Rover Curiosity detecta 21 moléculas orgânicas em rocha marciana
O rover Curiosity da Nasa identificou 21 tipos diferentes de moléculas orgânicas em uma amostra de rocha coletada em Marte. A descoberta ocorreu em material escavado na região de Glen Torridon, dentro da Cratera Gale. Sete desses compostos nunca haviam sido detectados no planeta vermelho antes.
A análise foi realizada com uma técnica de química úmida aplicada pela primeira vez em Marte. Os resultados saíram na revista Nature Communications na semana passada. A amostra vem de uma rocha batizada de Mary Anning, em homenagem à paleontóloga britânica do século 19.
Amostra veio de camadas antigas do Monte Sharp
O Curiosity pousou na Cratera Gale em 2012. Desde então, ele escala o Monte Sharp para estudar camadas geológicas que indicam presença de água no passado. A rocha Mary Anning fica na área de Glen Torridon, formada por sedimentos de um antigo lago.
O rover perfurou o arenito rico em minerais de argila. Depois, triturou o material e enviou o pó para o instrumento SAM, instalado no interior do veículo. Esse equipamento aquece as amostras e analisa os gases liberados.
- A rocha contém argilito formado em lago antigo
- Há também arenito depositado por correntes de água
- A área preserva evidências de água que apareceu e desapareceu
- O local foi escolhido por oferecer boa chance de preservação de compostos
A professora Amy Williams, da Universidade da Flórida, lidera a equipe científica. Ela destacou que a técnica permitiu quebrar moléculas maiores para identificar componentes difíceis de detectar por métodos convencionais.
Técnica de química úmida liberou compostos preservados
O SAM usou o reagente hidróxido de tetrametilamônio, conhecido pela sigla TMAH. Essa solução dissolveu a amostra e liberou moléculas orgânicas que ficaram presas por bilhões de anos. O processo aconteceu em 2020, mas a análise completa levou anos.
Entre os compostos estão heterocíclicos nitrogenados. Essas estruturas formam anéis de carbono e nitrogênio. Elas atuam como precursores dos ácidos nucleicos, como RNA e DNA. Sete moléculas, incluindo benzotiofeno, apareceram pela primeira vez em dados marcianos.
O benzotiofeno contém carbono e enxofre. Ele aparece também em meteoritos que caíram na Terra. Testes realizados na amostra do meteorito Murchison, encontrado na Austrália em 1969, produziram resultados semelhantes.
A radiação intensa em Marte costuma destruir compostos orgânicos na superfície. Ainda assim, as moléculas resistiram por cerca de 3,5 bilhões de anos nas camadas mais profundas. Isso reforça que o planeta preservou material antigo em condições favoráveis.

Descoberta reforça potencial de habitabilidade antiga
Cientistas consideram que Marte tinha condições para sustentar vida microbiana bilhões de anos atrás. A presença de água líquida, minerais e agora compostos orgânicos complexos alimenta essa hipótese. No entanto, a origem exata das moléculas ainda não está definida. Elas podem ter surgido no próprio planeta ou chegado por meteoritos.
O Curiosity continua ativo na Cratera Gale. Ele já encontrou outros compostos orgânicos em missões anteriores, mas nunca em quantidade e variedade tão grandes. A nova técnica abre caminho para análises mais avançadas em futuras missões.
A equipe planeja usar o segundo cupom de TMAH disponível no SAM em outra amostra promissora. Experimentos semelhantes estão previstos para o rover Rosalind Franklin, da Agência Espacial Europeia, e para a missão Dragonfly, que vai explorar Titã.
Instrumento SAM permite análise detalhada no próprio planeta
O SAM ocupa espaço dentro do Curiosity e combina forno, cromatógrafo e espectrômetro de massa. Ele detecta gases liberados pelo aquecimento ou pela reação química. A primeira aplicação de química úmida em outro mundo aconteceu com sucesso.
Williams e colaboradores publicaram o estudo em 21 de abril de 2026. O trabalho envolveu pesquisadores de várias instituições, incluindo o Goddard Space Flight Center da Nasa. Os dados passaram por validação cruzada com experimentos terrestres.
A Cratera Gale mede cerca de 154 quilômetros de diâmetro. Ela abriga o Monte Sharp, com mais de 5 mil metros de altura. As camadas inferiores indicam ambiente lacustre antigo. As superiores mostram evidências de ventos e depósitos secos.
Próximos passos da missão Curiosity
O rover segue explorando o Monte Sharp. Ele coleta dados sobre composição mineral, clima antigo e possíveis sinais de atividade biológica. A missão original previa dois anos de operação, mas já dura mais de 13 anos.
Especialistas planejam comparar os resultados com amostras que a Perseverance coleta em outra região de Marte. O objetivo final envolve trazer material de volta à Terra para análise laboratorial mais precisa.
A descoberta não prova existência de vida passada. Ela mostra, porém, que moléculas complexas podem sobreviver no ambiente marciano. Isso aumenta as chances de encontrar evidências mais diretas em investigações futuras.
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