Rover da NASA identifica 21 moléculas orgânicas em rochas de Marte

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Nasa - John M. Chase/ istockphoto.com

O rover Curiosity encontrou o maior número de moléculas orgânicas já detectado em Marte. A análise revelou 21 compostos diferentes nas rochas coletadas no planeta vermelho, sendo sete deles identificados pela primeira vez. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Communications e reforçam a possibilidade de que Marte abrigou vida em seu passado distante.

Descoberta histórica na Cratera Gale

O Curiosity pousou em Marte em 2012 na Cratera Gale com o objetivo de investigar sinais de vida pretérita no planeta. Após seis ou sete anos de exploração, o rover alcançou as camadas argilosas do Monte Sharp, uma região chamada Glen Torridon onde antigas rochas lacustres e sedimentos fluviais foram preservados ao longo de bilhões de anos. Nesse local, o Curiosity coletou amostras em um sítio denominado Mary Anning, em homenagem à paleontóloga britânica do século XIX.

A escolha do local foi criteriosamente planejada pela equipe da missão. As camadas de argila possuem propriedades ideais para preservar moléculas orgânicas e indicam que água existiu em Marte no passado, desaparecendo e reaparecendo no mesmo local ao longo do tempo geológico.

Método inédito de análise química

Pela primeira vez, o Curiosity realizou análise química úmida diretamente em Marte. O rover escavou e triturou as rochas, carregando as amostras em pó no Analisador de Amostras de Marte (SAM). O equipamento dissolveu a amostra em uma solução contendo hidróxido de tetrametilamônio (TMAH), um reagente capaz de quebrar moléculas grandes e identificar componentes que métodos convencionais não conseguem detectar com precisão.

Amy Williams, professora da Universidade da Flórida que liderou a pesquisa, explica a importância da técnica:

  • Compostos heterocíclicos nitrogenados foram encontrados pela primeira vez em Marte
  • Moléculas de benzotiofeno foram identificadas nas amostras
  • Sete das 21 moléculas haviam sido indetectáveis até então
  • O TMAH consegue fragmentar estruturas complexas em seus componentes básicos

Conexão com os blocos da vida

As moléculas descobertas incluem compostos heterocíclicos nitrogenados, estruturas cíclicas formadas por carbono e nitrogênio que funcionam como precursoras dos ácidos nucleicos RNA e DNA. Esses são os portadores da informação genética em todos os organismos vivos conhecidos.

O benzotiofeno, composto contendo carbono e enxofre, também foi identificado na amostra. Williams destaca que essa mesma molécula é encontrada em meteoritos que impactaram a Terra e provavelmente contribuiu para a origem da vida terrestre. A descoberta sugere que compostos idênticos podem ter desempenhado papel semelhante em Marte bilhões de anos atrás.

Conservação surpreendente

De acordo com Williams, as moléculas orgânicas encontradas foram preservadas em Marte por aproximadamente 3,5 bilhões de anos. Isso é particularmente notável porque o planeta está exposto a intenso bombardeio de radiação cósmica, um ambiente que deveria destruir compostos orgânicos com relativa rapidez.

O fato de que moléculas grandes e complexas resistiram intactas a esse ambiente hostil fortalece a teoria de que Marte, em seu passado remoto, possuía as condições necessárias para sustentar vida. O planeta pode ter tido água líquida, atmosfera densa e proteção contra radiação — os elementos essenciais que permitem a existência de organismos biológicos.

Confirmação em laboratório terrestre

A equipe conduziu testes de validação na Terra usando o meteorito Murchison, uma rocha espacial com mais de 4 bilhões de anos descoberta na Austrália em 1969. Quando submetido ao mesmo reagente TMAH utilizado em Marte, o meteorito decompôs-se em componentes semelhantes aos da amostra Mary Anning, incluindo benzotiofeno. Esse resultado reforça a confiabilidade dos achados marcianos.

Williams aponta que os mesmos compostos identificados em meteoritos caíram em Marte há bilhões de anos e também caíram na Terra. Essas moléculas provavelmente constituíram os blocos de construção fundamentais que permitiram o surgimento da vida no planeta azul. A descoberta marinha fornece evidências indiretas de que processos químicos semelhantes poderiam ter ocorrido no planeta vermelho.

Significado para a astrobiologia

A pesquisa amplia o conhecimento sobre a química prebiótica de Marte e reforça os argumentos em favor de futuras missões que busquem evidências diretas de vida microbiana no planeta. A capacidade do rover de realizar análises sofisticadas in situ abriu novas possibilidades para investigações geológicas e químicas em ambientes extraterrestres.

Os resultados publicados na Nature Communications representam um marco na exploração marciana, consolidando Marte como alvo prioritário para a busca de vida extraterrestre. As próximas fases da exploração marinha devem incluir investigações mais aprofundadas dessas estruturas moleculares e sua distribuição geográfica no planeta.