Terremotos na Venezuela causam mais de 160 mortes e 970 feridos; tremores são sentidos no Brasil
A Venezuela foi abalada por dois intensos terremotos na noite da última quarta-feira, resultando em um balanço inicial de 164 mortos e 971 feridos. A informação sobre as vítimas foi oficialmente divulgada pela presidente interina do país, Delcy Rodríguez, durante um pronunciamento na quinta-feira (25/06).
O primeiro abalo sísmico, com magnitude de 7,2 na escala Richter, ocorreu na região da costa central venezuelana. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) confirmou a informação.
O evento inicial foi registrado precisamente às 18h04, hora local, com epicentro localizado nas proximidades de San Felipe, cidade no estado de Yaracuy. Essa área fica a aproximadamente 280 quilômetros a oeste da capital, Caracas.
Em seguida, o USGS detectou um segundo terremoto, este ainda mais potente, alcançando magnitude 7,5. O epicentro do segundo tremor foi identificado perto de Yumare, uma localidade ligeiramente mais ao norte do ponto inicial. A diferença temporal entre os dois eventos foi de apenas 39 segundos, conforme dados da agência.
Delcy Rodríguez detalhou que os estados de Caracas, La Guaira, Miranda, Aragua, Carabobo e Falcón sofreram os impactos dos sismos principais e de mais de 20 réplicas. Diante da gravidade, o governo venezuelano declarou estado de emergência.
A presidente interina destacou as “graves consequências” dos abalos e expressou solidariedade às famílias que enfrentam a perda de seus parentes.
Confirmou-se também a expectativa de chegada de equipes de resgate internacionais, provenientes de países como Estados Unidos, República Dominicana, El Salvador, México e Catar, durante a quinta-feira (25/06). Rodríguez fez questão de agradecer o apoio dos governos estrangeiros.
“Estamos comprometidos em um trabalho intenso de resgate para salvar o maior número de vidas possível”, afirmou a presidente interina.
Fotos e vídeos divulgados de Caracas e La Guaira revelam a devastação, com múltiplos edifícios colapsados e inúmeros outros apresentando severos danos em suas estruturas. O alerta do USGS aponta para um cenário de prováveis vítimas fatais e prejuízos econômicos de grande escala.
O forte tremor resultou na evacuação em massa de diversos imóveis na capital, forçando milhares de moradores a permanecerem nas ruas, receosos de novos abalos secundários.
Conforme informações do Itamaraty, os sismos também foram percebidos em partes da Região Norte do Brasil, especialmente em localidades brasileiras próximas à divisa com a Venezuela.
O governo do Brasil manifestou profundo pesar pelas perdas e estragos provocados pelos terremotos.
Em comunicado oficial, o Itamaraty declarou: “O Brasil expressa solidariedade ao governo e à população da Venezuela e deseja pronta recuperação aos feridos”. O governo brasileiro orientou que cidadãos do Brasil atingidos entrem em contato com a embaixada através do número +58 414-3723337.
O prefeito de Belém, Igor Normando, confirmou que edifícios foram preventivamente esvaziados em certas áreas da cidade. Contudo, não foram registrados danos estruturais ou vítimas na capital paraense.
“Continuamos acompanhando a situação e implementando todas as providências essenciais para assegurar a proteção dos cidadãos”, completou o prefeito.
Durante seu discurso, Delcy Rodríguez estendeu seus agradecimentos a chefes de estado de várias nações, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Previamente, Trump havia publicado na rede Truth Social que os EUA “estão preparados, dispostos e capazes de auxiliar”, informando que havia “instruído todas as agências do nosso governo a se prepararem para agir com rapidez”.
Em suas próprias redes sociais, Rodríguez reforçou sua gratidão, afirmando que “a Venezuela nunca esquecerá o apoio amigo oferecido ao nosso povo neste momento de dificuldade”.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos alertou sobre a alta probabilidade de um grande número de vítimas e danos generalizados na Venezuela.
“É esperado que o desastre atinja uma vasta área”, e réplicas intensas podem acontecer posteriormente, de acordo com o USGS.
A agência indicou uma probabilidade de 44% para que o número de mortos exceda 10 mil, e 30% de chance de que ultrapasse a marca de 100 mil.
Há, ainda, um risco considerável de deslizamentos de terra e de liquefação do solo. Este último fenômeno consiste na instabilidade de sedimentos pouco compactados durante um terremoto, manifestando-se como um movimento lateral da terra.
Emissão de alertas de tsunami e fechamento do principal aeroporto

Na esteira dos terremotos, alertas de tsunami foram acionados para a Venezuela, Aruba e Bonaire. Avisos preventivos também foram emitidos para Porto Rico e as Ilhas Virgens Britânicas, conforme o Sistema de Alerta de Tsunamis dos EUA. Contudo, todos esses alertas foram subsequentemente suspensos.
O ministro do Interior, Diosdado Cabello, anunciou a mobilização de equipes de segurança, defesa civil, bombeiros, policiais e voluntários para prestar assistência nas regiões impactadas.
Ele aconselhou a evacuação de edifícios pela população, devido ao perigo de mais réplicas, e descreveu cenários críticos em bairros de Caracas, como Los Palos Grandes e Altamira.
Gustavo Duque, prefeito do município de Chacao, reportou o colapso de um prédio de oito andares e outro de doze. Ele acrescentou que 18 indivíduos foram resgatados com vida.
Para prevenir novos acidentes, o fornecimento de gás natural foi suspenso nas localidades afetadas, como medida de segurança.
Adicionalmente, ocorreram interrupções no fornecimento de energia elétrica e falhas na internet. As operações do metrô de Caracas foram suspensas, as linhas ferroviárias sofreram paralisações e o abastecimento de água apresentou problemas em diversas áreas.
No período noturno, o governo venezuelano comunicou o encerramento do Aeroporto Internacional Simón Bolívar de Maiquetía, o mais importante terminal aéreo que serve a região da capital Caracas.
Delcy Rodríguez, presidente interina, confirmou que a infraestrutura do aeroporto sofreu “danos graves”, o que levou à suspensão de todas as operações por tempo indeterminado.
Material em vídeo compartilhado nas redes sociais registrou cenas de pânico no Aeroporto Internacional de Maiquetía, com dezenas de indivíduos correndo em meio ao abalo sísmico.
A presidente interina fez um apelo por calma e união da população, anunciando também a formação de um gabinete de crise integrado por altos representantes governamentais.
“Nossa principal mensagem para a população é a de que devemos manter a união para preservar vidas”, declarou Rodríguez em cadeia nacional.
O governo também informou a suspensão das atividades escolares e econômicas não essenciais para os próximos dias.
Relato de jornalista em Caracas: “O mais forte que senti na vida”
“Este foi o abalo sísmico mais intenso que já experimentei”, relatou Nicole Kolster, jornalista e colaboradora do serviço em espanhol da BBC News Mundo.
Moradora de um apartamento no sétimo andar no bairro Los Palos Grandes, no coração de Caracas, Kolster sentiu o terremoto com grande força.
“Tudo começou a tremer, as janelas se moviam, e minha reação imediata foi buscar abrigo entre a porta de entrada e uma parede de pedra, que considerei suficientemente robusta para me proteger”, descreveu a jornalista.
Kolster permaneceu nesse local “por um período considerável”, até ouvir os vizinhos gritando para que todos descessem para a rua.
“Em 37 anos, é a primeira vez que experimento um tremor com essa intensidade. Foi tão forte que imaginei que o edifício desabaria sobre mim”, contou ela, acrescentando que, em meio aos destroços de um prédio colapsado, era possível ouvir vozes pedindo ajuda.
Imagens e vídeos compartilhados mostram vizinhos reunidos nas ruas, alguns chorando, outros buscando conforto em abraços.
Várias construções foram evacuadas na capital venezuelana. Uma testemunha relatou à Reuters que o abalo provocou rachaduras em seu apartamento e que as janelas de vidro se estilhaçaram.
“O edifício estava oscilando intensamente. A polícia me auxiliou na descida, pois eu não conseguia me locomover sozinha”, narrou María Romero, uma aposentada de 80 anos residente na região sul de Caracas.
O USGS emitiu um alerta indicando que novas réplicas, que podem ser fortes, ainda são uma possibilidade nas próximas horas ou dias.
Cabello confirmou à televisão estatal que moradias e edifícios ruíram como resultado do terremoto. Ele acrescentou que “todos os órgãos de segurança e assistência, proteção civil, voluntários, bombeiros e policiais estão totalmente mobilizados”.
O ministro instou todos os venezuelanos das áreas atingidas a evacuarem os edifícios para garantir a segurança diante da possibilidade de novas réplicas, apelando também pela manutenção da calma.
Em relação à capital, ele informou que “diversas regiões estão em estado crítico”, na zona leste, especificamente nos bairros de Los Palos Grandes e Altamira, onde “há situações alarmantes” por conta do desabamento de estruturas.
O terremoto mais potente desde o século XX
De acordo com informações do Serviço Geológico dos Estados Unidos, um dos tremores da noite de quarta-feira se configurou como o mais potente registrado no país desde o ano de 1900.
O primeiro sismo apresentou magnitude de 7,2, conforme o registro do USGS, e foi seguido por um segundo tremor, de 7,5, com um intervalo de menos de um minuto.
O histórico de terremotos da agência governamental revela que um abalo de magnitude 7,7 atingiu a costa venezuelana em 29 de outubro de 1900, evento conhecido como o terremoto de San Narciso.
A profundidade na qual um terremoto se manifesta em relação à superfície terrestre é um dos elementos mais determinantes para o seu impacto sobre a população.
Um sismo ocorre quando duas placas tectônicas da Terra se movem bruscamente em direções opostas, liberando uma vasta quantidade de energia. Ao atingir a superfície, essa energia gera os tremores no solo.
Quanto mais superficial for o foco do tremor, maior será a intensidade sentida na superfície e, consequentemente, maior o potencial de destruição.
Os dois terremotos consecutivos de quarta-feira se caracterizaram por serem bastante superficiais, com focos a menos de 30 quilômetros da superfície.
Manifestações de solidariedade internacional
Chefes de estado de diversas nações têm expressado seu apoio e solidariedade à Venezuela.
O presidente da França, Emmanuel Macron, utilizou a rede social X para manifestar solidariedade às vítimas, seus familiares e às equipes de resgate atuando na região.
Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, assegurou total apoio espanhol ao povo venezuelano, afirmando que seus pensamentos e os de seu país estão com as vítimas e seus entes queridos.
Em coletiva de imprensa, Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, informou que o país envidaria todos os esforços para auxiliar a Venezuela, ressaltando que, até o momento, não havia registros de cidadãos chineses entre as vítimas.
Nayib Bukele, presidente de El Salvador, anunciou a prontidão de 300 socorristas e paramédicos, além de 50 toneladas de equipamentos, medicamentos e suprimentos vitais, para serem enviados de seu país a Caracas.
O gabinete do presidente argentino Javier Milei divulgou que o presidente “manifesta sua mais profunda solidariedade ao povo venezuelano após os potentes terremotos que abalaram a região costeira norte da Venezuela na quarta-feira”.
“Independentemente de quaisquer divergências que possam existir entre nossos governos, o presidente Javier G. Milei estende sua mão em solidariedade à população venezuelana diante de um desastre natural que demanda uma resposta global”, completou a nota.
Claudia Sheinbaum, presidente do México, expressou sua solidariedade à população da Venezuela e confirmou que o país solicitou apoio com equipes especializadas em resgate e atendimento médico.
José Antonio Kast, presidente do Chile – nação com notável experiência em terremotos – informou ter oferecido ao governo venezuelano apoio na coordenação de ajuda humanitária e na colaboração com as equipes de resgate para enfrentar a emergência sísmica.

















