Nova pesquisa explica por que pochete abdominal aparece com idade

Pochete, gordura abdominal, barriga Foto: Pochete, gordura abdominal, barriga - New Africa/shutterstock.com

Um novo tipo de célula-tronco, que se manifesta durante o processo natural de envelhecimento, pode ser o principal catalisador para o acúmulo de gordura na região abdominal na meia-idade. Essa revelação, fruto de uma pesquisa conduzida por cientistas do City of Hope, nos Estados Unidos, foi divulgada na prestigiada revista “Science”.

O estudo revela que, à medida que o corpo envelhece, o organismo não apenas expande as células de gordura já existentes, mas também inicia a produção ativa de novas células adiposas especificamente na área do abdômen. Esta descoberta inovadora abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos direcionados à obesidade associada ao envelhecimento.

A doutora Qiong (Annabel) Wang, coautora do estudo e professora associada de endocrinologia molecular e celular no Arthur Riggs Diabetes & Metabolism Research Institute do City of Hope, explicou que é comum as pessoas perderem massa muscular e ganharem gordura corporal com o avançar da idade, mesmo que o peso total permaneça inalterado. Ela acrescentou que a pesquisa identificou que o envelhecimento ativa a chegada de um novo tipo de célula-tronco adulta, o que impulsiona a geração maciça de novas células de gordura pelo corpo, especialmente na região da barriga.

A investigação, realizada em colaboração com cientistas da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), combinou experimentos detalhados com camundongos e análises aprofundadas de células humanas. O foco inicial dos pesquisadores recaiu sobre o tecido adiposo branco (WAT), que atua como principal reservatório de energia do corpo e é o maior contribuinte para o ganho de peso e o acúmulo de gordura abdominal.

Com base no conhecimento prévio de que as células de gordura podem aumentar de tamanho conforme o envelhecimento avança, a equipe levantou a hipótese de que um processo secundário estaria ocorrendo simultaneamente: a formação contínua de células de gordura inteiramente novas.

Para verificar essa teoria, os pesquisadores examinaram as células progenitoras de adipócitos (APCs), um tipo de célula-tronco presente no tecido adiposo com capacidade de se transformar em células de gordura maduras. Eles então transplantaram APCs retiradas de camundongos jovens e de camundongos mais velhos em um terceiro grupo de animais mais jovens.

Os resultados obtidos revelaram que as APCs provenientes de animais mais velhos eram responsáveis pela criação de grandes quantidades de novas células de gordura. Em contrapartida, no experimento reverso, as APCs de camundongos jovens transplantadas em animais mais velhos produziram um número comparativamente baixo de novas células. Esses dados sugeriram que a capacidade de produzir gordura de forma acelerada estava intrinsecamente ligada às próprias APCs mais antigas, e não dependia do organismo receptor.

Fita métrica, barriga, gordura abdominal
Fita métrica, barriga, gordura abdominal – ARMMY PICCA/shutterstock.com

Através do sequenciamento de RNA de célula única, uma técnica que permite analisar a atividade genética em células individuais, os cientistas observaram que as APCs permaneciam relativamente dormentes em camundongos jovens. No entanto, ao atingir a meia-idade, essas células se tornavam altamente ativas, passando a gerar um volume significativo de novas células de gordura.

O doutor Adolfo Garcia-Ocana, presidente do Departamento de Endocrinologia Molecular e Celular do City of Hope, explicou que, enquanto a capacidade de crescimento da maioria das células-tronco adultas tende a diminuir com a idade, o oposto ocorre com as APCs: o envelhecimento, de fato, liberta o potencial dessas células para se desenvolverem e proliferarem. Ele afirmou que esta é a primeira evidência de que a barriga cresce com o envelhecimento devido à alta produção de novas células de gordura pelas APCs.

Aprofundando a investigação, a equipe descobriu que o envelhecimento não só ativava as APCs, mas também transformava parte delas em uma população celular inédita, denominada preadipócitos comprometidos específicos do envelhecimento, ou CP-As. Essas células surgiam de forma exclusiva durante o envelhecimento e demonstravam uma eficiência notável na geração de novas células de gordura.

Para determinar se essas descobertas poderiam ser aplicadas a seres humanos, a equipe analisou amostras de tecido de pessoas de diferentes faixas etárias, utilizando a mesma técnica de sequenciamento de RNA de célula única. Os pesquisadores identificaram células com características muito semelhantes às CP-As observadas nos camundongos. Essas células estavam presentes em maior quantidade nos tecidos de indivíduos de meia-idade e exibiram uma forte capacidade de gerar novas células de gordura.

Qiong Wang enfatizou que os achados da pesquisa ressaltam a importância de regular a formação de novas células de gordura para combater a obesidade associada ao envelhecimento, que está ligada a diversos distúrbios metabólicos. Ela observou que a compreensão do papel das CP-As em distúrbios metabólicos e de como essas células surgem durante o envelhecimento pode abrir portas para novas soluções médicas eficazes, que ajudem a reduzir a gordura abdominal e, consequentemente, melhorem a saúde geral e a longevidade.

Os cientistas agora planejam monitorar as CP-As em futuros estudos com animais, aprofundar a investigação do comportamento dessas células em humanos e explorar estratégias para bloqueá-las ou eliminá-las. A expectativa é que, se bem-sucedidas, essas abordagens possam, no futuro, auxiliar na prevenção do acúmulo de gordura abdominal, um problema comum associado ao envelhecimento.

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