Ator Jacob Elordi adota dança japonesa para viver monstro em Frankenstein de Guillermo del Toro
A construção de um personagem feito a partir de partes humanas exigiu uma abordagem física fora do comum nos bastidores de Hollywood. O desafio de interpretar um ser recomposto levou a uma busca por referências que fugissem das atuações tradicionais do cinema ocidental. A resposta surgiu em uma arte performática oriental focada no controle extremo dos músculos e na expressão da dor.
O ator australiano Jacob Elordi utilizou o butô, uma dança japonesa de vanguarda, para dar vida à Criatura no filme Frankenstein, dirigido pelo cineasta mexicano Guillermo del Toro. A produção estreou no catálogo da Netflix em novembro de 2025. O longa adapta a obra clássica da escritora Mary Shelley e traz no elenco principal nomes como Oscar Isaac, no papel do cientista Victor Frankenstein, e a atriz Mia Goth.

A técnica corporal por trás do monstro
A escolha do método oriental permitiu explorar a vulnerabilidade e a inocência inicial do personagem. O butô concentra sua estética em movimentos lentos e contorcidos. Essa linguagem corporal alinhou-se ao conceito de um corpo reanimado que tenta compreender sua própria existência. Elordi relatou durante a turnê de divulgação que a prática funcionou como uma ferramenta para traduzir o despertar de um cadáver.
O processo de preparação envolveu semanas de treinamento intensivo antes do início das gravações. O artista combinou os princípios da dança com a observação de movimentos de animais e de crianças pequenas. Ele passava horas praticando gestos em frente ao espelho para dominar a lentidão exigida pela direção. A técnica ajudou a sustentar a performance sob pesadas camadas de maquiagem prostética.
Guillermo del Toro aprovou a iniciativa do protagonista desde os primeiros testes de câmera. O diretor considerou que a fisicalidade proposta complementava a atmosfera gótica construída para os cenários físicos do projeto. Elordi assumiu o papel após a saída de Andrew Garfield, que deixou o elenco devido a conflitos de agenda. O visual da Criatura passou por um redesenho completo para se adequar à estatura imponente do novo intérprete.
Origens da arte japonesa no período pós-guerra
O butô nasceu no Japão no final da década de 1950, durante o período de reconstrução do país após a Segunda Guerra Mundial. Os fundadores Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno buscavam uma forma de expressão inédita. Eles queriam romper tanto com as tradições ocidentais dominantes quanto com os estilos clássicos japoneses, como o teatro noh e o kabuki. A primeira apresentação oficial ocorreu em 1959 e chocou o público da época.
A performance inicial rejeitava passos codificados e priorizava impulsos internos. Hijikata focava na escuridão e na angústia humana, enquanto Ohno trazia elementos espirituais para o palco. Essa dualidade moldou uma dança voltada para a exploração do inconsciente. A estética consolidou características visuais e físicas muito específicas que perduram até hoje nas companhias de dança contemporânea.
- Movimentos baseados em sensações físicas e memórias sem o uso de coreografias fixas.
- Uso de expressões faciais intensas com olhos revirados e bocas abertas.
- Corpos frequentemente pintados de branco para criar figuras fantasmagóricas.
- Temas focados em metamorfose, grotesco e conexão com instintos primais.
No contexto cinematográfico de 2025, esses elementos serviram como base para a fisicalidade única exigida pelo roteiro. A adaptação da técnica para as telas demonstrou a versatilidade da dança para narrativas que envolvem perda de identidade e renascimento físico.
Impacto visual e reconhecimento da crítica
A dedicação à linguagem corporal gerou repercussão imediata na temporada de premiações. O filme recebeu diversas indicações ao Golden Globe, incluindo a categoria de melhor ator coadjuvante para Elordi. Críticos de cinema apontaram a atuação como o ponto alto da obra. A mídia especializada destacou a profundidade emocional alcançada, diferenciando o trabalho atual da clássica versão eternizada por Boris Karloff nas décadas passadas.
O esforço físico foi além do treinamento de movimentos lentos. O ator precisou alterar sua composição corporal para o projeto. Ele havia perdido peso para um trabalho anterior e precisou reconstruir a musculatura para garantir a presença ameaçadora descrita no roteiro. A rotina diária no set incluía horas de aplicação de dezenas de peças prostéticas antes de cada gravação.
A paciência exigida na cadeira de maquiagem tornou-se parte do processo de imersão. O intérprete relatou que a performance começava ainda dentro do trailer, à medida que os materiais artesanais eram colados em seu corpo. Os olhos expressivos sob a maquiagem pesada foram elogiados por transmitirem a transição da ingenuidade para a raiva ao longo da trama.
Adaptação moderna do clássico literário
O projeto representa a concretização de um desejo antigo do realizador mexicano. Vencedor do Oscar, Del Toro planejava adaptar o romance há anos, mantendo o foco em temas como isolamento, criação e a essência da humanidade. A produção evitou o uso excessivo de efeitos digitais na construção do monstro. A equipe priorizou efeitos práticos para honrar a estética artesanal característica da filmografia do diretor.
A união entre a literatura gótica europeia e a arte performática oriental criou uma camada cultural distinta para o longa-metragem. A trilha sonora lírica acompanha o desenvolvimento do personagem central em sua jornada de descoberta e rejeição. O resultado final entrega uma visão fiel ao espírito original do livro publicado no século XIX, atualizado por métodos de preparação contemporâneos.
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