A Polícia Civil de São Paulo apura o caso de um homem de 37 anos acusado de usar inteligência artificial para alterar fotografias de jovens evangélicas. As imagens foram inseridas em vídeos com conotação sensual dentro de igrejas da Congregação Cristã do Brasil. Uma estudante de 16 anos e os pais dela registraram a ocorrência em fevereiro na 8ª Delegacia de Defesa da Mulher, em São Mateus, na Zona Leste da capital.
O suspeito mantém perfis em redes sociais onde publica conteúdos de humor. Ele se apresenta como imitador de Silvio Santos e usa o canal “Humor do Crente” no YouTube. As postagens envolviam fotos tiradas por fiéis durante cultos, que depois recebiam alterações digitais.
Imagens originais vieram de cultos na igreja do Brás
Uma das vítimas teve a foto registrada em 2025 em frente ao altar da igreja no Brás, centro de São Paulo. Na ocasião ela usava vestido abaixo dos joelhos e salto alto, vestimenta habitual nos cultos. A imagem foi modificada para colocá-la ao lado de outras jovens com roupas mais curtas e posturas diferentes das comuns no ambiente religioso.
A adolescente relatou ter visto o material alterado. Ela disse que a montagem mostrava as quatro figuras com braços erguidos e bocas abertas. A jovem não conhecia as outras pessoas inseridas no vídeo.
Os pais da garota descreveram o impacto emocional. A mãe mencionou perda de sono. O pai destacou a gravidade quando envolve menores e pediu que o uso de manipulação cesse.
Inquérito começou com registro de crime contra menor
O caso foi aberto inicialmente como simulação de cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital. A tipificação segue o artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente. Com o avanço das apurações, a polícia passou a investigar também possível difamação contra outras vítimas adultas e adolescentes.
A delegada Juliana Raite Menezes, da 8ª DDM, confirmou que a investigação analisa vários vídeos postados pelo suspeito. Muitos usavam como fundo o hino da Congregação Cristã do Brasil. Ela pediu que outras possíveis vítimas procurem a delegacia.
- A denúncia partiu de uma estudante de 16 anos e seus pais
- A polícia identificou pelo menos uma outra jovem que relatou manipulação semelhante
- Os vídeos misturavam fotos de fiéis com elementos de roupas curtas e movimentos sensualizados
- O inquérito foi encaminhado para a 2ª Vara da Comarca de Lençóis Paulista, onde o investigado reside
- Plataformas como YouTube e TikTok removeram alguns conteúdos após notificações
Suspeito negou intenção sexualizada em depoimento
Em depoimento prestado por carta precatória, o homem admitiu usar fotos públicas de jovens da igreja e ferramentas de edição do TikTok para animar as imagens. Ele afirmou ter acreditado que a adolescente tinha aparência de adulta pelo porte físico. Negou ter vinculado a foto dela a qualquer conteúdo pornográfico ou de pouca roupa.
O suspeito disse que o material tinha caráter humorístico e visava criticar comportamentos dentro da doutrina da igreja. Ele confirmou ser fiel da Congregação Cristã do Brasil e que as postagens refletiam sua opinião pessoal sobre roupas e fotos tiradas durante cultos.
Em um vídeo publicado nas redes, ele pediu desculpas públicas pela forma de falar. Não mencionou diretamente as alterações de imagens. Disse que prometia ser mais cauteloso.
Especialistas alertam para responsabilidade no uso de IA
Advogados e pesquisadores ouvidos sobre o tema destacaram que a criação ou divulgação de deepfake gera responsabilidade civil e penal para quem produz o conteúdo. A técnica permite alterar fotos, vídeos ou áudios de modo realista, fazendo parecer que a pessoa realizou ações que não ocorreram.
Uma pesquisadora da PUC-SP observou que o foco deve permanecer no autor da manipulação, não no comportamento das vítimas. Outra especialista da SaferNet Brasil explicou que o termo deepfake ganhou visibilidade a partir de 2017 com montagens envolvendo celebridades. Ela reforçou que leis do mundo real também valem no ambiente digital.
A diretora da SaferNet apontou tendência de crescimento desses casos com o avanço da tecnologia. A organização mantém pesquisa sobre uso ilegal de IA para gerar imagens de nudez ou sexo com adolescentes e mulheres.
Investigação segue para identificar mais vítimas
A polícia continua o trabalho de análise dos vídeos e busca por outras pessoas afetadas. O inquérito tramita agora na comarca do interior paulista. A Congregação Cristã do Brasil informou por nota que não registra membros formalmente e que apoia as medidas legais cabíveis pelas autoridades.
Plataformas digitais consultadas adotaram medidas. O TikTok citou tolerância zero a exploração sexual infantil. O YouTube removeu vídeos que violavam diretrizes. A Meta não se manifestou até o momento sobre os perfis no Instagram e Facebook.
O caso envolve questões de privacidade, consentimento e limites do humor em redes sociais. A apuração busca esclarecer os fatos e proteger as vítimas identificadas até aqui.

