Pesquisadores da Universidade do Sul da Dinamarca identificaram um vírus até então desconhecido dentro de uma bactéria comum no intestino humano. O achado pode ajudar a explicar a ligação entre essa bactéria e o câncer colorretal. A pesquisa analisou amostras de pacientes e controles em dados dinamarqueses e internacionais.
O trabalho, divulgado nesta quarta-feira, 22 de abril de 2026, mostra que pacientes com câncer colorretal têm maior probabilidade de carregar o vírus dentro da bactéria Bacteroides fragilis. Essa bactéria existe no intestino da maioria das pessoas saudáveis, o que gerava um paradoxo para os cientistas.
Bactéria comum gera dúvida há anos
A Bacteroides fragilis integra o microbioma intestinal normal. Estudos anteriores já a associavam ao câncer colorretal, mas sem clareza sobre o mecanismo. Ela aparece tanto em indivíduos saudáveis quanto em pacientes com a doença.
Flemming Damgaard, médico e pesquisador do Hospital Universitário de Odense, destacou o enigma. A equipe decidiu investigar diferenças dentro da própria bactéria. Eles examinaram isolados de pacientes que tiveram infecções graves na corrente sanguínea causadas por ela. Alguns desenvolveram câncer colorretal pouco tempo depois.
Vírus dentro da bactéria surge como diferença chave
Os pesquisadores encontraram fagos específicos, vírus que infectam bactérias, mais presentes nas cepas de pacientes com câncer. Esses fagos eram desconhecidos antes do estudo. Eles infectam a Bacteroides fragilis e alteram suas características.
A análise inicial usou material dinamarquês pequeno, mas consistente. Depois, os cientistas validaram os resultados em amostras de fezes de 877 pessoas de Europa, Estados Unidos e Ásia. O padrão se repetiu.
- Pacientes com câncer colorretal tinham cerca de duas vezes mais chance de carregar os fagos detectáveis.
- O odds ratio calculado foi de 2,05, com significância estatística alta.
- Os fagos pertencem ao grupo Caudoviricetes.
- Eles aparecem como profagos integrados no genoma da bactéria.
- A presença não significa que o vírus causa o câncer diretamente.
Estudo combina isolados clínicos e metagenômica
A investigação começou com pacientes dinamarqueses que sofreram bacteremia por Bacteroides fragilis. Parte deles recebeu diagnóstico de câncer colorretal nas semanas seguintes. Os pesquisadores compararam genomas bacterianos desses casos com controles negativos.
Em seguida, expandiram para coorte independente de metagenômica. Os resultados se mantiveram consistentes em populações diferentes. Isso reforça a associação, embora ainda não estabeleça causalidade.
Fatores ambientais e microbioma no risco de câncer
Até 80% do risco de câncer colorretal pode vir de fatores ambientais, incluindo o microbioma intestinal. A diversidade de bactérias e vírus no intestino complica a identificação de elementos específicos.
Pesquisadores veem os fagos como possível explicação para variações no comportamento da bactéria. O vírus pode mudar como a Bacteroides fragilis interage com o tecido intestinal. Estudos em andamento testam isso em modelos artificiais de intestino, tumores e camundongos predispostos.
Possibilidade de testes de rastreio no futuro
Exames atuais de rastreio de câncer colorretal buscam sangue oculto nas fezes. A detecção de marcadores virais específicos poderia complementar esses métodos. Análises preliminares indicam que os fagos identificam cerca de 40% dos casos de câncer, com baixa presença em saudáveis.
A equipe ressalta que mais pesquisas são necessárias antes de aplicação clínica. Os projetos atuais incluem cultivo em laboratório, busca nos tecidos tumorais e experimentos com animais.
Detalhes técnicos da pesquisa
A publicação saiu na revista Communications Medicine. Autores incluem Flemming Damgaard e colegas de instituições dinamarquesas. O estudo recebeu apoio de fundações regionais e nacionais.
Os fagos representam novos tipos não descritos anteriormente. A interação bactéria-vírus abre linha de investigação sobre disbiose no câncer colorretal.
O câncer colorretal figura entre os mais comuns em países ocidentais e causa muitas mortes. Idade, dieta e estilo de vida influenciam o risco, mas o microbioma ganha atenção crescente. Essa descoberta adiciona camada viral ao quadro.
Pesquisadores continuam a explorar se o vírus contribui para o desenvolvimento da doença ou apenas indica mudanças no ambiente intestinal. O foco agora é entender mecanismos moleculares.

