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Fed mantém juros dos EUA em 3,50% a 3,75% na última decisão com Powell no comando

Jerome Powel
Foto: Jerome Powel - photoibo / Shutterstock.com

O Federal Reserve manteve a taxa de juros dos Estados Unidos inalterada na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (29) e chegou conforme esperado pelo mercado financeiro. Foi a terceira reunião consecutiva com as taxas no mesmo patamar, também marcada como a última com Jerome Powell no comando da instituição.

Powell deixará a presidência do Fed em 15 de maio, após oito anos liderando o banco central americano. Sua saída ocorre em meio a tensões com Donald Trump e desafios econômicos globais agravados pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, iniciado em 28 de fevereiro. O economista Kevin Warsh, indicado pelo presidente republicano, deve assumir o posto na próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto, marcada para 16 e 17 de junho.

Petróleo e inflação no centro das preocupações

A guerra no Oriente Médio continua sendo o principal fator nas decisões de política monetária americana. Desde o início do conflito, o barril de petróleo Brent disparou e atingiu US$ 120, o maior nível desde 2022. Na tarde desta quarta-feira, a cotação chegava a US$ 118,70, representando uma alta superior a 60% em relação ao momento do início dos combates.

O aumento expressivo dos preços de combustível pressiona a inflação americana de forma significativa. Os dados mais recentes mostram que os preços nos EUA subiram 0,9% em março, o maior aumento desde maio de 2024. A inflação acumulada em 12 meses está em 3,3%, acima da meta de 2% estabelecida pelo Fed. A gasolina, particularmente, subiu mais de 40% desde que Trump iniciou a guerra, conforme dados da associação automobilística AAA.

O Fomc ressaltou em seu comunicado que “a inflação está elevada, refletindo, em parte, o recente aumento nos preços globais de energia”. O comitê também menciona que “os desdobramentos no Oriente Médio estão contribuindo para um alto nível de incerteza sobre as perspectivas econômicas”.

FED
FED – Foto; Tanarch/shutterstock.com

O bloqueio do Estreito de Ormuz e suas consequências globais

O fator central por trás da disparada dos preços é o bloqueio do Estreito de Ormuz. A passagem, responsável por aproximadamente 20% do consumo mundial de petróleo, registrou forte queda no tráfego de navios após o Irã anunciar o bloqueio e ataques a petroleiros. A região também é responsável por cerca de um quinto do comércio global de gás natural (GNL), ampliando seu impacto econômico.

Trump buscou apoio de outros países para monitorar e “cuidar” da passagem, solicitação rejeitada por aliados europeus e asiáticos. Na sequência, determinou que a Marinha dos EUA bloqueasse navios petroleiros ligados ao Irã que circulavam pela área. O estreito permanece, assim, no centro de disputas tanto geopolíticas quanto econômicas, com reflexos diretos nos preços das commodities globais.

Combustíveis mais caros significam gasolina e diesel mais caros para o consumidor americano. Em efeito cascata, isso pressiona os preços de diversos produtos, desde alimentos até moradia. O cenário preocupa especialmente o Fed, que possui mandato duplo: controlar a inflação e manter o mercado de trabalho aquecido.

Situação econômica interna dos EUA

O Fomc informou que a atividade econômica dos EUA continua se expandindo em ritmo sólido. Contudo, a criação de empregos permaneceu baixa e a taxa de desemprego mudou pouco nos últimos meses. O comunicado afirma que “o Comitê está fortemente comprometido em apoiar o máximo emprego e em trazer a inflação de volta à meta de 2%”.

Esta foi a 11ª decisão desde que Donald Trump assumiu como 47º presidente em 20 de janeiro de 2025. Desde a posse, ocorreram três cortes de juros, em meio a cenário econômico incerto marcado por conflitos geopolíticos e a guerra tarifária promovida pelo republicano.

O Fomc declarou estar “preparado para ajustar a política monetária, conforme apropriado, caso surjam riscos que possam dificultar o alcance de seus objetivos”. Também afirmou que “continuará monitorando as implicações das novas informações recebidas para a perspectiva econômica”.

Votação não unânime reflete divisão interna

A decisão desta quarta não foi unânime no colegiado. Jerome Powell, o vice John C. Williams, e outros nove diretores votaram para manter a taxa inalterada. Três deles, porém, divergiram do tom do comunicado. Apenas Stephen Miran, nomeado por Trump, se posicionou a favor de um corte de 0,25 ponto percentual.

A presença de Miran representando uma posição diferente sinaliza as mudanças esperadas com a chegada de Kevin Warsh à presidência. Trump tem demonstrado interesse em ampliar sua influência sobre o Fed através de nomeações para a diretoria da instituição:

  • Em setembro de 2025, Trump nomeou Stephen Miran para substituir Adriana Kugler
  • Kevin Warsh foi indicado para presidir a instituição após Powell
  • A Suprema Corte analisa tentativa de demitir Lisa Cook do cargo de diretora
  • Caso Trump alcance maioria de aliados no conselho com sete membros, ampliará interferência sobre nomeações nos 12 bancos regionais

O legado de Powell e a transição para Warsh

Powell permanecerá como diretor do Fed mesmo após deixar a presidência. Seu mandato na diretoria se estende até janeiro de 2028. “Continuarei a servir como diretor por um período ainda a ser determinado”, afirmou em entrevista coletiva nesta quarta. “Só existe um presidente do conselho do Federal Reserve. Quando Kevin Warsh for confirmado e tomar posse, ele será o presidente”, acrescentou.

O economista Kevin Warsh teve seu nome aprovado por um comitê do Senado nesta quarta, antes de seguir para votação no plenário. Sua confirmação deve ocorrer em breve, permitindo que assuma a presidência na próxima reunião do Fomc.

A decisão de Powell em permanecer como diretor é inusitada. Normalmente, presidentes do Fed deixam o cargo de diretor ao fim do mandato. Powell, porém, afirmou que sua intenção “não é interferir” na provável liderança de Warsh. “Fui diretor por quase seis anos e, como alguém prestes a deixar a presidência, entendo como é difícil construir consenso”, declarou.

Impacto nos mercados brasileiros e globais

As decisões de juros nos EUA geram reflexos significativos no Brasil e nos mercados globais. Os juros, ainda considerados elevados nos EUA, mantêm os rendimentos das Treasuries títulos públicos americanos, em níveis atraentes. Por serem considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com rentabilidades elevadas despertam o interesse de investidores estrangeiros.

Esse movimento tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real em relação ao dólar. O dólar em nível elevado aumenta a pressão sobre a inflação brasileira, com reflexos diretos na manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil.

Com as taxas americanas em patamar historicamente elevado, cresce a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça elevada por mais tempo. O efeito cascata da política monetária americana amplifica desafios para a economia brasileira, tornando o câmbio mais volátil e afetando a competitividade de exportadores nacionais.

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