Lesley Groff supervisionava a rotina diária de Jeffrey Epstein por quase duas décadas como sua assistente executiva. Seu nome consta em mais de 150 mil documentos liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA sobre o caso do magnata condenado por crimes sexuais. Apesar dessa exposição massiva, ela retomou a vida em New Canaan, Connecticut, frequentando festas e jantares sofisticados com amigos e familiares, como se nada houvesse acontecido.
A situação contrasta drasticamente com o destino de outras pessoas mencionadas nos arquivos Epstein. Diversas personalidades da política, entretenimento e negócios sofreram ostracismo, tiveram carreiras prejudicadas ou precisaram oferecer pedidos de desculpas públicos por meras conexões com o criminoso condenado. Para Groff, contudo, a máquina de responsabilização não se movimentou com a mesma força.
Proximidade extrema com atos criminosos
Groff controlava praticamente todos os aspectos da vida de Epstein: agendas, cortes de cabelo, transporte e, crucialmente, massagens. Conforme relatos de vítimas, muitas dessas massagens funcionavam como código para atos sexuais. Seu papel ia além da administração ela também realizava conexões para levar jovens à ilha de Epstein no Caribe e ao seu rancho no Novo México.
O volume de menções ao seu nome supera significativamente o de outras pessoas envolvidas. Apenas o próprio Epstein aparece mais vezes nos documentos. Ghislaine Maxwell, namorada do magnata e também recrutadora de vítimas, não é citada nem remotamente com tanta frequência quanto Groff.
Mobilização política contra Lesley em Connecticut
Daniel LaGattuta, cientista político residente em New Canaan, decidiu agir. Em 2 de março, convocou republicanos locais para debater o que chamou de “problema Lesley”. Durante o encontro, apresentou informações indicando que Groff estava listada como suspeita de conspiração nos arquivos do FBI. Argumentou que ela era figura-chave no círculo íntimo de Epstein e que a cidade foi mencionada mais de mil vezes nos documentos justamente por causa de sua residência.
LaGattuta pediu explicitamente que políticos locais que haviam recebido doações de Groff devolvessem o dinheiro ou o repassassem a organizações de apoio a vítimas de abuso sexual. Descreveu associar-se a ela como “moralmente repugnante e uma catástrofe política”. Seus esforços, porém, foram ignorados pelos líderes republicanos da região.
Vida de normalidade e participação social
Contrariamente às expectativas, Groff não se afastou da vida pública de New Canaan. Ela continua:
- Fazendo doações políticas regularmente
- Participando de festas em residências de alto padrão
- Organizando noites de jogos com amigos
- Jantando em restaurantes sofisticados com sua família e conhecidos
Esse comportamento levantou uma questão incômoda na comunidade: será que alguém em New Canaan realmente se importa? A “Free Press”, plataforma de jornalismo independente, descreveu Groff como uma “anomalia” no amplo processo de responsabilização que marcou a saga Epstein.
Defesa legal de Lesley Groff
Michael Bachner, advogado de Groff, sustenta que sua cliente manteve inocência durante toda sua carreira ao lado de Epstein. Em declaração formal, afirmou que Groff “nunca testemunhou ou foi informada de nada ilegal relacionado a essas massagens”. Bachner argumenta que Epstein operava dois mundos separados, um legítimo e outro criminoso, e garantia que ambos não colidissem.
O advogado enfatizou que Epstein mantinha Groff “propositalmente isolada de sua conduta criminosa” por desconfiança e porque tinha todos os motivos para mentir. Segundo essa versão, Epstein protegeu deliberadamente sua assistente do conhecimento de seus crimes.
Status processual indefinido
Embora Lesley Groff tenha sido formalmente listada como suspeita de co-conspiração nos arquivos do FBI, o governo dos EUA nunca apresentou acusações formais contra ela. Epstein morreu na prisão de Nova York em 2019, antes de qualquer processo que envolvesse sua assistente avançar significativamente.
Essa lacuna processual contribui para a situação atual de Groff , sem acusações formais, ela não enfrenta processos criminais que justificariam sanções sociais ou profissionais comparáveis às de outras pessoas listadas nos documentos. Sua defesa repousa inteiramente na alegação de que ignorância e isolamento deliberado a protegem de responsabilidade criminal.

