A 86ª cerimônia do Peabody Awards, realizada em 31 de maio de 2026 no Beverly Wilshire Hotel em Beverly Hills, Califórnia, destacou uma variedade de temas, que incluíram desde investigações de crimes de guerra até programas de entretenimento. Apresentada pelo comediante Mo Amer, a noite celebrou a excelência em mídia, unindo a importância de pautas sociais sérias com o impacto da cultura pop.
Em meio a documentários e noticiários que expuseram horrores como abuso em prisões e a guerra em Gaza, dois nomes do entretenimento, Jimmy Kimmel e Tony Gilroy, aproveitaram seus reconhecimentos para lançar fortes críticas ao autoritarismo e à censura. Suas falas ressoaram com o público, sublinhando a responsabilidade da mídia em tempos de volatilidade política.
Kimmel recebe Peabody por sátiras e critica censura da FCC
“Jimmy Kimmel Live!” foi um dos 34 vencedores do Peabody Awards, e o apresentador Jimmy Kimmel brincou ao dizer que se sentia “mais burro” ao ser premiado ao lado de trabalhos de grande profundidade jornalística. No entanto, em seu discurso de aceitação, ele fez questão de lembrar que “fazer piadas sobre o Presidente – na América – não deveria render um prêmio”. O direito de criticar e satirizar líderes, garantido pela Constituição, foi algo que ele “deu por certo” por 57 anos, até uma “surpresa desagradável” da FCC em setembro do ano anterior.
Kimmel foi homenageado por “abraçar a responsabilidade da comédia de revelar verdades em meio à volatilidade política”. Ele contou que, após a breve suspensão da ABC por ameaças da FCC, milhões de pessoas de diversos espectros políticos se manifestaram.
- Elas se manifestaram;
- Marcharam em protesto;
- Cancelaram assinaturas de “Star Wars”;
- Enviaram uma mensagem clara de que não tolerariam a censura.
O apresentador enfatizou a importância de “não ficar de braços cruzados quando a comédia, o jornalismo e a dissidência são censurados, regulamentados e criminalizados”. Com seu humor característico, Kimmel também enumerou alguns dos apelidos que usou para se referir a Donald Trump, os quais teriam “incomodado” o ex-presidente. Entre eles: “Fattyshack”, “Blob the Builder”, “Lie-ger Woods”, “Hungry Hungry Hypocrite”, “Our Fondling Father”, “Mar-a-Lardo”, “Nelson Tandela”, “Nostra-Dumbass”, “Commander-in-Thief”, “Abrascam Lincoln”, “Orange Julius Caesar”, “Greedy McGolfy”, “Dopey McGropey” e “Pumpkin McPornhumper”. Ben Affleck, que entregou o prêmio a Kimmel, elogiou o anfitrião por demonstrar “o que realmente significa falar a verdade ao poder”.
Criador de “Andor” alerta sobre fascismo e a “torrente de lixo”
Tony Gilroy, criador da série “Andor”, também usou seu discurso para traçar paralelos entre a narrativa de sua obra e a realidade política atual. A série, que explora o que acontece quando forças opressoras tomam o controle em uma galáxia distante, foi celebrada por sua visão premonitória sobre o surgimento de regimes autoritários. Gilroy destacou que, se as pessoas “não estão dispostas a lutar pelas coisas que amam”, como família, comunidade e liberdade, “há um idiota pronto para vir e tirá-las”.
Ele afirmou que a bravura, o sacrifício e a resistência vêm em “todas as formas e tamanhos”, e que a coragem é contagiosa. Gilroy parafraseou um personagem de “Andor” ao mencionar que os opressores buscam cometer tantas atrocidades de uma vez que os cidadãos ficam atordoados, incapazes de prestar atenção a todas elas. Essa “torrente de lixo” impede que as pessoas processem a constante enxurrada de ultrajes que, em outros tempos da história americana, seriam considerados motivos para traição. Ele concluiu com um apelo aos jornalistas, documentaristas e contadores de histórias presentes: “Por favor, não parem. Por favor, não apaguem as luzes até que possamos matar este pesadelo… e f***-se o império!”.
Prêmios reforçam pautas sociais e diversidade na indústria
A cerimônia dos 86º Peabody Awards reconheceu uma ampla gama de produções que abordaram questões significativas, refletindo um compromisso com o jornalismo investigativo e a narrativa social. A noite viu 11 prêmios para entretenimento, dez para documentários (incluindo dois na categoria de artes), cinco para notícias, quatro para programação interativa/imersiva e três para podcasts/rádio. A categoria infanto-juvenil recebeu um prêmio.
Diversos outros discursos de aceitação reforçaram o tom crítico e social. Joseph Patel, produtor de “Sly Lives! (AKA the Burden of Black Genius)”, alertou que as histórias e a história de pessoas negras e pardas nos Estados Unidos estão “sob ataque”. Andrew Jarecki, cineasta de “Alabama Solution”, ressaltou o acesso restrito a prisões americanas e a violência governamental contra quem documenta essas realidades. Halle Bailey, a introduzir vencedores de “confronto à injustiça”, refletiu sobre o preconceito que enfrentou em sua carreira e a importância de criar sem a necessidade de permissão. Sterlin Harjo, ganhador do prêmio Peabody Trailblazer, destacou a importância da diversidade e a história de seus ancestrais que sobreviveram a atos de genocídio. Ele também fez um apelo por tratamento respeitoso e humano na indústria de produção.
O prêmio institucional do Peabody foi concedido à PBS Kids, e James L. Brooks recebeu o Peabody Industry Icon Award, entregue por Matt Groening, criador de “Os Simpsons”. A noite encerrou com Amy Poehler recebendo o Peabody Career Achievement Award, com Ike Barinholtz a introduzi-la, e Poehler comparou o prêmio a uma “banana” para mantê-la em movimento durante a “maratona” de sua carreira. A lista completa de vencedores demonstrou o amplo espectro de reconhecimento da premiação.

