Ciência

Perda de gelo no Ártico supera ponto de inflexão e afeta nutrientes essenciais

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Foto: oceano ártico - juan68/Shutterstock.com

Uma mudança química irreversível no Oceano Ártico, impulsionada pelas mudanças climáticas, está afetando diretamente a cadeia alimentar da região. Um novo estudo da Universidade de Edimburgo revela que um ponto de inflexão crucial já foi ultrapassado, com impactos significativos para o ecossistema marinho. A pesquisa destaca a perda generalizada de gelo marinho, que resultou em uma queda acentuada nos níveis de um nutriente vital.

Essa diminuição afeta populações de plâncton, peixes, aves marinhas e mamíferos marinhos, que dependem desse nutriente para sua sobrevivência e desenvolvimento. A análise detalhada aponta que a exposição à luz solar em vastas regiões rasas do oceano, antes protegidas pelo gelo, alimenta um processo que decompõe o nitrato e o remove da água do mar.

Impacto na composição química do Oceano Ártico

A queda nos níveis de nitrato remodela drasticamente os ecossistemas do Ártico. O nitrato é fundamental para o crescimento do plâncton, que forma a base da cadeia alimentar local. Níveis reduzidos desse nutriente limitam a quantidade de vida que o ecossistema pode sustentar, comprometendo a biodiversidade da região.

A diminuição do nitrato também pode reduzir a capacidade do Oceano Ártico de armazenar carbono. Isso ocorre porque o plâncton desempenha um papel crucial na captura de carbono da atmosfera por meio da fotossíntese. A equipe de pesquisadores alerta para as consequências de longo prazo dessa alteração. Estudos anteriores haviam relatado mudanças nas populações de animais nas águas do Ártico, mas as causas eram pouco compreendidas devido à escassez de análises aprofundadas da composição química do oceano.

Duas décadas de dados de monitoramento do Ártico

Pesquisadores da Universidade de Edimburgo obtiveram novas informações sobre as alterações nos níveis de nutrientes no Oceano Ártico. Para isso, analisaram dados que abrangem um período de 20 anos. A equipe avaliou mais de duas décadas de informações de amostragem coletadas no Estreito de Fram, a principal passagem por onde as águas do Ártico fluem para o Oceano Atlântico.

A análise revelou uma mudança clara a partir de 2009. Os níveis de nitrato nas águas que saem do Ártico têm caído constantemente desde então. A queda nesses níveis coincidiu com uma redução drástica no gelo marinho do Ártico, que começou por volta da mesma época. Essa correlação indica uma ligação direta entre o degelo e a disponibilidade de nutrientes essenciais para a vida marinha.

Perda de gelo marinho e desnitrificação bentônica

A extensa perda de gelo marinho intensificou um processo conhecido como desnitrificação bentônica. Este processo converte o nitrato em nitrogênio gasoso em plataformas continentais rasas, que se estendem por quase metade do Oceano Ártico. Essa mudança nas condições de nutrientes sugere que o Oceano Ártico poderá, no futuro, sustentar apenas espécies menores de plâncton, o que resultará em menos alimento disponível para os níveis tróficos superiores da cadeia alimentar.

Os pesquisadores observam que a alteração nas condições de nutrientes é impulsionada pela contínua perda de gelo marinho. Por isso, é muito improvável que o Oceano Ártico retorne ao seu estado anterior. A situação representa um desafio significativo para a conservação e gestão dos ecossistemas polares.

Cientistas alertam para repercussões globais

Mais pesquisas são necessárias para compreender os possíveis efeitos mais amplos que as mudanças nas águas do Ártico podem ter sobre as populações marinhas em outras partes dos oceanos do mundo, incluindo o Atlântico Norte. O estudo envolveu cientistas do Instituto Polar Norueguês, da Associação Escocesa de Ciências Marinhas, da Universidade Técnica da Dinamarca e do Instituto Alfred Wegener, na Alemanha.

Marta Santos-García, doutoranda na Escola de Geociências da Universidade de Edimburgo e co-líder do estudo, afirmou que, por anos, acreditou-se que a perda de gelo marinho no Oceano Ártico aumentaria o crescimento do fitoplâncton, pois mais luz solar atingiria as águas superficiais. No entanto, os resultados sugerem que essa relação mudou. O Oceano Ártico parece ter passado de um sistema principalmente limitado pela luz para um cada vez mais limitado pela disponibilidade de nitrato, com consequências de longo alcance para os ecossistemas marinhos, as cadeias alimentares e o papel do Ártico no clima da Terra.

O professor Raja Ganeshram, da Escola de Geociências da Universidade de Edimburgo, que liderou o estudo nas últimas duas décadas, acrescentou que as mudanças relatadas indicam que o ecossistema do Oceano Ártico ultrapassou um ponto de inflexão por volta de 2009. Ele enfatizou que a forma como essa mudança se propaga pela cadeia alimentar precisa ser monitorada de perto, pois tem implicações profundas, inclusive para a pesca comercial no Oceano Atlântico Norte.