Ouro recua em fundos de investimento apesar de máxima histórica em janeiro

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Ouro - Volodymyr TVERDOKHLIB/ shutterstock.com

Investidores venderam ouro em massa no primeiro trimestre de 2026, revertendo ganhos acumulados no início do ano. O Conselho Mundial do Ouro divulgou que os volumes caíram 5% no período, apesar de o metal ter atingido máxima histórica em janeiro, quando a busca por proteção aumentou ante a fraqueza do dólar e incertezas sobre a política econômica do presidente norte-americano Donald Trump.

O movimento refletiu principalmente saídas de capital em março nos fundos negociados em bolsa (ETFs) de ouro baseados nos EUA, segundo o conselho. Juan Carlos Artigas, especialista da entidade, explica que o ouro é frequentemente o primeiro ativo vendido quando investidores precisam de liquidez imediata, apesar de sua reputação como proteção em tempos de instabilidade.

Saídas de fundos e necessidade de caixa

Os fundos de ouro registraram forte movimentação em março, que reverteu parcialmente as entradas de janeiro e fevereiro. O padrão revela comportamento típico de investidores sob pressão: quando há necessidade de capital rápido, ativos líquidos e amplamente aceitos como o ouro são os primeiros a sair das carteiras.

A volatilidade nos mercados intensificou-se após ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã. Em resposta, Teerã bloqueou o trânsito pelo Estreito de Ormuz, rota que concentra cerca de 20% da produção mundial de petróleo. O bloqueio disparou preços de petróleo e gás, forçando muitos investidores a buscar recursos para cobrir perdas ou ajustar posições comprometidas.

Expectativas de elevação de taxas de juros pelo Federal Reserve (banco central dos EUA) para combater a inflação também pesaram sobre a demanda. Juros mais altos fortalecem o dólar, tornando o ouro significativamente mais caro para investidores que operam em outras moedas e reduzindo seu apelo relativo em carteiras internacionais.

Preço alto paradoxalmente reduz demanda

Apesar da queda em volume, o valor total das aquisições aumentou 62% no trimestre, refletindo a escalada dos preços do metal. O ouro chegou a quase US$ 5.600 por onça em janeiro e manteve média de US$ 4.873 ao longo do primeiro trimestre de 2026.

A valorização paradoxalmente prejudicou setores dependentes do ouro. O setor de joias enfrentou retração em demanda, já que preços elevados desencorajam compras de consumidores. O Oriente Médio, importante centro logístico para transporte de joias em ouro, foi ainda mais afetado pela guerra, interrompendo cadeias de suprimento e reduzindo fluxos comerciais.

As flutuações do trimestre ilustram dinâmica complexa entre proteção e liquidez. Investidores priorizaram acesso a dinheiro em momento de incerteza geopolítica aguda. O metal mantém status de ativo defensivo, mas sua realização em caixa revela que a urgência por recursos financeiros superou benefícios de proteção em cenário de tensão global crescente.

Analistas apontam que ciclos como esse são comuns em períodos de volatilidade elevada, quando investidores institucionais e fundos reequilibram carteiras rapidamente. O primeiro trimestre de 2026 consolidou essa tendência: máximas históricas em janeiro não impediram vendas massivas dois meses depois.

Os dados divulgados na quarta-feira (29) pelo Conselho Mundial do Ouro cobrem período até 31 de março. Movimentos posteriores em abril podem indicar se a tendência de saídas persiste ou se investidores retomam acumulação defensiva ante a continuidade das tensões no Oriente Médio e a incerteza sobre decisões do Federal Reserve.

Fatores que impulsionaram venda de ouro no trimestre

  • Bloqueio do Estreito de Ormuz por Irã elevou volatilidade de petróleo e gás
  • Expectativa de aumento de juros pelo Federal Reserve fortaleceu o dólar
  • Preços elevados tornaram o metal mais caro para investidores em moedas estrangeiras
  • Necessidade de liquidez para cobrir perdas em outras posições de mercado
  • Setor de joias enfrentou demanda reduzida devido aos preços altos
  • Interrupção de cadeias logísticas no Oriente Médio afetou comércio de ouro