Esportes

Mateus Herdy garante vaga na elite da WSL após superar dificuldades financeiras e pensar em desistir

Mateus Herdy
Mateus Herdy - WSL

O surfista catarinense Mateus Herdy, de 25 anos, confirmou oficialmente sua classificação para a elite do Circuito Mundial de Surfe, a World Surf League (WSL), na temporada de 2026. Após enfrentar um ciclo de seis anos marcados por resultados no limite da zona de classificação e sérios obstáculos financeiros, o atleta natural de Florianópolis garantiu sua vaga no Championship Tour (CT) após uma combinação de resultados na etapa final do Challenger Series, realizada em Newcastle, na Austrália.

A conquista encerra um longo período de incertezas para o surfista, que chegou a cogitar o abandono das competições profissionais para se tornar instrutor de surfe na Praia da Joaquina devido à escassez de recursos. Com a confirmação da vaga, Herdy se junta ao grupo de brasileiros que compõem a “Brazilian Storm” na elite mundial, reforçando a hegemonia do país na modalidade. O atleta descreveu o momento como o maior alívio de sua trajetória, simbolizando a superação de lesões e da pressão psicológica acumulada desde o seu título mundial júnior em 2018.

Trajetória de superação e drama na Austrália

A jornada de Mateus Herdy até o topo do surfe mundial foi definida por uma resiliência extrema diante de sucessivas frustrações esportivas e pessoais. Desde que se destacou como campeão mundial júnior aos 17 anos, o catarinense conviveu com a expectativa de uma ascensão imediata, mas viu o sonho ser adiado por posições mínimas no ranking de acesso em diversas ocasiões. Em 2018, ele perdeu a vaga por apenas uma colocação, iniciando uma sequência de anos em que terminou as temporadas entre os 12 melhores, quando apenas os 10 primeiros avançavam para a primeira divisão.

Na última etapa decisiva em Newcastle, o drama se intensificou após uma eliminação precoce de Herdy na terceira rodada do evento australiano. O brasileiro dependia de combinações de resultados de adversários diretos, como o havaiano Shion Crawford e o americano Dimitri Poulos, para manter sua posição no G-10 do ranking. A confirmação veio apenas nos instantes finais de uma bateria entre o mexicano Lucas Cassity e Poulos, onde uma manobra aérea de Cassity garantiu a pontuação necessária para favorecer o brasileiro e selar seu destino na elite.

  • Classificação garantida após seis anos de tentativas no Challenger Series.
  • Histórico de lesões e perda de grandes patrocinadores durante o ciclo olímpico.
  • Apoio crucial do cinegrafista Logan e da marca de Julian Wilson na reta final.
  • Estreia confirmada para a etapa de Bells Beach, na Austrália, em março de 2026.

Obstáculos financeiros e a quase desistência do esporte

Durante o período em que os resultados não vinham, a situação econômica de Mateus Herdy tornou-se um fator determinante que quase interrompeu sua evolução técnica. Sem o suporte das grandes marcas que o acompanhavam no início da carreira, o surfista enfrentou dificuldades para custear as viagens internacionais e as taxas de inscrição nos campeonatos ao redor do globo. A falta de investimento privado o levou a planejar uma transição de carreira, buscando estabilidade financeira por meio de aulas de surfe em sua cidade natal, Florianópolis.

O cenário mudou quando o apoio veio de fontes inesperadas, como o profissional de audiovisual Logan, que se dispôs a financiar as viagens do atleta por acreditar em seu potencial técnico. Posteriormente, o ex-integrante da elite mundial, Julian Wilson, integrou Herdy à sua marca australiana, oferecendo o suporte necessário para que ele focasse exclusivamente no desempenho dentro d’água. Esse suporte foi fundamental para remover a pressão financeira que sufocava a performance do competidor nas etapas decisivas do circuito de acesso.

Herança familiar e o peso das expectativas no surfe

Mateus Herdy carrega um sobrenome de peso no cenário do surfe brasileiro, sendo filho de Alexandre Herdy e sobrinho de Guilherme Herdy, veterano que representou o país por mais de uma década na elite. Essa linhagem vitoriosa trouxe, ao mesmo tempo, inspiração e uma carga de cobrança interna elevada sobre o jovem talento da Praia da Joaquina. A transição do título mundial júnior para a categoria profissional exigiu um amadurecimento psicológico para lidar com as comparações constantes e a necessidade de provar seu valor de forma independente.

A entrada no CT representa não apenas uma conquista individual, mas a manutenção de um legado familiar no mais alto nível do esporte internacional. Herdy destacou que o choro após a classificação foi um extravasamento de anos de tensão acumulada por “bater na trave” e pelo medo de não honrar seu potencial. Agora, como integrante fixo da elite, ele planeja utilizar sua experiência em manobras progressivas e aéreos para se estabelecer entre os melhores, buscando não apenas a permanência, mas vitórias em etapas icônicas do calendário.

Preparação para a estreia no circuito mundial de 2026

O calendário de Mateus Herdy para 2026 já está definido, com o início das competições marcado para a histórica etapa de Bells Beach, na Austrália, entre o final de março e o início de abril. Este evento é conhecido por suas ondas longas e direitas desafiadoras, exigindo um preparo físico intenso e uma leitura precisa do mar. O surfista já iniciou os treinamentos específicos para se adaptar ao novo ritmo de competição, que envolve baterias contra campeões mundiais e ídolos do esporte em condições variadas.

Além da estreia em solo australiano, o brasileiro manifestou grande expectativa para a etapa de Saquarema, no Rio de Janeiro, considerada por ele o “Maracanã do Surfe”. A possibilidade de competir diante da torcida brasileira é vista como um dos pontos altos da temporada, onde ele espera converter a energia do público em resultados expressivos. A estratégia para o primeiro ano na elite foca na consistência, evitando as eliminações precoces que poderiam comprometer sua permanência após o corte do meio da temporada, regra vigente na WSL.

Impacto técnico das manobras progressivas de Herdy

Conhecido por um estilo moderno e agressivo, Mateus Herdy é visto por especialistas como um dos surfistas mais progressivos da nova geração brasileira. Sua habilidade em executar aéreos com alta rotação e finalizações técnicas em ondas críticas o torna um adversário perigoso em diferentes tipos de condições de mar. No Championship Tour, essas características são altamente valorizadas pelos juízes, especialmente em etapas onde a inovação e o risco são critérios decisivos para a atribuição de notas excelentes.

  • Uso frequente de aéreos de backside e frontside em sessões críticas.
  • Capacidade de adaptação rápida a fundos de areia e bancadas de coral.
  • Foco em transições fluidas entre manobras de borda e progressão aérea.
  • Experiência prévia como convidado em etapas do CT, o que reduz o impacto da estreia.

Estabilidade psicológica e o novo suporte técnico

A classificação trouxe a Mateus uma estabilidade que ele não vivenciava há meia década, permitindo que o planejamento de carreira seja feito a longo prazo. O suporte recebido por figuras como Julian Wilson não se limita ao aspecto financeiro, incluindo também mentorias sobre como gerenciar a rotina de um atleta de elite. Essa estrutura profissionalizada é o que o surfista aponta como o diferencial para ter suportado a pressão nos momentos mais agudos da última temporada do Challenger Series.

O foco agora se volta para a manutenção de uma equipe técnica multidisciplinar, envolvendo preparadores físicos e analistas de vídeo para refinar cada detalhe de sua performance. Com a vaga assegurada, Herdy deixa para trás a incerteza das “vaquinhas” e dos patrocínios instáveis para focar integralmente na busca por títulos. A resiliência demonstrada ao longo dos últimos seis anos é citada pelo atleta como sua maior força mental para enfrentar os desafios que o aguardam na elite do surfe mundial.

O futuro da tempestade brasileira na elite da WSL

Com a ascensão de Mateus Herdy, o Brasil mantém sua posição de destaque no cenário global do surfe, garantindo uma representação massiva no ranking masculino. A presença de novos talentos ao lado de veteranos e campeões mundiais assegura que a renovação da “Brazilian Storm” continue de forma orgânica e competitiva. Para Herdy, o objetivo imediato é garantir sua vaga para além do corte de meio de temporada e buscar uma posição no WSL Finals, onde os cinco melhores disputam o título mundial.

A trajetória do catarinense serve como exemplo para outros jovens surfistas que enfrentam a transição para o profissionalismo em meio a crises econômicas no esporte. Sua história reforça a importância da perseverança e do apoio comunitário dentro da cultura do surfe nacional. Ao pisar em Bells Beach em março, Herdy não carregará apenas sua prancha, mas a realização de um sonho que sobreviveu à beira da desistência nas areias de Florianópolis.

To Top