Cometa interestelar revela água deuterada em concentração 40 vezes maior que oceanos terrestres
Astrônomos detectaram concentrações extraordinárias de água deuterada no cometa interestelar 3I/ATLAS usando o radiotelescópio ALMA, localizado no deserto do Atacama, no Chile. A descoberta, divulgada em 23 de abril na revista Nature Astronomy, marca a primeira identificação de deutério em um objeto interestelar. As medições foram realizadas em novembro, poucos dias após o cometa passar a 203 milhões de quilômetros do Sol. O achado oferece pistas cruciais sobre as condições de formação de sistemas planetários em outras regiões da galáxia.
Deutério em concentração inédita no espaço interestelar
A abundância de água deuterada encontrada no 3I/ATLAS supera em muito os valores conhecidos. Conforme Luis Eduardo Salazar Manzano, autor principal do estudo e doutorando em astronomia pela Universidade de Michigan, a concentração é mais de 40 vezes superior à dos oceanos terrestres e mais de 30 vezes maior que a detectada em cometas do sistema solar. O deutério é um isótopo raro do hidrogênio que contém um nêutron adicional, tornando a água deuterada, ou HDO, aproximadamente duas vezes mais pesada que a água comum.
El agua de 3I/ATLAS contiene hasta 40 veces más deuterio que la Tierra, revelando un origen en nubes cósmicas ultrafrías nunca vistas así ☄️😱https://t.co/AQ0cDA0np7
— ecoosfera (@ecoosfera) April 29, 2026
A detecção dessa molécula fornece informações valiosas sobre o ambiente de formação do cometa. O enriquecimento em deutério ocorre tipicamente quando a água se forma em nuvens moleculares extremamente frias no espaço interestelar, durante a época em que sistemas solares ao redor de outras estrelas emergem. As análises indicam que o 3I/ATLAS se originou em um ambiente com temperaturas inferiores a 30 Kelvin, equivalentes a menos 243,14 graus Celsius.
Origem antiga e preservação de propriedades cósmicas
Pesquisas anteriores sugerem que o cometa interestelar pode ter até 11 bilhões de anos, muito mais antigo que o sistema solar e o próprio Sol, formado há 4,5 bilhões de anos. A água aprisionada no 3I/ATLAS provavelmente se originou antes de sua estrela hospedeira, mas o cometa nasceu posteriormente a partir de um disco protoplanetário de gás e poeira que orbitava a estrela. Os cientistas acreditam que o sistema se formou nas regiões mais externas do disco, preservando a abundância de água deuterada ao longo de bilhões de anos.
Temperaturas mais elevadas poderiam reduzir a quantidade de deutério através de reações químicas, portanto a localização periférica do cometa foi essencial para manter suas propriedades originais intactas. As descobertas concordam com observações anteriores que identificaram alta abundância de dióxido de carbono dentro do objeto. Essa combinação de características é consistente com um corpo formado na periferia de um disco protoplanetário, funcionando como uma impressão digital cósmica que revela as condições físicas do sistema planetário onde nasceu.
Cápsulas do tempo do universo primitivo
Os objetos interestelares funcionam como cápsulas do tempo que trazem material dos ambientes onde outros sistemas planetários se formaram. As medições do 3I/ATLAS permitem aos cientistas observar as condições físicas onde esses corpos se originaram. A presença de deutério atua como impressão digital, mostrando essencialmente com o que o cometa nasceu e como era a Via Láctea há mais de 10 bilhões de anos, quando era menos rica em metais do que atualmente.
À medida que a galáxia envelheceu, os tipos de cometas que ela formou mudaram ao longo do tempo, alterando também os tipos de planetas que ela pode gerar. Esses cometas interestelares são interessantes não apenas pelo que são ou como se parecem, mas por permitirem aos astrônomos olhar para o passado e descobrir se os planetas em outros sistemas se assemelham aos do sistema solar.
Tecnologia observacional e desafios das medições
O radiotelescópio ALMA foi fundamental para essa descoberta revolucionária. Diferentemente dos telescópios tradicionais, consegue apontar para o Sol em ângulos mais próximos. Os radiotelescópios detectam ondas de rádio de baixa energia em vez de luz visível ou calor, que poderiam danificar componentes ópticos de telescópios como o Telescópio Espacial James Webb. A equipe utilizou o ALMA logo após o cometa se aproximar do Sol, quando o gelo sublimava e se tornava gás detectável devido ao calor solar.
- Detecção de água deuterada em concentrações nunca antes registradas em objeto interestelar
- Primeira identificação de deutério fora do sistema solar
- Medições realizadas em novembro, dias após o periélio do cometa
- Confirmação de abundância de dióxido de carbono previamente detectado
- Uso de radiotelescópios para preservar integridade dos dados observacionais
Os pesquisadores esperavam detectar água comum, mas ela não foi identificada no experimento. Isso não significa que o 3I/ATLAS não possuísse água comum, apenas que estava abaixo da sensibilidade das observações. Contudo, a detecção de água deuterada apesar da ausência de água comum indicou imediatamente que o 3I/ATLAS era um objeto verdadeiramente incomum.
Futuro das investigações sobre visitantes cósmicos
É improvável que os astrônomos consigam determinar de qual sistema planetário o 3I/ATLAS se originou. O corpo celeste continuará se afastando do sistema solar sem deixar rastros que levem diretamente à sua origem. Ainda assim, fornecerá informações valiosas sobre como outros sistemas planetários se formaram e evoluíram. O Observatório Vera C. Rubin, localizado no Chile, divulgou suas primeiras imagens em junho e espera-se que detecte objetos interestelares com maior frequência, permitindo determinar se o 3I/ATLAS é um caso atípico ou se outros cometas semelhantes contêm enriquecimento similar de deutério.













