A Suprema Corte dos EUA inicia nesta quarta-feira os debates sobre o plano do governo de interromper a proteção contra deportação de haitianos e sírios. Os argumentos orais concentram atenção também em imigrantes de outros países que vivem sob o mesmo programa federal. Cerca de 200 mil salvadorenhos nos Estados Unidos acompanham o caso com atenção especial.
O Status de Proteção Temporária, conhecido como TPS, permite que pessoas de nações afetadas por desastres ou conflitos permaneçam no país com autorização de trabalho por períodos renováveis. O programa existe desde 1990. A ex-secretária de Segurança Interna Kristi Noem decidiu encerrar o benefício para vários países durante a gestão atual.
Muitos salvadorenhos mantêm o TPS desde 2001, após terremotos que atingiram o país centro-americano. Eles formaram famílias, tiveram filhos nascidos nos Estados Unidos e construíram carreiras. O fim da proteção poderia afetar diretamente o grupo, que soma cerca de 200 mil beneficiários.
Salvadorenhos vivem décadas sob o TPS nos Estados Unidos
José Urías chegou aos Estados Unidos em 1994. Ele trabalhou entregando móveis, lavando pratos e cozinhando em restaurantes. Depois abriu uma empresa de construção na região de Boston. A companhia já reformou e construiu mais de 150 casas. Urías emprega três pessoas diretamente e colabora com sete empreiteiras.
Ele se casou com uma salvadorenha que também tem TPS. O casal tem dois filhos: um de 19 anos, estudante na Babson College, e outro de 13 anos. Dois irmãos de Urías nasceram nos Estados Unidos. Os pais e os demais irmãos possuem residência legal permanente. Toda a família mora no país.
“Minha vida está baseada aqui. Vivi mais da minha vida aqui do que em El Salvador”, disse Urías. Ele construiu o que chama de sonho americano com luta e adaptação à cultura e ao idioma local. Urías teme perder o emprego e ser separado dos filhos americanos caso o TPS termine.
Lorena Zepeda, de 58 anos, cruzou a fronteira em 1991. Sua mãe havia saído antes em busca de trabalho para sustentar seis filhos. Zepeda começou cozinhando em uma escola. Depois trabalhou na recepção de hotéis, cuidou de idosos e hoje atua como organizadora no Centro de Recursos da América Central, o CARECEN, em Los Angeles.
Ela enviou entre 200 e 400 dólares por mês para as irmãs em El Salvador ao longo de mais de três décadas. Zepeda se casou com um salvadorenho que obteve green card em fevereiro de 2025. Eles têm dois filhos: um de 22 anos, formado na faculdade, e uma de 20 anos que estuda para ser professora. Zepeda é a única na família sem residência permanente. Um pedido de asilo foi negado e ela tem ordem de deportação de 1999.
TPS criado em 1990 para casos de desastres e conflitos
O Congresso dos Estados Unidos criou o TPS em 1990. O objetivo é impedir deportações para países que enfrentam desastres naturais ou conflitos armados. Quando o presidente Donald Trump assumiu o cargo, venezuelanos formavam o maior grupo de beneficiários, seguidos por haitianos e salvadorenhos.
A administração atual encerrou o TPS para cerca de 1 milhão de pessoas de diversos países, incluindo Venezuela, Honduras, Nicarágua e Afeganistão. No caso de haitianos, a decisão afetaria cerca de 350 mil pessoas. Para sírios, o número chega a cerca de 6 mil.
Os argumentos na Suprema Corte nesta quarta-feira devem girar em torno da avaliação das condições no Haiti e na Síria no momento do encerramento do programa. Questões sobre possível impacto em imigrantes não brancos também surgem nos processos. Decisões judiciais anteriores já bloquearam ou adiaram alguns fins de TPS em outros países.
- Salvadorenhos com TPS vivem nos Estados Unidos desde 2001 após terremotos no país
- Muitos têm filhos nascidos nos EUA e empregos estáveis em construção, serviços e saúde
- Remessas enviadas por beneficiários representam parcela importante da economia de El Salvador
- O presidente Nayib Bukele mantém relação próxima com a administração Trump em temas de segurança
- El Salvador recebeu deportados de outras nacionalidades em acordo com os Estados Unidos
Remessas de salvadorenhos nos EUA pesam na economia de origem
Salvadorenhos nos Estados Unidos enviaram 9,9 bilhões de dólares em remessas para El Salvador no ano passado. Esse valor corresponde a 24% do Produto Interno Bruto do país, segundo dados do Banco Central de El Salvador. O fluxo contínuo depende da manutenção do status legal de trabalho.
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, ocupa posição de aliado dos Estados Unidos entre líderes dos países com TPS. Durante o primeiro mandato de Trump, Bukele pediu prorrogação do benefício. O programa continuou em vigor por causa de processos judiciais. Bukele não fez pedido público recente de renovação para setembro de 2026, data atual de validade para salvadorenhos.
Especialistas observam que relações amistosas entre os dois governos não garantem necessariamente extensão do TPS. O fim do programa para salvadorenhos poderia trazer impacto econômico para famílias em El Salvador que dependem das remessas.
Histórico de ações judiciais marca o programa TPS
Tribunais federais já analisaram casos semelhantes. Um juiz adiou o término do status para etíopes em decisão anterior. Outro tribunal de apelações considerou ilegal a decisão de encerrar proteções para venezuelanos. Esses precedentes aparecem nos debates atuais sobre Haiti e Síria.
A Suprema Corte já tratou de questões relacionadas ao TPS em outras ocasiões. No caso em andamento, a discussão inclui se o governo avaliou adequadamente as condições de segurança nos países de origem. A decisão final deve sair até o início de julho.
Beneficiários como Urías e Zepeda expressam preocupação com separação familiar e perda de estabilidade construída ao longo de décadas. Eles mantêm esperança de que o sistema judicial preserve o equilíbrio entre aplicação da lei e proteção humanitária.
O TPS continua em vigor para salvadorenhos até setembro de 2026, enquanto o julgamento avança. Milhares de famílias acompanham o desfecho que pode definir o futuro de mais de 1 milhão de pessoas sob o programa em diferentes nacionalidades.

