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Irã nega ter atacado navio dos EUA e promete defender Estreito de Ormuz com “firmeza”

Estreito de Ormuz
Foto: Estreito de Ormuz - GreenOak/shutterstock.com

O Irã afirmou nesta segunda-feira que impediu navios de guerra americanos de entrar no Estreito de Ormuz, mas desmentiu ter atacado qualquer embarcação dos EUA na região. A agência iraniana Fars havia relatado inicialmente que dois mísseis atingiram uma fragata americana, porém a Marinha iraniana e autoridades de Teerã ajustaram o discurso para chamar os disparos de “avisos decisivos” destinados a afastar as embarcações inimigas da via marítima estratégica.

Os EUA, por sua vez, negaram categoricamente qualquer incidente envolvendo seus navios. O Comando Central do Exército americano declarou que nenhuma embarcação da Marinha dos EUA foi atingida durante o período em questão. O presidente Donald Trump, que anunciou uma operação para escoltar navios comerciais através do Estreito de Ormuz, confirmou que as Forças Armadas americanas já iniciaram a primeira escolta de embarcações com bandeira dos EUA pela passagem no Golfo Pérsico.

Versões conflitantes sobre disparos na região

Agências de notícias iranianas apresentaram relatos contraditórios nas primeiras horas de segunda-feira. A agência Fars publicou inicialmente que dois mísseis atingiram um navio de guerra dos EUA, informando que a fragata foi forçada a recuar e deixar a área devido aos impactos. Horas depois, a mesma agência revisou sua narrativa para afirmar que se tratava de “disparos de advertência” pela Marinha iraniana.

A agência Tasnim citou fontes não identificadas alegando que Teerã disparou contra navios de guerra americanos. Já a Marinha iraniana, em declaração transmitida pela televisão estatal, confirmou ter emitido um “aviso rápido e decisivo” para impedir a entrada de embarcações inimigas em Ormuz, mas não confirmou se houve qualquer disparo direto contra os navios ou dano às embarcações.

Um alto funcionário do governo iraniano admitiu à agência Reuters que o Irã disparou um tiro de advertência contra um navio de guerra americano, embora tenha deixado em aberto se houve algum dano material à embarcação. A informação contrasta com a negação categórica do Comando Central dos EUA, que afirma que seus navios não foram alvo de ataques e que suas operações prosseguem conforme planejado.

Os Emirados Árabes Unidos informaram em comunicado que o Irã atacou um petroleiro de sua empresa estatal, a ADNOC, enquanto transitava pelo Estreito de Ormuz. Os emirados condenaram formalmente a ação e expressaram preocupação com a segurança da navegação comercial na região.

Bandeiras do Irã e dos Estados Unidos
Bandeiras do Irã e dos Estados Unidos -SofiaOlinescu/shuttestock.com

Irã mapeia controle sobre via marítima estratégica

O Irã divulgou nesta segunda um novo mapa do Estreito de Ormuz destacando em vermelho a área que afirma estar sob controle total de suas Forças Armadas. O mapa foi publicado um dia após Trump anunciar que os EUA ajudariam navios comerciais a atravessar a passagem bloqueada pelo regime iraniano desde 28 de fevereiro.

O documento mostra duas linhas vermelhas delimitando as zonas sob gestão e controle das Forças Armadas iranianas. Uma das linhas está posicionada a oeste da passagem, entre a ilha iraniana de Qeshm e a costa dos Emirados Árabes Unidos a noroeste de Dubai. A segunda linha, ao sul de Ormuz, fica entre a costa norte de Omã e a costa iraniana, abrangendo uma faixa significativa do tráfego marítimo regional.

Porta-vozes militares iranianos reiteraram que a passagem de navios pela via marítima deve ser coordenada com Teerã e que qualquer embarcação que viole as novas linhas delimitadas enfrentará “sérios riscos”. O comandante Abdolrahim Mousavi Abdollahi, do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, declarou publicamente que “qualquer força armada estrangeira, especialmente o agressivo Exército dos EUA, será alvo e será atacada” se tentar se aproximar do Estreito de Ormuz.

A Guarda Revolucionária iraniana complementou as advertências afirmando que “movimentações marítimas que contrariem os princípios anunciados pela Marinha da Guarda Revolucionária enfrentarão sérios riscos e serão detidas com firmeza”. O porta-voz Mohseni reforçou que o regime não tolerará tentativas de contornar o bloqueio estabelecido desde o fim de fevereiro.

Operação americana para liberar tráfego comercial

As Forças Armadas dos EUA informaram nesta segunda ter escoltado os primeiros navios comerciais com bandeira americana pelo Estreito de Ormuz após Trump anunciar a operação militar. A iniciativa, batizada de “Projeto Liberdade”, tem o objetivo de garantir a passagem segura de embarcações comerciais presas no Golfo Pérsico devido ao bloqueio iraniano.

Trump declarou que a operação visaria libertar “pessoas, empresas e países que seriam vítimas das circunstâncias” do bloqueio estabelecido pelo Irã. O presidente americano alertou que qualquer interferência no processo seria “combatida com firmeza” pelas Forças Armadas dos EUA. A operação marca uma escalada nas tensões entre Washington e Teerã, que já haviam aumentado significativamente desde o início do conflito no Oriente Médio em 28 de fevereiro.

Os EUA iniciaram seu próprio bloqueio ao Estreito de Ormuz em 13 de abril como forma de pressionar o regime iraniano. Segundo o Exército norte-americano, 48 navios ligados ao regime iraniano já foram redirecionados como parte da estratégia de sanção econômica. A medida representa uma resposta direta ao fechamento de Ormuz pelo Irã, que afeta aproximadamente 20% do fluxo mundial de petróleo e prejudica severamente a economia global.

Impasse diplomático persiste apesar de cessar-fogo

Embora o conflito esteja em cessar-fogo desde início de abril, as negociações para reaberturas da via marítima não avançaram. O Irã continua negando acesso ao Estreito de Ormuz, contrariando os apelos dos EUA e da comunidade internacional para liberar a passagem vital.

A mídia estatal iraniana informou que Teerã recebeu uma resposta dos EUA à sua proposta de 14 pontos para finalizar a guerra, proposta que havia sido enviada por intermédio do Paquistão como mediador. O governo iraniano indicou estar analisando a resposta de Washington, sugerindo que negociações discretas continuam ocorrendo nos bastidores, apesar das tensões públicas e das ameaças militares.

Os pontos principais das discordâncias permanecem sem resolução:

  • O bloqueio do Estreito de Ormuz mantém-se totalmente ativo desde 28 de fevereiro
  • Os EUA exigem reabertura da via marítima como pré-requisito para novos acordos
  • O Irã condiciona a reabertura a reconhecimento de sua soberania sobre a região
  • A falta de clareza sobre incidentes militares dificulta construção de confiança entre as partes
  • Ambos os lados mantêm operações de bloqueio para pressionar negociações

A situação permanece volátil, com risco de escalada caso novos incidentes ocorram durante as operações de escolta americana. Especialistas alertam que qualquer acidente ou mal-entendido poderia reigniciar hostilidades abertas no Oriente Médio, afetando novamente a estabilidade regional e os preços globais de energia.

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