Pesquisa aponta cerveja, mesmo sem álcool, como fornecedora de vitamina B6 essencial para a saúde cerebral

cerveja

cerveja - Foto: Odairson Antonello/istock.com

Uma pesquisa recente, conduzida por cientistas da Universidade de Munique, na Alemanha, revelou que o consumo ocasional de cerveja pode contribuir significativamente para a ingestão de vitamina B6, um nutriente crucial para o funcionamento do cérebro. O estudo, publicado no conceituado Journal of Agricultural and Food Chemistry da Sociedade Química Americana, analisou diversos tipos da bebida. Os resultados indicam que, dependendo da variedade, um copo de 500 ml pode suprir uma porcentagem relevante da necessidade diária dessa vitamina essencial para o organismo humano.

A vitamina B6 é amplamente reconhecida pelos seus benefícios para a saúde cerebral, a formação do sangue e o fortalecimento do sistema imunológico. Embora esteja presente em uma vasta gama de alimentos, a descoberta da cerveja como uma fonte adicional e mensurável adiciona uma nova perspectiva ao debate nutricional. Mesmo versões sem álcool, como as lagers, mostraram-se capazes de oferecer este efeito positivo, desafiando concepções anteriores sobre a presença de nutrientes em bebidas fermentadas.

Cerveja como fonte de B6 essencial

O estudo detalhou que muitos dos ingredientes fundamentais na fabricação da cerveja, incluindo cevada, trigo e levedura, são naturalmente ricos em vitamina B6. Surpreendentemente, o processo de fermentação, que transforma esses insumos na bebida alcoólica, não elimina por completo esse importante nutriente. Dessa forma, uma porção da vitamina permanece na cerveja final, tornando-a uma fonte inesperada para quem busca otimizar a ingestão de vitaminas.

Segundo os pesquisadores de Munique, um copo de 500 ml de cerveja pode fornecer aproximadamente 15% da necessidade diária de vitamina B6 de um adulto. Em casos específicos, como uma lager média, o percentual pode subir para cerca de 20% da ingestão diária recomendada. Em um exemplo notável, uma das cervejas lagers sem álcool testadas chegou a suprir quase 59% das necessidades diárias, destacando o potencial nutricional de certas variantes da bebida que preservam a vitamina mesmo após a remoção do álcool.

Variações na concentração entre tipos de bebida

Os cientistas da Universidade de Munique realizaram uma análise abrangente em 65 tipos de cerveja, disponíveis em supermercados locais na Alemanha, e identificaram diferenças claras no teor de vitamina B6 entre eles. As variações observadas indicam que a escolha do tipo de cerveja pode influenciar diretamente a quantidade de nutriente ingerido. Essa diversidade no conteúdo vitamínico é um achado importante para a compreensão do valor nutricional da bebida.

A pesquisa revelou a seguinte distribuição de vitamina B6:

  • As cervejas do tipo bock, conhecidas por serem mais encorpadas e, em geral, mais alcoólicas, apresentaram os níveis mais elevados de vitamina B6.
  • Em seguida, as cervejas lagers, que são as mais consumidas mundialmente, e as cervejas escuras também mostraram teores significativos do nutriente.
  • As cervejas de trigo também se destacaram como boas fontes de B6.
  • No outro extremo, as cervejas produzidas com arroz registraram o menor teor de vitamina B6 entre todas as amostras analisadas.
  • Entre as versões sem álcool, aquelas que passam por um processo completo de fermentação e têm o álcool removido posteriormente concentraram mais vitamina B6 do que as produzidas com leveduras que naturalmente geram pouco álcool, indicando a importância do método de desalcoolização.

O sistema público de saúde do Reino Unido (NHS) recomenda uma ingestão diária de cerca de 1,4 mg de vitamina B6 para homens e 1,2 mg para mulheres. Com base nos dados do estudo alemão, um litro de cerveja pode conter entre 0,3 mg e 1 mg da vitamina, um intervalo considerável que reforça a relevância das diferenças entre os tipos de cerveja.

Recomendações e deficiência da vitamina

A vitamina B6 é um nutriente essencial que deve ser obtido através da alimentação, com fontes primárias incluindo carnes, peixes, aveia, batata e grão-de-bico. Muitos cereais matinais, inclusive, são enriquecidos com essa vitamina para complementar a dieta. A deficiência de vitamina B6 é considerada rara na população geral, embora níveis baixos possam ocorrer ocasionalmente, muitas vezes associados à falta de outras vitaminas do complexo B, como a B12, o que pode desencadear sintomas como cansaço e náusea.

Michael Rychlik, um dos autores do estudo, ponderou que, embora a quantidade de B6 na cerveja não seja suficiente para que a bebida seja destacada como fonte de vitaminas nos rótulos, ela é mensurável se o consumo estiver dentro dos limites de ingestão de álcool recomendados. Rychlik esclareceu que os resultados da pesquisa são úteis “apenas para consumidores que desejam otimizar a ingestão de vitaminas” e não representam uma recomendação de consumo.

Bridget Benelam, da Fundação Britânica de Nutrição, reforçou a importância de não encarar a cerveja ou qualquer bebida alcoólica como a principal fonte de nutrientes. Ela enfatizou que a ingestão de vitaminas deve vir da alimentação balanceada, e que a menos que a pessoa siga uma dieta muito restrita, é improvável que não esteja consumindo vitamina B6 em quantidade suficiente. Indivíduos com problemas de saúde como alcoolismo ou doença renal crônica, no entanto, podem enfrentar dificuldades em manter níveis adequados da vitamina. A especialista também recomenda focar em outras vitaminas importantes do complexo B, como a B12 e a riboflavina (B2), presentes em laticínios e alimentos de origem animal, essenciais para o metabolismo e liberação de energia.

Alerta da OMS sobre os riscos do álcool

Apesar dos achados sobre a vitamina B6, é crucial ressaltar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém a posição de que não existe um nível seguro para a saúde no consumo de álcool. A organização alerta para os graves riscos associados a qualquer quantidade ingerida, desaconselhando o consumo regular da bebida por seus múltiplos efeitos negativos no organismo humano e na saúde pública global.

Um relatório divulgado pela OMS há aproximadamente dois anos revelou que o consumo de álcool foi um fator contribuinte para cerca de 2,6 milhões de mortes em todo o mundo apenas em 2019. Dessas fatalidades, uma estimativa de 1,6 milhão de óbitos foi atribuída a doenças não transmissíveis, incluindo 474 mil mortes por doenças cardiovasculares e 401 mil por câncer. Adicionalmente, cerca de 724 mil mortes foram resultado de ferimentos, como acidentes de trânsito, automutilação e violência.

A organização também destacou que outros 284 mil óbitos foram relacionados a doenças transmissíveis. Foi comprovado que o consumo de álcool pode aumentar o risco de transmissão do HIV através de sexo desprotegido e também o risco de infecção por tuberculose, ao suprimir algumas reações do sistema imunológico. O álcool está comprovadamente ligado a pelo menos sete tipos diferentes de câncer, abrangendo o câncer de intestino e o de mama, reforçando a gravidade dos seus efeitos carcinogênicos.

Uma análise aprofundada realizada pela OMS concluiu que mesmo o consumo leve e moderado de álcool, definido como menos de 1,5 litro de vinho, menos de 3,5 litros de cerveja ou menos de 450 mililitros de destilados por semana, é perigoso para a saúde. A organização é enfática ao afirmar que o “risco para a saúde de quem bebe começa na primeira gota de qualquer bebida alcoólica”, sublinhando a ausência de uma quantidade segura. Especialistas também alertam para o efeito neurotóxico do consumo de álcool, com estudos neuropsicológicos e de neuroimagem evidenciando a vulnerabilidade de redes neurais cruciais, como a frontocerebelar (equilíbrio), a frontolímbica (memória, motivação, autoconsciência) e a frontoestriada (regulação emocional, inibição, flexibilidade cognitiva).