Ushuaia nega ser origem do surto de hantavírus no cruzeiro

Estetoscópio, hantavírus

Estetoscópio, hantavírus -airdone/shutterstock.com

Autoridades da Terra do Fogo negam categoricamente que a cidade turística de Ushuaia tenha sido o ponto de partida do surto de hantavírus que infectou passageiros do navio de cruzeiro holandês MV Hondius. Juan Facundo Petrina, diretor-geral de Epidemiologia e Saúde Ambiental da província, reafirma que não há registros de casos da doença na região desde 1996, quando o Sistema Nacional de Vigilância tornou sua notificação obrigatória. A embarcação deixou o porto de Ushuaia em 1º de abril, transportando 114 passageiros e 61 tripulantes de 22 países, e atualmente está ancorada em Tenerife, nas Ilhas Canárias da Espanha, onde os viajantes estão sendo evacuados.

A contaminação a bordo do navio colocou Ushuaia sob intenso escrutínio mediático internacional. Especialistas e autoridades locais argumentam que a infecção ocorreu semanas antes de os turistas embarcarem, possivelmente em regiões montanhosas da Patagônia distantes de Ushuaia. Petrina estima que o casal holandês que faleceu foi infectado entre 16 de fevereiro e 13 de março, período em que viajavam por Argentina, Chile e Uruguai, muito antes de chegarem à Terra do Fogo.

Argumentos contra a origem em Ushuaia

Petrina enfatizou em coletivas de imprensa dos últimos dias que sua província é uma fonte improvável da contaminação. A zona endêmica do hantavírus fica a mais de 1,5 mil quilômetros ao norte, nas regiões de Neuquén, Río Negro e Chubut. A Terra do Fogo não possui a subespécie específica do camundongo de cauda longa responsável pela transmissão do vírus, nem compartilha as mesmas condições climáticas necessárias para o desenvolvimento do patógeno. Umidade e temperatura na região sul são significativamente diferentes.

O epidemiologista ressaltou ainda que roedores enfrentariam dificuldades geográficas adicionais para chegar à Terra do Fogo. Por ser uma ilha, qualquer migração animal precisaria atravessar o Estreito de Magalhães, uma barreira praticamente intransponível. Mesmo que espécies contaminadas conseguissem se deslocar da região endêmica ao norte, as limitações impostas pelo isolamento geográfico tornariam a infecção local extremamente improvável.

Autoridades chilenas e uruguaias concordam com essa avaliação. Com base no período de incubação estimado pela Organização Mundial da Saúde, entre uma e oito semanas, ambas as nações descartaram que o casal holandês tenha contraído o vírus em seus territórios. Isso deixa a Argentina como local provável da infecção, mas não necessariamente Ushuaia.

Cruzeiro Hantavírus – (Photo by Chris McGrath/Getty Images)

Investigação em campo e hipóteses alternativas

Apesar das negativas locais, o governo nacional argentino anunciou o envio de uma equipe de especialistas para investigar se há vestígios do hantavírus na província ou se o camundongo de cauda longa chegou à região. A missão inclui captura de roedores no aterro sanitário dos arredores de Ushuaia para testagem viral. Uma das teorias especula que um passageiro pode ter sido infectado naquele local, frequentado por turistas interessados em observação de pássaros, onde lixo atrai ratos e camundongos.

Autoridades argentinas que falaram anonimamente a meios de comunicação apontaram esse aterro como hipótese principal. Contudo, a sugestão gerou resistência local significativa. Quando a BBC visitou o local, havia dezenas de pássaros circulando sobre pilhas de lixo, mas nenhum sinal de investigação em curso. Dois dias após o anúncio do envio da equipe federal, os especialistas ainda não haviam chegado.

Mudanças no ecossistema preocupam especialistas

Eduardo López, chefe do Departamento de Medicina e Doenças Infecciosas do Hospital Infantil Ricardo Gutiérrez em Buenos Aires, alerta que a mudança climática e alterações no ecossistema exigem investigação mais aprofundada. O rato oligoryzomys longicaudatus, cujo habitat original eram os Andes da Patagônia e o noroeste argentino, hoje é encontrado na província de Buenos Aires ao lado de outros roedores transmissores do hantavírus. Essa expansão geográfica do hospedeiro animal sugere que as barreiras naturais podem estar cedendo.

A posição de López contrasta com a segurança demonstrada por Petrina, indicando debate técnico aberto sobre a possibilidade real de expansão do vírus para o sul. Nenhuma das partes apresenta dados conclusivos, deixando espaço para interpretações divergentes. O Ministério Nacional da Saúde reconheceu essa incerteza, declarando que “não podemos descartar, em princípio, que as infecções tenham ocorrido na Terra do Fogo”, mas enfatizou a ausência de casos documentados na região.

Impacto econômico na indústria turística

A sombra do surto ameaça economicamente a região mais jovem e menos populosa da Argentina. Juan Manuel Pavlov, do Instituto de Turismo da Terra do Fogo, informou que mais de 95% dos barcos que viajam para a Antártida partem do porto de Ushuaia. Com mais de 500 escalas portuárias por ano, a indústria de cruzeiros é fundamental para as finanças provinciais. Exploração de hidrocarbonetos e pesca complementam a economia local, mas o turismo é vetor crescente de renda.

Até o momento, apesar do aumento em consultas de operadores internacionais, não houve cancelamentos oficiais de cruzeiros. Porém, como a temporada de cruzeiros terminou em meados de abril, impactos econômicos de longo prazo podem levar meses para se manifestar. Pavlov afirmou estar trabalhando nos principais mercados turísticos globais para evitar que o surto prejudique a reputação conquistada. A temporada de inverno, que se aproxima, é esperada como período de recuperação.

Turistas mantêm planos apesar do surto

No porto de Ushuaia, a vida segue com aparente normalidade. Turistas passeiam pela orla e se reúnem para excursões — para a Isla de los Estados, conhecida pelo famoso farol do “fim do mundo”, ou ao longo do Canal de Beagle. Conversas com visitantes revelam tranquilidade sustentada pela ausência de casos confirmados locais.

David Bomparp, venezuelano morando em Medellín, Colômbia, chegou com sua parceira Daniela Sandoval dias após o surto vir à tona. Planejaram a viagem em outubro e descobriram a contaminação um dia antes de embarcar. “Até onde entendemos, nada havia sido confirmado aqui”, disse Bomparp. Sandoval relatou que sua mãe enviava links e vídeos do Instagram à noite, preocupada, mas ela tranquilizou a família sobre a ausência de casos locais.

Jordan Bermúdez, turista costarriquenho, chegou de Punta Arenas no Chile em 5 de maio. Seu grupo pesquisou sobre o hantavírus antes de viajar, mas manteve os planos. “Chegamos, encontramos a cidade tranquila, fizemos todos os passeios planejados e achamos tudo normal”, informou. Adonis Carvajal, funcionário de operadora turística, declarou que “a ausência de casos é muito reconfortante” e que turistas perguntam sobre infecções na província, mas o fato de não haver pessoas doentes “traz calma”.

Reconstrução de viagem do casal holandês

As autoridades de saúde continuam tentando determinar a origem exata da infecção. Acreditam que um dos casais holandeses que contraiu o vírus e faleceu é o “paciente zero” do surto. Usaram registros de entrada e saída de fronteira para reconstruir a trajetória do casal pela Argentina, Chile e Uruguai antes do embarque em Ushuaia.

Petrina concorda que o casal provavelmente contraiu a doença na Argentina, mas acredita que isso ocorreu duas a quatro semanas antes do cruzeiro. Poderia ter sido em região montanhosa da Patagônia, possivelmente nas províncias de Chubut, Neuquén ou Río Negro. Essa cronologia coloca a infecção muito distante de Ushuaia e da Terra do Fogo.

A evacuação dos passageiros e tripulação do MV Hondius em Tenerife poderá fornecer pistas adicionais. Testes e análises dos viajantes podem revelar informações sobre quando e onde a contaminação ocorreu. Por enquanto, sem o casal holandês para esclarecer lacunas e com autoridades incapazes de reconstruir totalmente seus movimentos, muitas questões sobre a origem exata do surto permanecem em aberto.

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