JWST revela barra estelar de 7 kpc em GN20, desafiando modelos do universo primordial
Astrônomos utilizando o Telescópio Espacial James Webb (JWST) identificaram uma barra estelar na galáxia massiva GN20. Observada apenas 1,5 bilhão de anos após o Big Bang, essa descoberta contesta as expectativas estabelecidas pelo modelo padrão da formação galáctica. O estudo, conduzido por Leindert A. Boogaard, da Universidade de Leiden, foi submetido ao servidor de pré-publicações arXiv em 14 de maio, destacando um fenômeno até então considerado improvável em galáxias tão jovens.
Barras estelares são estruturas alongadas de estrelas que atravessam o centro de uma galáxia, funcionando como funis cósmicos. Elas canalizam gás para o núcleo galáctico, o que intensifica a formação estelar, alimenta buracos negros centrais e contribui para a construção de núcleos densos. No universo próximo, estas barras são comuns, inclusive na Via Láctea, porém sua formação é tida como um processo lento, que leva bilhões de anos para se desenvolver.
Descoberta e Observação de GN20
A galáxia GN20 é um sistema massivo e rico em gás, localizado em um desvio para o vermelho de 4, tornando-a distante e tênue. Apesar de estar envolta em poeira, o instrumento de infravermelho médio (MIRI) e a câmera de infravermelho próximo (NIRCam) do JWST permitiram a penetração dessa camada. Essas ferramentas revelaram a estrutura interna da galáxia com detalhes inéditos.
A análise isofotal, que mede como o brilho da luz da galáxia se estica e gira do centro para fora, mostrou uma estrutura em barra nítida. Esta barra se estende por sete quiloparsecs de ponta a ponta. Uma análise matemática independente do padrão de luz confirmou autonomamente a detecção. Observações submilimétricas de alta resolução do Northern Extended Millimeter Array (NOEMA) corroboraram a presença de uma característica em forma de barra na poeira mapeada, demonstrando um forte alinhamento entre a barra estelar e a barra de poeira.
Barra Estelar Desafia Modelos Teóricos
A detecção de uma barra estelar em GN20 é notável porque, segundo as teorias existentes, sua existência deveria ser improvável por pelo menos três motivos fundamentais. Os pesquisadores indicam que a galáxia primitiva, rica em gás, teria condições desfavoráveis para a formação de tais estruturas.
- Colapso Estrutural: Barras estelares que se formam normalmente são consideradas resistentes, mas as condições iniciais do universo sugeriam que elas colapsariam sob o próprio peso.
- Tempo de Crescimento: O crescimento de uma barra até sete quiloparsecs levaria bilhões de anos, um período incompatível com a idade observada da GN20 (1,5 bilhão de anos após o Big Bang).
- Supressão por Gás: A abundante quantidade de gás nas galáxias primitivas deveria ter suprimido ou retardado a formação das barras, conforme os modelos padrão.
A equipe, no entanto, aponta que todos esses obstáculos podem ser superados pela presença de gás altamente turbulento em todo o disco interno com alta fração de gás.
Turbulência do Gás e Formação da Barra
A pesquisa de Boogaard et al. sugere que a chave para a formação da barra estelar em GN20 reside na condição de seu gás. A turbulência e a alta fração de gás no disco interno da galáxia teriam permitido a estabilização e o crescimento da barra. Esta é uma explicação crucial que integra as observações com a teoria, ajustando o entendimento sobre a evolução inicial das galáxias.
Embora os pesquisadores mencionem incertezas, como a estimativa da massa estelar da barra e das regiões do núcleo devido à extrema quantidade de poeira, a conclusão principal permanece. Eles afirmam que GN20 é um sistema rico em gás e a barra estelar é real. O instrumento MIRI do JWST foi fundamental para tornar a poeira transparente e revelar essas estruturas internas complexas.
Implicações para a Evolução Galáctica
As observações detalhadas de GN20 também indicam onde a formação estelar está concentrada. No ponto onde a barra encontra o disco externo ao sul, o gás se acumula e desencadeia um ponto quente de intensa formação estelar. No centro, a barra atrai material para dentro, alimentando uma explosão estelar nuclear e possivelmente um buraco negro supermassivo. Este fator é provavelmente crucial para a extraordinária taxa de formação estelar de GN20, que supera 1.000 massas solares por ano.
Essa alta taxa de formação estelar pode ser impulsionada pela barra que canaliza gás e poeira para o centro, onde ela desencadeia uma intensa explosão estelar nuclear no disco rico em gás e alimenta o potencial núcleo galáctico ativo. A descoberta sugere que galáxias como GN20 podem não ser simplesmente uma fase na evolução galáctica. A formação estelar impulsionada pela barra poderia explicar o enigma de como as galáxias elípticas massivas e mortas, observadas no universo atual, alcançaram esse estado, e por que algumas delas parecem ter se extinguido tão cedo. Este achado representa um elo perdido significativo para compreender a evolução das galáxias.
Veja Tambem em Ciência
Avi Loeb sugere que cometa escuro 1998 KY26 pode ser sonda soviética Phobos 1
Avi Loeb explica explosão de meteoro que abalou Massachusetts com energia de 2% da bomba de Hiroshima
Imagens de satélite registram destruição após explosão do foguete New Glenn
Lua cheia de junho de 2026 ocorre na segunda-feira com o Strawberry Moon
Projeto Svarog e outros testes mostram potencial e limites das velas solares no espaço
Ondas de choque de estrelas moribundas esculpem berçários estelares em forma de roda de carroça cósmica
Estudo de Imperial College aponta velas solares para borda do Sistema Solar em 10 ou 20 anos
Venera 13 pousou em Vênus em 1982 e enviou primeiras fotos coloridas da superfície
Astrofotógrafo registra Nebulosa Cabeça de Cavalo em 115 horas com telescópio de quintal
Telescópio James Webb faz primeira medição direta de buraco negro supermassivo antigo
Meteorito de 4,5 bilhões de anos revela evidências de fontes termais antigas em Marte