Especialistas alertam para acúmulo de tensão e deformação crustal contínua em falhas ativas na região de Kumamoto
Dez anos após a série de terremotos de Kumamoto, a área ao redor do epicentro continua registrando uma intensa atividade sísmica. Especialistas indicam que uma lenta deformação da crosta terrestre, conhecida como “deformação pós-sísmica”, pode estar persistindo, contribuindo para o acúmulo de tensão em falhas ativas. O fenômeno sugere um risco contínuo para a região.
Essa deformação, que se manifesta como um movimento gradual do solo, pode estar sobrecarregando ainda mais as falhas geológicas. Professor Takuya Nishimura, especialista em mecanismos de terremotos e deformação da crosta terrestre do Instituto de Pesquisa de Prevenção de Desastres da Universidade de Kyoto, lidera os estudos que apontam para essa preocupação. A situação impõe a necessidade de vigilância constante e preparação da população local.
Atividade sísmica persistente em Kumamoto
A área em torno do epicentro da série de terremotos de Kumamoto, ocorrida em 2016, registra uma frequência de tremores significativamente maior do que o período anterior aos grandes eventos sísmicos. O Comitê de Pesquisa de Terremotos do governo japonês confirmou que a atividade sísmica permanece intensificada na província. Essa constatação preocupa as autoridades e a comunidade científica.
O Professor Nishimura concentrou sua análise na seção sul da Zona de Falha de Hinagu, na província de Kumamoto, uma área que não se deslocou durante o tremor precursor de 2016. Em um raio de 50 quilômetros quadrados em torno do local, foram detectados 1.478 terremotos com magnitude igual ou superior a 1,5 até 5 de maio, desde o terremoto de Kumamoto. Esse número representa um volume de ocorrências cerca de três vezes maior do que a média anual registrada antes dos abalos principais de 2016, evidenciando uma condição geológica ainda instável. No mês passado, a região experimentou dois terremotos com intensidade máxima de 4 na escala sísmica japonesa, reforçando a natureza ativa da área.
Deformação pós-sísmica e acúmulo de tensão
Um dos fatores que podem estar contribuindo para essa persistência de atividade sísmica é a “deformação pós-sísmica”, conforme explica o Professor Nishimura. Este fenômeno ocorre quando a área adjacente a uma falha ativa que se movimentou em um terremoto continua a se deslocar lentamente anos após o evento principal. Acredita-se que uma camada quente e macia sob a falha mantenha um movimento contínuo, mesmo após o término do abalo sísmico inicial.
Na região sul da Zona de Falha de Hinagu, a superfície do solo se moveu aproximadamente 5 centímetros para o sul no primeiro ano após o terremoto. Embora o ritmo tenha diminuído gradualmente desde então, um deslocamento de até 2 centímetros ainda foi observado no último ano. Esta deformação contínua preocupa os especialistas porque pode estar provocando um acúmulo ainda maior de tensão na falha, que já é considerada de alto risco para um grande terremoto. Essa pressão adicional aumenta a probabilidade de futuros eventos sísmicos.
Além da Zona de Falha de Hinagu, a tensão pode estar se acumulando na seção central da Zona de Falha da Linha Tectônica Mediana, na Prefeitura de Oita. Isso é atribuído à deformação pós-sísmica no lado nordeste da Zona de Falha de Futagawa, que se deslocou durante o terremoto principal. O Professor Nishimura reforça o alerta. “Existe o risco de que a tensão nas falhas ativas esteja aumentando continuamente desde o terremoto de Kumamoto. As pessoas que vivem em áreas próximas a falhas ativas devem estar ainda mais preparadas para tremores”, afirmou o pesquisador.
Histórico dos terremotos de 2016
A série de terremotos de Kumamoto teve início em 14 de abril de 2016, com um tremor precursor de magnitude 6,5, atingindo intensidade sísmica 7 na cidade de Mashiki, província de Kumamoto. Dois dias depois, em 16 de abril, ocorreu o tremor principal, com magnitude de 7,3. Este evento também registrou intensidade 7, não apenas em Mashiki, mas também na vila de Nishihara, ambas na mesma província.
Acredita-se que ambos os terremotos tenham sido deflagrados por movimentos em falhas ativas específicas. O tremor precursor foi atribuído ao deslocamento da seção norte da Zona de Falha de Hinagu, que se estende da cidade de Mashiki até a parte sul do Mar de Yatsushiro. Já o terremoto principal foi resultado de um deslocamento na seção leste da Zona de Falha de Futagawa, que abrange desde a vila de Minamiaso até a península de Uto.
Falhas ativas de alto risco no Japão
O Comitê de Pesquisa de Terremotos do governo japonês realiza investigações detalhadas sobre zonas de falhas ativas que teriam um impacto social significativo em caso de terremoto. A entidade publica dados sobre a probabilidade de ocorrência de tremores, classificando-as por nível de risco. A seção sul da Zona de Falha de Hinagu, que se acredita não ter sofrido deslocamento durante os terremotos de Kumamoto, é atualmente classificada como “nível S”, indicando a mais alta probabilidade de ocorrência de um terremoto de magnitude 7 nos próximos 30 anos.
Em 1º de janeiro deste ano, o Japão contabilizava 32 falhas ativas classificadas como “nível S”. Destas, oito zonas de falha ativas apresentam uma probabilidade superior a 8% de um grande terremoto nas próximas três décadas, um índice maior do que o observado pouco antes do Grande Terremoto de Hanshin-Awaji. Estas falhas incluem:
- Seção do Mar de Yatsushiro da Zona de Falha de Hinagu
- Seção da Zona de Falha da Linha Tectônica Itoigawa-Shizuoka, na Prefeitura de Nagano
- Zona de Falha do Estuário de Fujikawa, na Prefeitura de Shizuoka
- Zona de Falha Sakaitoge-Kamiya, na Prefeitura de Nagano
- Seção da Zona de Falha da Linha Tectônica Central, na Prefeitura de Ehime
- Zona de Falha de Atera, nas Prefeituras de Gifu e Nagano
- Grupo de Falhas da Península de Miura, na Prefeitura de Kanagawa
- Zona de Falha de Akinada, ao largo das Prefeituras de Hiroshima e Yamaguchi
Preparação essencial diante do risco contínuo
Diante da persistência da atividade sísmica e do contínuo acúmulo de tensão em falhas ativas, a necessidade de preparação torna-se ainda mais crítica. O Professor Nishimura enfatiza a urgência para as comunidades que residem em proximidade a essas áreas geológicas instáveis. Ele reforça que a população deve adotar uma postura preventiva constante.
“Especialmente em áreas próximas a falhas ativas, quero que as pessoas estejam preparadas, partindo do princípio de que um terremoto pode ocorrer a qualquer momento”, ressalta o pesquisador. Essa recomendação visa minimizar os riscos e as consequências de possíveis desastres naturais em uma nação que convive diariamente com a ameaça de tremores. A consciência e a prontidão são elementos chave para a segurança das comunidades afetadas.
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