerar o aumento substancial de suas importações de petróleo bruto russo como uma alternativa. Contudo, essa transição apresenta desafios significativos que vão além da simples realocação de fontes. A capacidade de transporte é o principal obstáculo.

As exportações de petróleo bruto da Rússia para a China são predominantemente realizadas através do oleoduto ESPO (Sibéria Oriental-Oceano Pacífico). Apesar de sua importância, a capacidade do ESPO é limitada e, por si só, seria insuficiente para compensar uma eventual e crítica escassez de petróleo do Oriente Médio. Uma alternativa seria o aumento das importações por meio de navios-tanque, o que, por sua vez, levanta a questão da disponibilidade e aquisição de embarcações de emergência em tempo hábil. Mesmo com esses esforços, o volume de petróleo russo não seria capaz de suprir completamente o déficit gerado pela ausência do petróleo do Oriente Médio.

O dilema da fixação de preços com a Rússia

A dependência de uma única fonte como a Rússia, em um cenário de crise, alteraria drasticamente a dinâmica de preços. Historicamente, a China tem exercido um papel de “formadora de preços” em relação ao petróleo bruto russo, aproveitando-se de sua posição como grande consumidora e das sanções que forçam a Rússia a vender a preços mais competitivos.

No entanto, se a China fosse compelida a depender unicamente do petróleo russo para sua sobrevivência energética, sua posição mudaria para a de uma “tomadora de preços”. Isso significaria uma perda significativa de sua alavancagem de negociação. Embora a relação estratégica entre China e Rússia seja vital e possa limitar aumentos drásticos de preços, a Rússia, por outro lado, busca obter renminbi com suas exportações. É improvável que os preços do petróleo bruto russo sejam fixados em termos tão favoráveis à China como no passado, forçando Pequim a lidar com um crescente poder de barganha de Moscou.

A frustração diplomática de Pequim

A escalada da situação com o Irã e o consequente aumento dos preços do petróleo bruto são inaceitáveis para a China do ponto de vista econômico. Em um esforço para evitar o agravamento da crise, a China teria solicitado formalmente ao Irã que se abstivesse de bloquear o Estreito de Ormuz. Esse pedido destacava a seriedade com que Pequim encarava as implicações econômicas e geopolíticas de tal ação.

No entanto, o Irã aparentemente ignorou o apelo de seu maior cliente, procedendo com o bloqueio da passagem. A decisão iraniana, ao desconsiderar as preocupações de um parceiro estratégico tão crucial, resultou em um “completo abalo” na reputação e na influência diplomática da China na região. Este episódio demonstra a complexidade das relações internacionais e os limites do poder de persuasão, mesmo para uma superpotência econômica como a China, quando confrontada com interesses nacionais iranianos considerados vitais.

Cenário atual e o futuro do suprimento

A importância do Estreito de Ormuz transcende as relações bilaterais entre a China e o Irã, impactando diretamente o comércio global e a estabilidade energética mundial. Como um dos pontos de estrangulamento marítimos mais críticos do planeta, qualquer perturbação em Ormuz tem o potencial de desencadear ondas de choque em cadeias de suprimentos e mercados financeiros globalmente.

A comunidade internacional, incluindo outras potências asiáticas e ocidentais, observa com preocupação a evolução das tensões. Esforços diplomáticos, muitas vezes discretos, estão em curso para desescalar a situação e garantir a livre navegação através do estreito, vital para a economia global. A busca por soluções que conciliem os interesses das nações envolvidas sem recorrer a medidas extremas permanece uma prioridade máxima.

Esforços para diversificar as fontes energéticas

A crise atual tem servido como um catalisador para a China acelerar suas estratégias de segurança energética de longo prazo. Isso inclui um enfoque renovado na diversificação de suas fontes de energia e nas rotas de importação, buscando reduzir a dependência excessiva de uma única região.

Pequim está, portanto, investindo em novas infraestruturas de oleodutos e gasodutos com parceiros na Ásia Central e em outras regiões, além de explorar a possibilidade de novas rotas marítimas, mesmo que mais longas e dispendiosas. O investimento em energias renováveis e tecnologias de eficiência energética também ganha novo impulso, visando uma menor vulnerabilidade a choques externos no mercado de combustíveis fósseis.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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