Pesquisadores identificam identidade de escravo retratado em pintura do século XVIII
Investigadores britânicos finalmente responderam uma questão que intrigava historiadores da arte há séculos. O menino retratado pelo pintor Joshua Reynolds em 1748 não era um personagem fictício, mas uma pessoa real. Pesquisadores do National Trust, National Gallery e Royal Museum Greenwich descobriram que ele se chamava Boston Jersey, depois batizado como George Walker aos 15 anos.
A pintura mostra um jovem elegantemente vestido em casaco azul-marinho, colete vermelho e turbante branco bordado, posicionado ao lado de Paul Henry Orley, tenente da Marinha Real Britânica. Durante séculos, sua identidade permaneceu um mistério nas coleções do patrimônio britânico.
Documentos públicos revelam nome e origem
Os pesquisadores descobriram o nome completo de Boston Jersey analisando meticulosamente documentos do governo britânico, cartas da época e o diário de bordo da tripulação. O sobrenome “Jersey” possivelmente se originou porque Paul Henry Orley nasceu em St. Helier, na ilha de Jersey, no arquipélago das Ilhas do Canal. A família de Orley, huguenote (calvinista francesa), havia fugido da França para escapar da perseguição religiosa.
Boston Jersey pode ter vivido em Massachusetts antes de vir para a Inglaterra. O registro de batismo de 30 de julho de 1752 na capela de Westminster, Londres, afirma: “Um menino negro conhecido como Boston Jersey, George Walker, foi batizado aos 15 anos”. A certidão sugere que ele tinha aproximadamente 11 anos quando Reynolds concluiu o retrato.
Segundo Mark Brasche, geógrafo histórico e pesquisador voluntário da Universidade de Plymouth, o diário de bordo continha o nome completo do menino. A origem do primeiro nome permanece incerta, embora estudiosos acreditem que ele recebeu o sobrenome Jersey como referência à ilha natal de seu patrão. Era prática comum no início do século XVIII enviar meninos africanos menores de 10 anos para a Inglaterra para trabalhar como empregados domésticos em famílias ricas.
Carreira naval comprova existência como pessoa real
A investigação revelou que Boston Jersey não era apenas uma figura decorativa na tela. Registros da Marinha Real Britânica documentam sua carreira naval real. Ele navegou com o Tenente Orley em 3 navios diferentes durante mais de 5 anos, comprovando sua existência como indivíduo com história de vida própria.
Uma lista de tripulantes de 1751 indica que Jersey foi promovido de Marinheiro de Segunda Classe a Marinheiro de Primeira Classe enquanto estava a bordo do HMS Monmouth em dezembro de 1748. Registros anteriores o listavam como assistente de Orley, mas em documentos posteriores aparece ao lado de outros membros da tripulação programados para deixar o navio conforme folha de pagamento para acertar salários atrasados.
Isso sugere que Jersey recebia salário da Marinha Real. Contudo, o historiador Brasche observa que também é possível que o salário não pago tenha sido creditado a Orley. A última pista sobre seu paradeiro é um registro de partida de outro navio britânico, o Dettford, em agosto de 1753, presumivelmente do porto de Mahon, na ilha de Menorca.
Técnicas científicas revelam processo artístico de Reynolds
Pesquisadores utilizaram tecnologias avançadas para examinar como Reynolds criou a obra:
- Tomografias de raios X revelaram detalhes ocultos
- Fotografia de reflexão infravermelha expôs camadas de tinta
- Microscopia de superfície avaliou propriedades do material
- Análise química de amostras de tinta foi conduzida
As investigações científicas indicam que a representação de Jersey provavelmente é imprecisa. Análises de raio-X mostram que Reynolds esboçou a cabeça de Orley antes de pintá-la completamente, enquanto a de Jersey não foi esboçada. Isso sugere que Jersey não foi retratado como modelo vivo sentado para a pintura, mas possivelmente representado em posição subordinada.
Reynolds também modificou substancialmente o fundo da obra. Inicialmente, esboçou galhos exuberantes como elemento decorativo natural, mas posteriormente substituiu-os por um fundo marrom liso. De acordo com Zoe Shearman, gerente de propriedade do National Trust em Saltram House, Reynolds realizou alterações nas áreas onde os dois personagens se encontram. O Jersey original segurava um pano vermelho que foi modificado.
Contexto artístico do século XVIII
Shearman ressalta que pintores do século XVIII frequentemente incluíam pessoas de cor em retratos de indivíduos brancos ricos para conferir glamour e destacar o status elevado do retratado principal. Algumas dessas representações retratavam personagens fictícios. Por isso, não era necessariamente verdade que o modelo negro de fato existisse em todos os casos.
“É por isso que é realmente importante começar o trabalho de fundamentar isso e trazer à tona a história por trás disso”, disse Shearman à CNN. A descoberta da documentação sobre Boston Jersey, ou George Walker, representa um avanço significativo na compreensão da vida cotidiana de pessoas negras na Grã-Bretanha do século XVIII.
Segundo Shearman, a investigação é apenas o começo. Pesquisadores esperam descobrir mais informações sobre Boston Jersey no futuro, ampliando o conhecimento sobre sua vida após 1753 e seu legado histórico.
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