SUS implementa estudo clínico com canetas emagrecedoras para pacientes com obesidade grave em hospital do Rio Grande do Sul
O Ministério da Saúde, sob a liderança do ministro Alexandre Padilha, deu o pontapé inicial nesta sexta-feira para a fase de testes de canetas emagrecedoras dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). O projeto piloto contemplará um grupo de 250 indivíduos com obesidade severa, já em acompanhamento no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), localizado em Porto Alegre. A iniciativa já havia sido adiantada por Padilha em entrevista anterior.
A primeira dose do medicamento foi administrada a um paciente na manhã de sexta-feira, no Rio Grande do Sul, marcando o início prático da pesquisa. O protocolo da avaliação abrange diversos aspectos cruciais, incluindo a eficácia, a segurança, os resultados clínicos e a análise de custos dos fármacos à base de semaglutida no âmbito do sistema público. A projeção da pasta da Saúde é que a adoção dessas canetas possa significar uma diminuição significativa nas filas de espera por cirurgias bariátricas.
A coordenação do estudo será compartilhada entre o Ministério da Saúde e a equipe técnica do hospital. O foco recairá sobre 250 pacientes que sofrem de obesidade grave ou apresentam comorbidades relacionadas, como problemas cardíacos, e que já possuem indicação para procedimentos de cirurgia bariátrica. Os recursos para a execução da pesquisa são provenientes da Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FAURGS), com aportes financeiros da empresa Novo Nordisk.
Com um período de dois anos de duração, o levantamento vai monitorar indicadores como o índice de perda de peso, a melhoria na qualidade de vida dos participantes, os desfechos de exames laboratoriais, as condições clínicas pós-intervenção e os gastos totais envolvidos no processo. O Ministério da Saúde espera que esta investigação gere dados relevantes e aplicáveis à prática clínica no país, auxiliando na formulação de futuras abordagens para o tratamento da obesidade severa.
“O objetivo principal é entender a viabilidade e o melhor uso dessa classe de medicamentos no sistema público de saúde”, explicou Padilha em entrevista anterior. O ministro destacou que a iniciativa pode gerar “impactos econômicos favoráveis”, exemplificando a redução de listas de espera para cirurgias bariátricas e a diminuição de complicações cardíacas associadas à obesidade e ao diabetes. Ele ressaltou ainda que as canetas não são vistas como “soluções estéticas milagrosas, nem como a única resposta para o desafio da obesidade”.
Fármacos injetáveis para perda de peso, amplamente conhecidos por nomes comerciais como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, funcionam mimetizando a ação do hormônio GLP-1 no organismo. Essa substância promove a produção de insulina no pâncreas, justificando seu uso no tratamento do diabetes tipo 2. Adicionalmente, elas retardam o esvaziamento gástrico e ativam centros de saciedade no cérebro, contribuindo para a diminuição do peso corporal.
Descobertas recentes sobre o impacto em cânceres relacionados à obesidade
Uma recente publicação na renomada revista científica Annals of Oncology revelou uma diminuição de 41% no risco de desenvolver cânceres associados à obesidade em indivíduos com excesso de peso que utilizaram as canetas emagrecedoras. Esta pesquisa se destaca por ser a primeira a analisar tal benefício em pacientes que não possuíam diagnóstico de diabetes, doença para a qual os medicamentos também são frequentemente prescritos.
A investigação foi desenvolvida por cientistas do Houston Methodist Hospital, localizado nos Estados Unidos. Eles examinaram dados de 229.467 pacientes com obesidade, extraídos do TriNetX, uma vasta base de dados americana que compila registros eletrônicos de saúde de aproximadamente 113 milhões de cidadãos dos EUA.
Disponibilidade e regulação de medicamentos semelhantes no mercado nacional
Recentemente, há pouco mais de dez dias, o fármaco Ozivy, fabricado pela companhia farmacêutica EMS, teve sua comercialização iniciada no território brasileiro. Este produto representa o primeiro a base de semaglutida sintética a obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o manejo do diabetes tipo 2. Atualmente, outros 17 laboratórios também submeteram solicitações de registro, que seguem em processo de análise pela Anvisa.
Pelo programa “Vida + Leve”, disponibilizado pela EMS, um conjunto contendo duas canetas multidose de 1 mg, suficiente para os três meses iniciais de tratamento, é ofertado pelo valor de R$ 863,23, o que se traduz em um custo mensal de R$ 287.
Conforme informações da EMS, o lote inaugural destinado à venda compreenderá 500 mil unidades das canetas. A expectativa da farmacêutica é alcançar uma produção anual de 40 milhões de canetas, um objetivo que se sustenta em um investimento superior a R$ 1,2 bilhão. Este cenário de alto custo e demanda no mercado privado reforça a relevância do estudo do SUS para democratizar o acesso a um tratamento eficaz para a obesidade.

















